sábado, 27 de dezembro de 2014

APERTE OS CINTOS EM 2015

   Todo dia penso em voltar a escrever...


   
   A última prova de Corrida de Aventura com treino mais ou menos em dia foi o Desafio dos Sertões. Na última etapa do CICA, fomos só pra espairecer um pouco as tensões dos dias difíceis. Foram tantos acontecimentos... Meu pai no hospital... Meu casamento surpresa (Que foi lindo!) no Desafio dos Sertões... A viagem de lua-de-mel de 24h... O retorno pro enterro do meu pai... Como nada pode ser tão ruim que não possa piorar, tivemos um problema de saúde na família que sacudiu a vida de todo mundo de maneira jamais pensada.
   Vinha sonhando com veículos desgovernados havia meses. Ora sem volante, ora sem freio, ora em garagens muito apertadas. Até com avião desgovernado, já sonhei! Dizem que o carro em sonhos significa a própria vida. Imagino até porque parei de sonhar: o sonho virou realidade.
   As mudanças de caminho que acontecem comigo são assim: a Energia Divina conspira e resolve que vai ser daquele jeito. Caso eu resista, minha vida para. Para mesmo! Aquelas velhas paradas para reflexão. Como um freio brusco de um carro, onde todo mundo cai lá na frente com o coração na boca, percebendo que esqueceu de afivelar os cintos de segurança. Daquele freio que lhe deixa paralisado, sem ação. E a família inteira estava dentro do carro dessa vez. Como nos sonhos. E quem sabe os sonhos não eram avisos pra apertarmos os cintos porque a zorra ia pegar?
   Nos meus 40 anos torci o pé numa cama elástica. Foram tantas reflexões naquela época que nem conto. A família e os amigos precisaram se mobilizar pra me ajudar. Até hoje agradeço!
   A vida virou ao avesso outra vez. O ano de 2014 foi, seguramente, o mais difícil da minha vida. O carro desgovernou, perdeu o freio, capotou algumas vezes. Cinco dias de Ecomotion é fichinha pra tudo isso. Tivemos que nos agarrar uns aos outros pra depois avaliar as avarias.
   Parei de treinar, pedi licença do trabalho, desmarquei pacientes para me dedicar à minha família e reorganizar a vida. Tivemos que recomeçar, renascer das cinzas, viver um dia após o outro, comemorar cada amanhecer e cada pequena vitória alcançada. E, diante de tantas dificuldades, pensei em muita coisa que a gente já sabe mas é sempre bom lembrar:
1. Não há desafio na vida que a gente não seja capaz de suportar. Como dizia a minha avó: "Deus dá o frio conforme o cobertor.";
2. Gratidão é fundamental;
3. Sorte é uma questão de ponto de vista;
4. A família e os amigos verdadeiros sempre estão por ali, torcendo para que você fique bem;
5. Existe sim, uma força maior que tudo na vida, que conspira em seu favor e organiza a bagunça;
6. Acredite, reze e queira bem a Deus e ao mundo.
7. A vida é maravilhosa quando se faz terapia do amor ao próximo.

   
   A notícia boa é que o carro já voltou a andar, agora estamos todos afivelados. Dessa vez, uns aos outros. E nunca mais nossa vida será a mesma. Será melhor, sem dúvida!
   Que tenhamos um Ano Novo cheio de vibrações positivas, com muitas notícias boas, viagens, corridas, treinos, amigos, família, sorrisos, esperança, paciência, amor e harmonia. Meus desejos pra 2015 não cabem nessa postagem. 



FELICÍSSIMO ANO NOVO PRA VOCÊ E SUA FAMÍLIA!


terça-feira, 9 de setembro de 2014

Resenha do Cangaço 2014


   Perrengue de Corrida de Aventura nem faz cócegas diante dos desafios que a vida tem jogado em minha cara. Sabendo que não há injustiça Divina, entendo tudo como merecimento. Nada acontece que eu não seja capaz de suportar, por isso aceito os desafios com gratidão. Algumas vezes esperneio porque ninguém é de ferro. Pergunto a Deus se ele não está exagerando... Bem.. Se ele responde, ainda não consegui compreender. Tem sido um ano de muita luta! Bom é que a vida nos dá muitas chances de recomeçar e nada como um amanhecer para renovar as esperanças. E foi nesses quase 10 anos de Corrida de Aventura que arrumei ainda mais forças para enfrentar os perrengues da vida.
   Dentre as notícias boas (afinal não estou aqui pra lamentar), estamos engrenando nosso patrocínio com a Targa Náutica. Os laços vêm se estreitando porque a gente sempre está pinotando por cima de um pódio por aí afora. As camisas vão pro forno, os coletes estão prometidos, as inscrições garantidas, e por aí vai a nossa viagem.


   Inexperientes que somos com essa coisa de patrocínio, algumas vezes esquecemos de levar o modesto kit divulgação, outras vezes esquecemos de postar no Facebook. Mas, sabemos que temos muito a melhorar, muito que treinar, muito a nos dedicar. Isso é só o começo!
   Voltando à corrida, por causa desses perrengues, depois da primeira etapa do CICA, só aparecemos agora, na quarta e última etapa. E faltou pouco pra gente não ir. Mas, quem tem um marido como o meu não pode reclamar de muita coisa. Ele organizou tudo, de tal maneira que só precisei ir pra prova.
   Aproveitamos para passar o fim de semana com a família em Feira de Santana...
   Domingo cedinho estávamos no local combinado. Mas, não era ali não. Percorremos um trecho de 2km até a beira do rio Jacuípe pra deixar as bicicletas. Meu carrinho, coitado, que não curtiu essa ideia. Vai ter que ir ao mecânico em breve.
   De lá, voltamos pra Marina de Feira, local da largada.
   Tínhamos três problemas básicos nessa prova:
1. Falta de treino. Meu querido treinador Tadeu bem sabe que, mesmo antes do Desafio dos Sertões, estávamos treinando o que dava. Depois disso a coisa degringolou geral, rsrs!
2. Levamos pouca comida pro primeiro trecho de trekking, sem contar que já estávamos com fome ali, antes de largar. Falha nossa!
3. Meu amor levou apenas uma mochila pequena pra nós dois, daquelas de ciclismo. Coisa que a gente nunca fez. E, com uma mochila tão pequena, onde colocaríamos nossos tênis? Sem queixas, Lulu! Você não ajudou em nada, fica quieta!
   Nada disso tirou a gente do jogo, nem o nosso humor. Decidimos ir pensando o que fazer, rs!, no meio da prova.
   O tempo estava uma beleza para uma Corrida de Aventura. Friozinho gostoso, garoa fininha. Trilhas, relevos e vegetação, o mapa prometia cabeça ocupada por, pelo menos, quatro horas.


   Os três primeiros prismas eram de orientação, com um mapa diferente, até chegar ao PC1. Estabelecemos nossa sequência e partimos pra prova no trotezinho. Foi uma orientação tranquila, um começo de prova muito bacana, cheio ladeiras, valas, espinhos, cansanção. Aquela adrenalina da largada... Nada mais gostoso para deixar a vida da pessoa toda problemática e sequelada mais leve!
   O PC2 era pra ser uma coisa horrorosa! Um trekking até o topo do morro, com poucas opções de trilha! Vitor contava passos até a hora do ataque pra subida. Ali estávamos junto com a dupla mista da Caatinga Trekkers. Começamos a subida juntos, e junto com Marcelo e Claudio também, nossos irmãos Aventureiros do Agreste. Preferi atacar por onde achava que encontraria uma trilha em linha reta. No começo foi até fácil subir beirando a cerca, travando no azimute certinho. Depois a coisa ficou séria! Apareceu uma pedra enorme na frente da gente e a mata fechou. Os cansanções e mandacarus apareceram aos montes. Treva! Mesmo assim, subimos, rasgando matos nos peitos. No caso de Vitor, nos ovos, rsrsrs! A pessoa meteu os ovos no cansanção! Nunca tinha visto isso em minha vida!
   Conta feita, pegamos nossa esquerda e lá estava o PC. Demoramos tão pouco pra encontrar o PC2, que fiquei confusa, rs! Coisa de mulherzinha mesmo! O planejamento da descida foi até esquecido por alguns minutos. Ficamos discutindo o sexo dos anjos em pleno PC2, perdendo tempo e dando pista pra outras equipes, rs! Mas, enfim, descemos, sempre abrindo caminho até cruzarmos a primeira trilha e encontrarmos a segunda, que nos levaria até o PC3. Delícia de descida! Logo chegou uma cavalaria. Estávamos na frente de uma galera da zorra! O povo descia muito afoito, e o que teve de gente pegando trilha errada não está no gibi! Nada como um azimute pra fechar o diagnóstico nas bifurcações! Sei que preciso e devo navegar mais rápido, mas não tem nada que pague o preço de navegar sem errar. A gente acaba se dando bem sem desespero. Aliás, desespero sempre me tira de prova.
   Depois da chuva, as pedras do rio ficaram extremamente escorregadias. Limo puro. Qualquer vacilo era suficiente para uma boa queda. Confesso que atravessei sem agrestia, respeitando pedra por pedra. Preferia até enfiar o pé na lama a pisar numa pedra.
   Lá no PC3, pegamos as bicicletas numa transição até rápida. Uma boiada passara minutos antes da nossa chegada, derrubando várias bicicletas, inclusive as nossas. Estava tudo meio bagunçado. Ainda bem que nada quebrado! Quanto aos nossos tênis: um par foi pra rede da pequena mochila, outro para os bolsos de Vitor. Eu corri sem nada, minha gente! Livre, leve, solta e feliz da vida por estar ali.
   Do PC3 ao PC4 percorremos quase 3km pela beira do rio. Um sigletrack gostoso, fácil, sem muitos obstáculos, exceto pelos galhos baixos das árvores. Marcelo e Claudio fizeram a prova quase toda com a gente. Eles navegando de lá, nós navegando de cá. Não abro mão da navegação pra seguir ninguém. E acho o fim da picada quem faz isso! Fazer prova encarneirando sai completamente da essência da Corrida de Aventura.
   Bateu 2.8km, entramos para esquerda por um pasto cheio de vaquinhas bem no meio da trilha. Tinha até vaca parida. Mas, bastou gritar “ô ô ô ô” que elas foram saindo da frente. Nem precisamos parar de pedalar.
   Chegamos no PC4 sem muita demora e seguimos para o 5. Uma estrada tranquila até chegar ao corredor de cerca. Pena que escolhemos o caminho mais curto! O melhor caminho era um pouquinho mais longo. O problema é que nem sempre dá pra saber só olhando no mapa. Pedra como a zorra! Era preciso habilidade. Como uma cagona pedalando, acabei empurrando a bicicleta nos momentos mais tensos. PC5, te encontramos!
   Pedala, pedala, pedala! Pasto, singletrack, subida, descida. Minhas pernocas já doíam. Esse negócio de não treinar é brabo! Mas, a gente foi lá pra relaxar e isso a gente tava fazendo. Que coisa boa que é não pensar em nada fora dali! Absolutamente nada! Que delícia aquele contato com a natureza! Até lembrei de tomar um gel de carboidrato pra ver se a perna ficava melhor. Rsrs! É o que a pessoa pensa: comer, beber água, navegar, azimutar pra não sair do caminho... Uma verdadeira limpeza da mente!
   Chegamos no PC6, fomos pro 7 sem demora pra não pegar o corte. Até caí de joelhos no caminho de pedras. Só faltava rezar!
   Por 7 minutos fomos cortados. E muita gente boa foi cortada também! Não estávamos tão mal. Desviados para o PC12, ainda era preciso navegar! As distâncias estavam precisas mas, era necessário atenção às bifurcações! A entrada do PC13 estava ali, quase a gente passa direto.
   Mais corredor de pedras, mais sigletrack! A dupla mista da R2 estava por perto. A pressão de ir atrás e não deixar passar não me contaminou. Minhas pernas ardiam tanto! Claro que queria continuar em segundo lugar! Mas, se não desse, paciência! Eles estavam na companhia da Makaíra e isso os ajudava bastante. Sem navegação fica bem complicado chegar a qualquer lugar, isso ninguém pode negar! Sem perna também não! Cada um com seus problemas.
   A chegada se aproximando e ainda nos embrenhávamos por muito mato alto. A trilha era quase fechada pra pedalar, cheia de espinhos e ainda tivemos que pular duas cercas com as bicicletas. Deu trabalho chegar até a estrada! E, mesmo na estrada o sofrimento continuava, as ladeiras pareciam infinitas. Até meu super marido ciclista sentiu. Se aparecesse uma equipe atrás de nós, estávamos ferrados! Não aguentava pedalar mais do que aquilo nem a pau!
   Exauridos, chegamos, felizes com nosso terceiro lugar! A comida deu, a água também, conseguimos guardar nossos tênis... Foi massa!


   Parabéns à Caatinga Trekkers que, como sempre, fez uma grande festa de Aventura pra nós! Uma prova simples, enxuta, desafiadora e precisa.


Agradecimentos:
Aos meus amigos Aventureiros do Agreste, à Targa Náutica, ao meu marido lindo e minha família querida.
Até a próxima aventura!   

domingo, 24 de agosto de 2014

Desafio dos Sertões 2014 - A lua-de-mel dos Aventureiros!

 Por Vitor Hugo Moreau

Meses de preparação; apreensão, medo, frustração. Todas as marcas deixadas pelo Amargo Gosto da Desistência do Desafio dos Sertões de 2013 ainda vivas na memória. Além disso, outro preparativo se seguiu em conjunto: a de um casamento; mas essa história vai ser contada em outro release.
Desde o ano passado que temos um pacto, eu, Lu, Mauroba e Gabi. Só que as intercorrências da vida nos fizeram ir para outro caminho. Mauro e Gabi decidiram não correr os 120 km em quarteto pois não estavam treinando. Decidimos correr em dupla mas uma intervenção de Waltinho nos levou a formar um quarteto inédito nos Aventureiros do Agreste: Eu, Lu, Cláudio Ribeiro e Gilson Rosa. Muitas novidades nessa corrida; depois de muito tempo, Aventureiros do Agreste com novo patrocínio, Targa Náutica, empresa dos amigos Maurício e Ismar, de artigos náuticos que vem investindo no mercado de aventura. O Desafio dos Sertões serviram como um piloto do patrocínio e um teste de exposição de marca, formas de apoio etc. Além disso, o patrocínio nos deu motivação para treinar, mesmo com diversos problemas pessoais que vínhamos enfrentando mas que não vêm ao caso agora.
A comunicação foi fundamental na formação do quarteto, já que só tivemos tempo para um treino com Cláudio e Gilson e toda as estratégias de alimentação foram elaboradas separadamente. Aí, valeu a experiência dos amigos. Cláudio e Gilson não conseguiram chegar para o brieffing – perderam o casamento – mas parece que já tínhamos tudo acertado. A comida deles totalmente compatível com a nossa, estratégias batendo, até a marcação do mapa, feitas separadamente por Lu e Gilson batiam. Ótimo, começamos bem!
Pegar o mapa nos deu uma primeira impressão: fácil! Fácil? Não, alguma coisa está errada. As poucas trilhas marcadas nos sugeriram que Waltinho só marcou o caminho certo, deixando as erradas por nossa conta. Hehehehe...

Casamos e fomos para o hotel, preparar a comida e tentar dormir um pouco. Seis horas da manhã do dia seguinte, todos acordados. Café da manhã reforçado e partimos para Pindobaçu para deixar as bikes. Um ônibus levou a gente até Itapicuru, distrito próximo, de onde largamos. A mesma apreensão de sempre. Largada a pé, correria, fotos e fomos! Como sempre, morri três vezes nos primeiros 30 minutos. Lu catou logo minha mochila e continuamos, numa corrida que se estenderia por 6 quilômetros até a transição para o remo. Lá chegando, recebemos a notícia de que somente dois corredores da equipe iriam remar. Apesar de estar louco pra remar naquela linda represa, confesso que fiquei aliviado. O vento tava muito forte e seriam duas horas de sofrimento. Cláudio e Gilson foram. Pela primeira vez, tivemos duas horas livres no meio de uma corrida. Cochilar, comer, beber água... Teve gente que até dominó jogou! Eu tava muito tenso ainda pra isso, Hehehehe... Almoçamos – literalmente – e preparamos um almoço para Cláudio e Gilson quando chegaram do remo. Foi um ótimo trabalho em equipe; eles saíram do remo e foram direto comer, enquanto eu e Lu tirávamos o barco da água e levávamos até o PC.

Revigorados pelo peixe frito com farofa, partimos pro trekking de 12 km de volta a Pindobaçu, onde pegaríamos as bikes. Cada subida! Aí foi minha vez de retribuir o favor carregando a mochila de Gilson e dando uma força nas subidas. Lu, claro, sempre puxando o trekking, subindo como uma miserável. Que esposa que eu arrumei! KKKKKK Seguindo a trilha, chegamos junto com outras equipes nas duas casinhas marcadas no mapa. Batemos cabeça um pouco, batemos o azimute e seguimos por uma trilha no fundo até perceber que não estava certa. O azimute saía do lugar. Ôh azimute que teima em sair do lugar toda hora!!!! Decidimos voltar até as casinha, última referência. Vai, volta, tira azimute. Até Gilson voltar um pouco na trilha e perceber que a quebrada era alguns metros antes das casas. Lá de cima. Ele gritou! É aqui! Fomos correndo e lá estava a trilha com o azimute certinho.

Seguimos a trilha pela encosta do morro e, lá de cima, deu pra ver as equipes perdidas na trilha que seguimos antes. Deu pena, só-que-não! Hehehe... Muitas ladeiras intermináveis ainda viriam... e vieram. Em um momento, durante uma ladeira, marquei a incrível velocidade de 2 km/h. Como diz nosso amigo Azoubel, brocando em baixa! KKKKK. Chegamos finalmente a Pindobaçu. Um lanchinho de pão com salame e partimos com as bikes. Nada melhor na corrida de aventura do que mudar de modalidade. Achei ótimo nessa corrida haver muitas transições. Pegamos as bikes e saímos. Trilha boa, fim de tarde chegando e só pensávamos em não ser cortados para o rapel. Aceleramos! Chegamos no PC4 já com uma chuva fraca. Gilson vestiu seu anoraque junto com a bike. Optei por esperar um pouco. Saímos pro trekking rumo ao pico da igrejinha. A dica era: “segue em direção a luz da igrejinha”. Que luz? Chovia baldes e o frio começou a apertar. Seguimos descendo a ladeira enlameada até o rio. Foi quando encontramos Maurão e Lene, da R2 voltando de bike. Nos deram a notícia que o quarteto da R2 havia desistido, o que nos deu um certo alento mesmo lamentando pelos amigos da equipe. Atravessamos o rio para só depois percebermos que estávamos fora da trilha. O azimute deveria mudar antes do rio e não depois. Volta... atravessa o rio de novo para vermos que uma porteira marcava a mudança do azimute. A trilha seguia do outro lado. Fomos. A essa altura, a chuva carregava! Uma delícia aquele trekking! Tínhamos que andar rápido para o frio não pegar, o azimute estava certinho. Lá estava a travessia correta do rio. Seguimos. Passamos pela Gantuá já descendo, depois Terra Brazillis e Insanos. Quando a subida começou, percebemos como seria difícil. Parecia um sabão. No meio da subida encontramos Waltinho com a notícia: “O rapel foi cancelado!” Teríamos que voltar dali e o tempo estimado para subir e descer nos seria descontado em relação à Insanos, que estava em primeiro lugar. Paciência, melhor assim. Voltamos dali até o PC 6 e pegamos as bikes de novo.
A essa altura o frio castigou de-com-força! Decidi vestir o anoraque mas, como estava completamente ensopado, tirei as duas camisas, torci e vesti de novo... Naquele frio. Pula, pula, pula... nem vestir o anoraque curou de vez o frio! Hehehe... Saímos com as bikes debaixo da chuva cada vez mais forte. Meu farol apagou e fiquei somente com a luzinha de cabeça... minguada. Além disso, de repente... Puf! O pneu da Lu furou! Putz! Vamos trocar. Encostamos embaixo de um poste pra enxergar alguma coisa na chuva e vento que cortavam os ossos. Não dava nem pra enxergar, nem para se mexer. Iríamos congelar ali se continuássemos. Graças a Deus, uma carinha apareceu na janelinha da porta de uma casa e Lu, em sua cara-de-pau gritou: “Moça! A gente pode ficar um pouquinho na sua varanda pra se proteger da chuva?” Com a resposta positiva, entramos e – coitada – enlameamos a varanda da moça toda! Enquanto trocava o pneu, D. Nega, dona da casa, abriu a porta e, muito simpática, ofereceu café – passado na hora especialmente pra gente - e biscoitinhos. Sensacional! Uma das coisas boas da corrida é encontrar esse pessoal que abre as portas das suas casas tarde da noite, durante suas novelas, pra servir café pra um bando de estranhos estropiados e enlameados passando pela rua. Claudio e Gilson aproveitaram pra tirar uma soneca e foram acordados com uma caneca de café quente. Praticamente café na cama, hehehe...
A chuva passou antes que saíssemos. Nos despedimos da D. Nega e seguimos nossa viagem rumo ao PC7. No caminho, o farol de Lu apagou também. Definitivamente, precisamos de baterias reservas para as lanternas extra-forte que compramos. Dessa forma, nosso avanço até o PC7 foi muito lento, compartilhando os faróis pra não emburacar nas valas do caminho.
O que parecia um alívio – o fim da chuva – se tornou um suplício. Nossa demora pela troca de pneu e pela lentidão do escuro sem faróis nos fez encarar um trecho de lama magnética entre o PC7 e o asfalto. Acho que foi o maior perrengue que já passei em corrida de aventura. A lama começou a secar e nos pegou bem naquele ponto meio-barro-meio-tijolo que gruda até em pensamento. Se tivéssemos passado por ali uma hora antes, poderíamos ter seguido sem problemas mas aquele foi o ponto crítico do magnetismo da lama – se é que isso existe, hehehe. Sem exagero algum, a cada 50 metros de lama, tínhamos que parar para limprar as rodas de lama que se formavam nos pneus das bikes. Virava roda de trator! Era tanta lama que não dava nem pra empurrar. A lama travava as rodas até empurrando. A cada riachinho que passávamos, tínhamos que parar para fazer uma geral nas bikes. Acho que os sete km que se seguiam desde o PC7 até o asfalto, levamos cerca de cinco horas. Suplício!

Pegamos a trilha mais curta – supostamente – pela esquerda, passando pela linha do trem e atravessando o rio até o asfalto. Tivemos que atravessar carregando as bikes na cabeça porque a água batia na cintura. Nada de mais pro perrengue que já tínhamos passado. Minha bike já estava praticamente sem freios e a lama corroía discos e catracas de um jeito que dava medo. Jilvan vai ter muito trabalho na segunda-feira, hehehe...
Chegamos ao asfalto! Que alívio! Só cinco quilômetros pra mudança de modalidade! Ufa! Pedalamos em linha pelo acostamento. O vento voltou a dar o castigo do frio mas seguimos bem! Chegando à última descidinha na entrada de Campo Formoso, vi que meus freios haviam ido de vez. Temi pelo resto da prova pois ainda iríamos precisar das bikes.
Chegando ao PC8, comida de verdade: presunto cru (uau!), sardinha em lata e água! Muita água! Waltinho veio com o veredito: “Vocês podem pegar o PC9 e tomar o corte no PC10 ou podem ser cortados agora e nem pegar o PC9”. Confesso que foi um alívio porque não precisaríamos fazer o último trecho de bike. Não por mim, mas pela minha magrela, coitada. Tava tão estropiada que achei que ia ser uma judiação com a bichinha voltar praquela lama.
Nem cogitamos em não pegar o PC9! Claro que vamos! Subindo o morro, já não competíamos com ninguém. Fomos tranquilos mas sem demora. Todos queriam findar logo aquele sofrimento. Subimos e ladeirão infinito até o cruzeiro. Sentamos para beber um PowerAde aos pés do Cristo e descemos papeando – como sempre, bons Aventureiros do Agreste. Chegamos de volta ao PC10 com a felicidade do dever cumprido. Fomos informados do terceiro lugar. Um pódio, além de tudo! Que notícia ótima. Daí foi só tomar um banho, tirar um cochilo de duas horinhas, comer e voltar inteiros pra premiação.

Que prova! Como sempre, Desafio dos Sertões! Uma prova que não decepciona. Resistência é sempre o mote. Mapa impecável! Waltinho e equipe, novamente de parabéns! Fizemos uma ótima prova. Lu, Gilson e Cláudio foram ótimos companheiros, adorei correr com eles, principalmente os que correram comigo pela primeira vez, Gilson e Cláudio. Espero que seja a primeira de outras muitas.

Lavei a alma do ano passado, fiz uma excelente corrida e, melhor de tudo, casei! Casei em pleno Desafio dos Sertões. Realmente inesquecível! Obrigado a Waltinho e Roberta pela força e por terem apoiado minha ideia maluca desde o primeiro contato! Obrigado a Mauro e Gabi por despencarem até Campo Formoso com as crianças só pra participar desse casamento maluco! Obrigado a Gilson e Claudio pelo companheirismo e obrigado a todos os corredores de aventura que correram no Desafio dos Sertões e em todas as provas que nos ajudam a viver esse mundo doido das aventuras!

O casamento no Desafio dos Sertões 2014



   Lá estávamos nós, no briefing do Desafio dos Sertões, preparando o mapa para mais uma aventura de 120km, entre canoagem, mountain bike e trekking. Entretida com aquele mapa sem muitas trilhas, desconfiava apenas daquela facilidade, de mais nada. Não tá vendo que isso não é normal!? Básico demais! Por isso que medi as distâncias direitinho e não perdi nenhuma oportunidade de traçar azimutes. Já conheço esse pessoal.


     Desafio dos Sertões com os filhos?! Ficaram loucos!!? Que invenção era aquela? Participar de uma Corrida de Aventura cheios de meninos pendurados. Coisas de Mauro e Gabi... Disseram que, se encontrassem alguém para tomar conta dos meninos, fariam a prova de 50km. Nem desconfiei que estavam aprontando alguma coisa. Só achei que estavam ficando mais doidos ainda. Talvez pela idade, rs!
   Walter Guerra, organizador do Desafio dos Sertões, terminou de explicar tudo sobre a prova e convidou Vitor pra falar um pouco sobre como manter mulheres nas equipes.. Ôxe! Que esquisito! Vitor tem tão pouco tempo de Corrida de Aventura! Mas, como ele é professor, achei que deveriam ter combinado algo, já que nossa equipe realmente tem mais mulheres do que as outras... Até dei um gritinho pra ele falar mais perto do microfone, porque não dava pra ouvir direito.
   Parecendo nervoso, Vitor falou um pouco sobre o assunto e me convidou à frente também, sob o pretexto de eu ser mulher e, também, navegadora da equipe. Foi quando o rumo da prosa mudou! Ele começou a falar sobre algumas corridas que fizemos e dos aprendizados durante esse tempo. Assustada, pensei:
   - Será que esse cabra vai me pedir em casamento? Vou desencalhar, rsrs!
   Olhando pra mim, a criatura sacou duas alianças do bolso e fez o pedido. Antes mesmo de responder, brotaram pessoas da organização da prova de todos os lados com todo material pra realizar um casamento.
   Um susto com o pedido e outro susto com o kit completo de casamento. Um bolo lindo de três andares, duas camisas diferenciadas do Desafio com a frase “Aventureiros para Sempre” nas costas, taças personalizadas do Desafio dos Sertões, champanhe, refrigerantes, buquê de flores do campo, música. Gabi já chegou pelo outro lado com uma grinalda presa a um capacete branco. Mauro com os papéis. Que produção!

Daminha Lara
   Teve daminha e padrinhos! Então foi por isso que Mauro e Gabi foram com as crianças!


   Os papéis eram um contrato de verdade, rsrs! Meu Deus! Se precisasse de tempo pra pensar, minha gente, não dava não! Os mais de cem atletas que estavam no salão aplaudiam, gritavam e assoviavam loucamente. Fotógrafos surgiram até do teto! Praticamente, paparazzis.


   Mauro disse algumas palavras de casamento, com a maior pinta de padreco nervoso e, finalmente, eu disse SIM para Vitor. Tinha como não aceitar?? Que coisa mais linda! Tanto cuidado e zelo! E a melhor parte é que há reciprocidade em nossos sentimentos!

Brinde dos noivos

   O bolo era de verdade, estava delicioso! Era tudo de verdade.. E todos os atletas do Desafio dos Sertões viraram convidados da festa, testemunhando e comebebemorando nosso casamento surpresa.

Nossos padrinhos

   O Desafio dos Sertões do ano passado foi tão marcante pra Vitor que ele resolveu me pedir em casamento nesse ano. Foi sua primeira prova longa, e sua primeira desistência. E os malucos dos meus amigos juntaram-se a ele e à família Desafio dos Sertões, encabeçada por Walter e Roberta Guerra, para aprontar uma festa maravilhosa.

Abraços nos convidados

   A vida tem me testado bastante por esses dias. Tanto com notícias boas quanto com notícias ruins. Mas, sinceramente, sempre prefiro agradecer a me entregar à tristeza. O que não nos mata, nos fortalece! Sinto que estou ficando mais forte!
   E tem momentos em nossa vida que a gente não esquece nunca, e esse ficará marcado para sempre!  Obrigada aos amigos que tramaram esse casamento com tanta astúcia, a ponto de eu jamais desconfiar. Foi muito especial! Agradecida, especialmente, à Vitor, que sempre arruma um jeito de tornar nossa vida especial todos os dias. Desejo que esse amor seja eterno e abençoado pela Energia Divina.
   Queria muito ter corrido com a camisa rosa e o capacete com véu mas, a minha agrestia não permitiu. A camisa ficou bem grande, ia incomodar. Vamos vestir em várias ocasiões, garanto! Quanto ao véu, quando chegasse no meio do mato, no calor, com os galhos e espinhos me puxando, eu ia ficar igual a Branca de Neve depois de sair daquela noite de trevas ao fugir do caçador, rs! Por isso, deixei tudo guardadinho.
   O quê? Lua de mel?? Vitor vai contar na próxima postagem... rsrs! Só pra adiantar, choveu muito, sentimos frio, furou pneu e tinha lama até o talo! Foi uma Corrida especial!

Pose com buquê

Beijinho na noiva

E eles se tornaram Aventureiros para sempre!
OBS: Todos os créditos das fotos para queridona Claudia Tedesco, que tira cada foto linda das nossas corridas, e agora registrou nosso casamento. Arrasou!

domingo, 25 de maio de 2014

Resenha do Running 2014- 42 km


   Como sempre tive vontade de fazer ultramaratonas e corridas de montanha, nada mais justo do que fazer a inscrição nos 42 km. Minha primeira maratona, só que no mato, sem montanha.
   Já nos treinos, percebi que o buraco era mais embaixo. Comecei a sentir bastante desconforto nos treinos longos. As dores apareciam sempre depois dos treinos, mais precisamente, quando pisava os pés na varanda de casa. Senti um medo danado de lesionar antes da prova. E durante também. Até fiz uma resenha de treino aqui no blog... Tá aí o link: Resenha de treino 
   Chegou o grande dia! 
   A largada atrasou porque um poste caiu na vila da Praia do Forte, que impediria a passagem dos atletas nos percursos de 21 e 42 km. A organização publicou uma nota oficial sobre o acontecido.
   Com o atraso, meu corpo já tinha usado meu rico café da manhã, feito com todo carinho pelo meu maridinho. Mas, aventureiro que se preza sempre leva uma comidinha reserva.
   Largamos! Só que, na saída do Castelo Garcia D’Ávila, quase todo mundo virou à direita. Só entendi o que aconteceu depois da explicação da organização. E até conseguir resgatar todos que já estavam correndo loucamente, demorou um pouquinho. Paciência... Melhor no começo da prova do que no meio.
   Antes de continuar a resenha, quero dizer que acho vaia uma coisa tão deselegante e sem educação que tenho vergonha alheia. Morro de vergonha! Problemas acontecem e quem fica insatisfeito com a situação deve ir direto à organização pra reclamar e até pedir seu dinheiro de volta. Gente, deu o maior trabalho pra tirar alguns “?*&#@%” da frente do pórtico pra recomeçar a prova.
   Continuando...
   Larguei junto com meu amigo Scavuzzi, nos 42 km, e meu treinador Tadeu, nos 21 km. Pensei em fazer o percurso todo num ritmo confortável, dentro do possível.
   Começamos com uma descida por trilha aberta, pegamos um singletrack à esquerda, seguindo em direção à praia nos primeiros 3 km. Depois de poucos metros à beira mar, voltamos por um trecho de areia fofa para passar por dentro da vila da Praia do Forte. Aquele pedacinho ali estava bem gostoso! Um pouco de sombra, um pouco de sol, trote leve pra não cansar, 21 e 42 km só na maciota.
   Passamos na igrejinha da Praia do Forte, pegamos a praia em direção à papa-gente, à esquerda. Destaque para a maré cheia! A água batia naquela parede do Projeto Tamar, deixando o percurso um tanto quanto emocionante. Eu, magricela, pequena e leve, comecei a desequilibrar nas pedras. Tinha gente nadando, mergulhando, fazendo miséria pra andar rápido. Magricela, pequena e leve, preferi me apoiar na parede pra não ser derrubada pela onda, que chegava à minha cintura em seus momentos mais agressivos. Meu celular àquela altura, poderia ter se afogado. Levei pra usar o aplicativo Endomondo. Aquele que a mulher fica falando os quilômetros durante o percurso. Pois é! Estávamos quase no km 7. Scavuzzi estava bem adiantado e Tadeu, não via mais... Quando vi que a porra tava pegando mesmo, arrumei um amigo pra segurar na mão. Toda falante, disse ao rapaz ao lado que era bem melhor passar por aquele trecho quando um se apoiava no outro. Foi o que me ajudou a sair mais rápido de lá. Isso é bom pra gente ver que, acima da competitividade, tem solidariedade entre os atletas.
Foto: Hugo Coelho
   Saindo das águas salgadas do mar da Praia do Forte, meus pés estavam ensopados. Diria até temperados. Vi gente tirando tênis mas, não sei parar pra fazer essas coisas, não. Dez pontos para os corredores de aventura! A gente corre com os pés ensopados de lama, de areia, de cocô de boi, de qualquer coisa. Tirar tênis só na transição, rs! Como maratona não tem transição, esquece essas coisas. Quem não gostou muito dessa história de correr na areia inclinada da praia foi o meu tornozelo esquerdo. Doeu um pouquinho.

   Durante esse trecho, conheci um conterrâneo de Catu, Rodrigo. Conversamos sobre quase todas as pessoas e parentes em comum. Bem que meus amigos disseram que a minha dificuldade seria não ter alguém pra conversar durante a corrida. Puxei papo com todo mundo que encontrava, rs!
   Foram 2 km de areia, até adentrar o continente para mais 1 km de areia fofa. Tinha até gente falando  que o diretor técnico da prova tinha feito aquele percurso porque fazia Corrida de Aventura, blá, blá, blá. Putz! Quanta areia! Ainda bem que acabou! Entramos, para felicidade de todos e o bem geral da nação, num parque ecológico com um calçamentozinho pra dar uma refrescada. Foi ali que encontrei alguns aventureiros, como Taty Pinheiro e Fábio, e reencontrei Scavuzzi. Até emprestei um elástico pra Taty prender aquelas madeixas enormes. Tava parecendo uma doida, correndo de cabelos ao vento, toda suada, rs!
   Tinha muitas garotas por ali. Como não gosto de ficar olhando pra saber quem é de 21 ou 42 km, não imaginava como estava minha situação. Quando terminou o parque estávamos no km 14. Deixei todos os amigos queridos pra trás para manter o ritmo  constante. E fui fazendo outros amigos pelo caminho. Os que estavam num ritmo parecido com o meu iam me fazendo companhia. Subimos, eu e meu outro novo amigo, conversando até o aeroclube de Praia do Forte. Logo em seguida me desgarrei de novo pra correr pra Sapiranga.
   Sentia uma alegria deliciosa, um frescor no peito ao pensar que começaria a melhor parte do percurso. Pelo cruzamento do Castelo, segui (sem amigo) em direção à estrada, passei por debaixo da ponte e entrei na Sapiranga. Ali, ficava a bifurcação que separava o povo de 21 do povo de 42 km. Arnaldinho estava lá, e Paulinho também... Uma menina passou por mim voando! Sem sacanagem, pensei que ela estava pegando o caminho errado. Primeiro pela velocidade, depois pelo tamanho do short. Juro! Fiquei preocupada. Se eu fizesse 42 km com aquele shortículo chegaria completamente assada ao final da prova. Faltava chão pra caramba!
   Raiai, rsrsrs!...
   Aquela subida da Sapiranga é de lascar o cano! Correndo então, nem se fala. A menina sumiu. Lá em cima, entrei numa trilha para chegar até o asfalto que vai pra Lagoa Aruá. Mais ou menos aos 19 km, Claudia e Hugo, que estavam fotografando a prova, avisaram que eu era a terceira mulher da prova. Hum!! Que legal! E meu objetivo era só terminar. Entretanto, não era hora de comemorar. Não estava nem na metade do caminho. Tinha gente atrás de mim. Na frente também. Quem sabe eu não achava alguém na frente? A coisa estava fluindo tão bem...
Foto: Sandrinha Midlej Fotógrafa

  Depois do km 20, avistei uma saia preta, numa subida de singletrack. Aquele foi o primeiro momento da prova em que deixei de correr para fazer um trekking forte. O trekking digno que uma Aventureira do Agreste. Com detalhe para as pernas, que doem mais no trekking do que correndo. Na verdade, nem estava sentindo dor ao correr. O problema era que precisava harmonizar fôlego e força. Ainda assim, ultrapassei a segunda colocada na ladeira mesmo. E voltei a correr assim que acabou a subida.
   E nunca mais olhei pra trás. Não olho mesmo! Se já estou fazendo tudo o que posso, não preciso olhar pra trás. Fico afobada e não ajuda em nada. Não faria melhor do que aquilo.
   Até pouco mais de 25 km era verde, verde e verde. Uma trilha linda e refrescante. Estava me sentindo ótima! Em Malhadas, peguei poucos metros de asfalto e voltei pra trilha. Paulinho estava lá de novo, anunciando que dali era só volta. Rsrsrs! Como assim, só volta?! Faltava chão como a zorra! Faz a conta aí! Quarenta e dois menos vinte e cinco?
   Vinte e seis quilômetros e eu estava numa estrada em direção à porteira de uma fazenda, procurando uma sombra pra correr. O dia estava lindo para pegar uma praia. Meus treinos foram todos à noite, por pura falta de tempo. Mas, sem querer me gabar, nisso eu também sou boa. Mais dez pontos para os corredores de aventura. A gente corre de dia ou de noite. Sabe se lenhar! Por isso, não perdia nenhuma oportunidade de me hidratar e jogar água na cabeça, pra não botar tudo a perder. Levei dois litros de água de côco na mochila, que saiu de casa congelada. Corri na base da água de côco, rs!
   Que fazenda linda! Tinha um lago maravilhoso, vegetação peculiar! Só não tinha sombra, rs! Passei por Felipe caminhando para aliviar as câimbras, quando descia em direção ao lago, lá pelos 30 km, perto de terminar o trecho de estradão da fazenda. Ele parecia bem! Só tentava administrar a câimbra. 
   As pessoas do staff sempre me animavam durante o percurso. Entrei em outra mata fechada, deixando uma torcida pra trás, junto com outro novo amigo. Este parecia cansado, alternando caminhadas com corrida. Acabei fazendo um trekking básico naquela subida longa que, embora tivesse leve inclinação, tentava acabar comigo. Na boa, tive a sensação que não conseguiria voltar a correr. Caminhar é mais difícil pra mim. Sério! Comecei a sentir um baixo astral esquisito, tomando conta dos meus pensamentos. Se não tivesse “sanguenozóio”, terminaria a prova caminhando dali em diante. Os pensamentos negativos foram completamente espantados por uma guerreira que tenho aqui dentro. Lembrava do meu amigo Josemar, que sempre me chamou de guerreira. Cheia de coragem e com o peito estufado, voltei a correr e deixei o meu mais recente amigo pra trás, que me animou, dizendo que quando eu chegasse no asfalto ia voar. Não sabendo ele que não tinha nenhum asfalto dali em diante, rs! Lá da frente, falei alto, que eu gostava mais de mato e saí correndo pelos matos afora.
   Então, passei por Cleverson, que também precisou dar umas caminhadas para aliviar as pernas. Percebi, então que todas as pessoas que tiveram câimbra na prova, estavam usando meias de compressão. Fiquei até feliz por deixar as minhas em casa. Ainda bem que os meninos conseguiram terminar a prova com sucesso! A galera da corrida de aventura mandou muito bem na Running!

   Pena que a moça do Endomondo parou de falar no km 32! Tive que continuar a prova mais sozinha do que sozinha. Aliás, corri sozinha por, pelo menos uns 15 km, conversando comigo mesma.
   Finalmente, chegou o trecho da Sapiranga outra vez. Minhas pernocas estavam bem cansadas. As crianças dali fizeram um alvoroço com minha passagem. Fiz a festa! Naquele momento, pensei nos meus filhos queridos. Pensei em Vitor, que me esperava na chegada. Será que ele sabia que eu estava em segundo? Será que eu conseguiria continuar em segundo? Veio um rampante de emoção que encheu meu coração de alegria ao imaginar o momento da chegada. Meu sorriso se abriu.
   Entrei na Reserva, minha amiga de longas datas, faltando pouco pra chegar (uns 7 km). Fico bem lá dentro. Com ajuda da energia da natureza, subi as poucas ladeiras fazendo trekking, buscando todas as forças do universo. Tudo que ouvia era o barulho do rio e dos bichos fugindo dos meus pés. Vi cobra, guaiamum, ouvi barulhos esquisitos. 
   Estava doida pra jogar meus óculos fora! Trambolho da zorra! Além desse incômodo, meus pés estavam reclamando dos bolos de areia do mar, minhas unhas queriam pular dos dedos e meus peitos estavam feridos pelo top assassino, que foi escolhido à dedo por não incomodar nos treinos. Foi quase uma eleição de equipamentos e roupas confortáveis antes da prova pra passar por aquilo, rs!
   Joguei meus óculos pra Arnaldo na saída da trilha. A respiração começara a descompassar. Os últimos 3 km foram sofridos. Não acabava nunca! O corpo não queria mais brincar daquilo. Mesmo assim, continuei correndo até chegar à última ladeira da prova. Depois da subida, o alívio... Quase não acreditei que saí na boca da chegada! Era só entrar no estacionamento do Castelo Garcia D’Ávila e seguir para o pórtico de chegada, que era outra subidinha leve. E foi ali, depois do pórtico, que desabei, numa mistura de emoção com falta de fôlego, não conseguia respirar. Respirava pela metade. Nem consegui abraçar Vitor direito. Ainda bem que essa sensação durou pouco. Deitei no chão e comecei a tagarelar  com os amigos, contando as histórias da prova.
   Agradeço de todo coração aos amigos queridos que me acolheram na chegada. Claudia, Bruno, Hugo, Lene, Plínio, Kassie, Sandra, incluindo meu marido lindo. Agradeço aos meus amigos Aventureiros do Agreste, que sempre dizem que sou muito melhor do que realmente sou, rs! Ao meu treinador, Tadeu da Rumos Treinamento, que acha a mesma coisa. Minha família, meus amigos de corrida de aventura, meus amigos de todos os tempos. Acreditem, lembrei de todo mundo na corrida. Até da minha professora de pilates, Marina Peixoto, que me mandava estufar o peito pra respirar melhor na hora de correr. Tive a sorte de encontrar ótimos profissionais, a começar pelo meu primeiro treinador, Navarro, que me ensinou a correr.

   No dia do Running Daventura, a Energia Divina conspirou em meu favor. Que bom que consegui! Consegui mais do que o proposto! Subi no pódio em segundo lugar com 5h11m de prova. O resultado oficial ainda não saiu mas, acho que fiquei em primeiro na categoria e sétimo no geral da maratona, de 80 inscritos. Depois eu confirmo.
    Ah! Quem ganhou foi a menina do shortinho. Jogou duro e não pareceu assada, rs! Chegou 14 minutos antes de mim. Arrasou!
   Parabéns à todos da organização do Running Daventura! Que prova!