quinta-feira, 23 de abril de 2015

Mandacaru 2015

    Sair de casa 3:20h da manhã pra passar o dia todo correndo pelos matos é coisa de maluco mesmo! São escolhas feitas pra deixar a vida mais fácil de viver. E, cá pra nós, embora nada disso seja muito fácil, desenrolar as aventuras da corrida está mais fácil do que desenrolar as aventuras da vida. Muito mais!
    A Aventureiros montou um quarteto e uma dupla. Ficamos nas duplas, principalmente, por conta das nossas demandas pessoais. Pena que concorremos com as masculinas, por não ter categoria mista, mas também não sei o que seria de nós se fosse de outro jeito.
  Aquelas curvas de nível confirmavam que Mandacaru sem morro não é a prova, é a planta. Navegação que parece tranquila pode desconfiar, meu amigo! Prova no sertão é bagaceira garantida! Sol da zorra, água acaba rápido, quentura dos infernos que parece vir de baixo pra cima, cansanção pra lapiar até a alma... Além disso, embora o mapa seja feito pra gente acertar, a gente ainda se acha no direito de errar! Ainda bem que foi pouco dessa vez, Rs!
   Largar descendo ladeira é massa! Corremos 800m até a beira da barragem e lá entramos pro refrescante trechinho de natação. Pensei que seria ruim mas foi bom!
   Transição no PC1, pedal até o 2. Passamos direto pela entrada da trilha mas logo voltamos, pedalando por um bom trecho pela beira do rio.
   As trilhas de bike não estavam complicadas, não. Até o PC3 foi tranquilo e Vitor me deu uns empurrõezinhos providenciais nas subidas, porque não tô nada boa de pedal. Agora que me assaltaram no calçadão de Vilas, e agradeço do fundo do coração ao ladrão por não ter levado minha bicicleta, a coragem de treinar sozinha diminuiu consideravelmente.
   Bonitinha a mãe de Manoela no PC3, toda metida com a prancheta na mão. Acho lindinho isso! Lembrei do pai de Fernando Severino que aparecia em todas as provas da Paletada como apoio da Espírito Selvagem. Aliás, essa prova me lembrou muita coisa boa! Foi massa ver um monte de gente das antigas competindo. O povo tá voltando mesmo! Todo mundo com a faca entre os dentes. Ainda tem a galera que está levando a filharada. Arnaldo com o filho, Hugo, foi a sensação. Gal, coitada, que quase pariu outro filho mas tudo bem, isso é só um detalhe, rs!
   Vitor fez o bike and run do PC3 ao PC5. Como sentiu uma dor inexplicável na lombar no primeiro trecho de bike, preferiu correr pra aliviar.
   Quando passamos no PC4, assinei na posição 25 do geral. Achei longe pra caramba porque não parecia que estávamos tão mal. Prefiro não saber da posição, mas a folha quase toda preenchida me chamou atenção. Não compartilhei essa informação com Vitor pra não desanimar e pensei que logo encontraríamos equipes pela frente. Afinal, somos resistentes até a morte e sabemos que o povo vai cansando no meio do caminho. Hum!
   Depois dali, tentei fazer com que Vitor pedalasse minha bicicleta, como um revezamento, mas ele quase me engoliu quando insisti pra correr. Fui convencida a pegar a minha porra da minha bicicleta do chão e sair pedalando com a maior cara de jegue. Que se desfez no terceiro cruzamento, porque mulher tem que demonstrar insatisfação por, no mínimo, dois cruzamentos pra não dar o braço a torcer assim de bandeja. Afinal, ele falou assim:
   -NÃÃÃÃOOOOOOOOOOOOO QUEROOOOOOOO!
         Quando olhei pra trás vi algo parecido com o Sullivan, de Monstros SA, assustando a Buh em câmara lenta. A língua balançava na boca e os dentes pulavam pra fora, enquanto pronunciava a frase acima... Parece legal mas diz “não quero” bem alto, a ponto de causar revoada de pássaros, carreira de boiada, cabras e de criancinhas inocentes. Kkkkk!
   Minha bicicleta ficou no PC5, quando começamos o trekking pra subir no primeiro morro, o do cruzeiro. Dava pra ver a quantidade de gente que desbravava aquelas curvas de nível. Subida da zorra! Como meu marido parava (pra apreciar a vista, rs!) e eu me distanciava um pouco (bem pouco, rs!), resolvemos caminhar no meio termo. Acabamos subindo melhor, sem parar. Maravilha! E a figura, enquanto ultrapassávamos algumas pessoas, incluindo nosso quarteto Agreste, foi orientando o pessoal a treinar mais pra subir rápido como nós, e também explicava que ele estava me empurrando, ao contrário que podiam pensar, rsrs!
   Já perto do destino, vozes vinham das pedras. Não era o PC, eram os BBs, Plínio e Omar, que apareciam do desconhecido. Encontramos o PC6 juntos e seguimos pra o 7, que também foi tranquilo, Graças a Deus!
   Treva foi o percurso pro 8! Descendo pela ravina, ouvimos gritos desesperados de socorro. Parecia sacanagem mas logo deu pra perceber que ninguém gritaria daquele jeito numa corrida sem um bom motivo. Eram abelhas... Os atletas se comunicavam gritando e pedindo socorro. Um garoto, o filho de Marcinha, foi picado e tinha alergia. Fiquei muito preocupada, pensei logo em meu filho! Wlad e Capu subiram pra ajudar, enquanto nós fomos tentar um caminho que desviasse das abelhas pra avisar à organização a situação lá no morro.
   Descemos em silêncio, passando por algumas colmeias. Sofremos um primeiro ataque sem picadas. As abelhas se aproximaram, foram encostando mas conseguimos afastá-las com todo carinho.. sem sacanagem!! Kkkk! Eu falava “sai abelhinha” bem baixinho, rs! No segundo ataque a porra pegou pro nosso lado! Sorte que a mata abriu um pouco e deu pra correr. Providência Divina! Tomei ferroadas na bochecha e na mão, por cima da luva mesmo. Vitor ficou encurralado mas não foi picado. Só depois de muito caminharmos demos falta do boné e dos óculos dele. Quem volta pra procurar?
   Encontramos então o amigo de Bruno... Tadinho! Na verdade, ele quem teve o azar de nos encontrar, rs! Demoramos uma hora pra chegar até a fazenda depois daquela confusão. Sabe quando a casa está ali, naquele azimute, e você não segue? Fizemos uma volta da zorra, rasgamos mato, pulamos cerca, encontramos a estrada... Ôxe, que coisa!
   No PC8 percebemos que ninguém cansou, muito menos se intimidou com as abelhas. Manoela tirou uns ferrões da minha cara. Dali, eu corria e Vitor pedalava até o PC9. Pegamos a trilha por trás da casa. Aquela pela qual deveríamos ter chegado na vinda do 7. Nem acreditei que chegamos até quase no fundo da casa e demos aquela volta toda. Que chato! Então pulamos a cerca, fizemos um azimute pra catar a trilha certa até encontrar o PC. Ali estávamos mais uma vez com nosso quarteto preferido. O sol, àquela altura, ia alto e quente, lascando o cano! Chegando ao PC 10, ainda rolava água e Guaramix bem gelados, pra nossa alegria!
   Fiz a transição e seguimos pedalando até o PC11, onde teríamos que fazer outro trekking subindo morro. Que subida miserável e que vista linda lá de cima! Um cara da Giramundo do nosso lado se perguntava em voz alta o que foi fazer ali. Provavelmente vamos nos encontrar em outras provas porque, pela cara dele na chegada, descobriu e gostou.
   Lá em cima, no PC12, andamos um pouco pra ver se dava pra rasgar aqueles 500m de mato num azimute básico mas, na boa véi!, tava muito fechado. Depois das abelhas, pensamos no custo/benefício, decidimos descer pela trilha mesmo.
   Poxa, Vitor conta passo e conversa ao mesmo tempo sem se atrapalhar! Dá tão certo a conta que fico a pensar que, se fosse eu, seria a maior confusão. Teria que ficar muda.
   Encontramos o PC 13 no curral. E, juntos outra vez com os meninos da BB Adventure, encontramos no PC14 uma pista escrita no chão com pedaços de madeira e fizemos um corte de caminho pro 15. Daqueles que, provavelmente, todo mundo fez. Aliás, queria saber onde esse povo achou perna pra correr tanto naquele sol quente. Ninguém cansou, gente! Estava me achando tão rápida, rs! Mas, meu-Deus-do-Céu!, levei o maior susto quando vi a planilha de tempo. A distância entre nós e a primeira equipe de todas foi de quase 4 horas no final da prova. Que coisa chata!
   Sei que cheguei no PC15 com muito calor e calafrios. Vitor parecia um camarão, já que perdeu boné e óculos pras abelhas. Nossa água fervia no squeeze da bicicleta e na mochila não tinha mais nada. Pedi ao morador da casinha água pra beber e pra jogar na cabeça. Também tive que tomar um remédio, caso contrário, acho que terminaria a prova rastejando. Dizem que picada de abelha dá fraqueza. Desculpa boa, eu tinha, rs! E depois vou ter que tomar um remédio de verme porque o que tinha de cabeça de prego naquela água não estava no gibi!
   Ali, assinamos o PC na posição 15 do geral. Recompostos, saímos para o trecho final da prova, pedalando. Com poucos minutos o Tandrilax fez efeito e já me sentia bem melhor. Além disso, o vento do sertão fica mais fresco pela tarde e a brisa leve já ajudava bastante. O medo era de anoitecer porque sem luz o negócio ficaria feio pro nosso lado. Eram PCs distantes mas com percursos mais fluidos, de estradão, exceto por umas pegadinhas rápidas.
   Vitor recitava dois palavrões por cada porteira e três por cada mata-burro longitudinal... Parece legal mas fala cada palavrão pior do que o outro, rs!
   Um bom exemplo de pegadinha foi um corte de caminho bem pertinho do PC17. Vitor estava na frente e desceu na maior velô por aquele singletrack que parecia delicioso de percorrer! Uma estrada aberta, lisa, sombreada, a coisa mais fofa do mundo! Não deu 50 metros pra ficar impraticável de tanta pedra. Sacanagem retada!
   Ainda bem que do 17 pro 18 era só estradão! E pra chegada também. O medo de escurecer nos fez pedalar com mais ânimo. Os empurrões de Vitor também. Sei que depois de pouco mais de 10 horas de prova, nós chegamos comemorando por terminar mais essa prova, e ainda pontuar no RBCA (Ranking Brasileiro de Corrida de Aventura). Ficamos em décimo primeiro entre as duplas.
   Esse negócio de RBCA é bem bacana! Esperamos ficar entre os dez por algum tempo, já que sabemos que a coisa é bem dinâmica e temos que participar sempre de umas provinhas pra colher pontos por aí afora.
   Foi uma prova massa! Que dia! Como valeu a pena acordar 2h da manhã! Curtimos tanto, que esquecemos da vida completamente. Voltamos pra casa resenhando horrores! Podres de sujos, arrumamos um posto de gasolina na estrada pra comer alguma coisa e, como duas crianças que brincaram o dia inteiro, dormimos exaustos depois de um bom banho.
   As unhas?? Ah, tive que ir no salão pra tirar o resto do barro que não saiu de jeito nenhum.
   Esperamos participar da próxima etapa do CICA, minha gente. Pena que não dá pra correr tudo. Estaremos viajando na Casco de Peba mas o Desafio dos Sertões nos levará até nossos amigos de Juazeiro, com certeza. Mucugê nos espera, com fé em Deus! E vamos em frente que a vida passa e o tempo urge. Não tem terapia mais bacana do que Corrida de Aventura! A vitória já começa na linha de largada.
   Vida longa pra nossa Corrida de Aventura e aos organizadores dessas provas que têm um trabalhão pra fazer nossa terapia ficar mais intensa!
   Até breve!