sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Odisseia 130km

   A última corrida em quarteto Penélopes do Agreste aconteceu em 2010, numa prova de 160km em Alagoas. Depois disso, os planos pra outras provas foram adiados por conta de outras prioridades. Não vai dar pra contar tudo que rolou antes de chegarmos em Natal porque é história pra mais de 20 páginas, por isso vou ter que jogar a prosa mais pra frente.
   O projeto se arrasta faz tempo. As meninas viviam me cobrando o retorno. No início desse ano conseguimos escolher a prova e fechar o quarteto: Eu (Luciana), Thays, Gabi e Lucy (que corre em dupla levando o nome da equipe faz um bom tempo).
   Na Bahia a gente não corre em quarteto pra não desfalcar o Campeonato. A prova foi escolhida a dedo. A Odisseia é a prova mais antiga do Brasil, ainda em execução, realizada por Sérgio Bandeira, um dos precursores da Corrida de Aventura no país, tanto como atleta, quanto como organizador. Quem gosta de perrengue vai pra Odisseia! E foi isso que fizemos.
   Já inscritas, nossa Thays informou que a família cresceria e estaria de fora da prova... Lucy mudou para o Pará... Em algum momento ficamos eu e Gabi decididas a correr em dupla, caso não fechássemos o quarteto. Daí, Bárbara e Cíntia aceitaram o convite, ambas ex-alunas da Escola de Aventura do Agreste... Cíntia teve um problema sério de saúde (está bem agora).
   Depois de muito vai e vem, pra nossa sorte, Lucy conseguiu liberação do trabalho e ficou tudo certo.
   Quarteto final: eu, Gabi, Lucy e Bárbara.
   Quase não treinamos juntas. Lucy teve que pedalar pela floresta amazônica, Bárbara conciliava treino, faculdade e trabalho e Gabi era com quem eu mais encontrava, e ainda assim era pouco.
   Eu, Gabi e Bárbara viajamos juntas da Bahia, na companhia de Gladimir e Vitor,  representantes da Aventureiros do Agreste. Arrumamos uma bicicleta para Lucy daqui porque a baldeação de Juruti até Natal seria complicadíssima. Só pra se ter uma ideia, ela saiu de Juruti um dia antes de nós. Como a decisão de levar essa bicicleta foi de última hora, sequer houve tempo para uma revisão básica.
   A van de Brutos (só depois que voltei pra Bahia ele contou seu verdadeiro nome: Washigton. Morri!) chegou toda trabalhada na pontualidade. Colocamos as bicicletas na carretinha e seguimos por quase duas horas até Barra do Cunhau, local da prova.
   Bom de Sérgio é que ele já pensa em tudo! Dá dica de transfer, pousada e o que precisar. Não tem aperto antes da prova, só no dia que tem muito.
   Depois do jantar, quando desembalamos as bikes, as surpresas começaram... Os dois pneus de Gabi estavam vazios, com o líquido do notubes escoado na caixa.
   A bichinha ficou agoniada! Vitor entrou na parada pra ajudar. Teve o maior trabalho remover tudo, limpar a sujeira toda e arrancar pito pra colocar câmaras normais.
   ...
   Pausa para o briefing...
   Quando chegamos ao terraço da pousada, o check-in rolava. O mapa lindo, todo quadriculado de canavial, foi explicadinho PC a PC, exceto os que seriam plotados a partir do segundo trecho de trekking. 
   Com a proibição do Garmin, os anjos Pezão e Malena, vulgo: casalzinho, fizeram a gentileza de emprestar um dos seus relógios pra gente ter noção de tempo. Aliás, foi uma prova em que vários anjos apareceram em momentos cruciais.
   ...
   Vitor terminou de arrumar os pneus da bike de Gabi depois do briefing. Com isso, perdemos duas câmaras reserva.
   Depois das arrumações, o mapa. As meninas participaram de todo o planejamento da navegação. Gabi não dispensou um mapa reserva e nos debruçamos por algumas horas, com Babi também fazendo suas observações.
   Amanhecemos com o pneu da bike de Lucy vazio, faltando minutos pra entregar na carreta. Que tensão da zorra pra essa prova acontecer! E a gente tinha tudo pra desanimar... Peguei mais uma câmara reserva pra trocar. Pezão passou por ali, deixou kit remendo e espátulas. E trocamos nos poucos minutos que tivemos. Ufaaa!
   Na hora de botar as bikes na carretinha, contei a Glad que só tínhamos uma câmara reserva de pito grosso. Ele subiu correndo, pegou uma 29 de pito fino e me entregou. Foi o tempo de enfiar na bolsinha da bike e encaixar na carreta.
   Nossa! Eu ficava pensando no que mais poderia acontecer, ao mesmo tempo percebia que as soluções apareciam na hora.

Foto: Odisseia. Largada com natação até a outra margem.
   A largada rolou pontualmente às 6:40h para aproveitar a maré enchendo. No meio do bolo, corremos para mais perto do mar, na parte mais estreita da travessia.
   Natação de 300m na boca da barra, vários curiosos observando. Ouvi um dizer que ninguém fazia aquilo de atravessar assim pra o outro lado, mas ignorei solenemente pra não me dar ao direito de sentir medo. Pulei na água como de costume: tênis, mochila e tudo mais. Nadei como uma louca, olhando pra trás de vez em quando para não perder as meninas, mas acabei chegando antes. Acho que nunca nadei tão rápido na minha vida e nem sei onde arrumei tanta força nos braços. Gabi grudou em Lucy e Babi veio logo atrás. Foi uma travessia muito punk! Engoli uns 3 litros de água salgada, mas era isso que a gente queria, né!? Só fiquei preocupada com nossa mascotinha Babi, que só fez 2 provas na vida, além da Corrida de Formatura da Escola de Aventura. Imaginem 130km? Entretanto, ela já começou nos surpreendendo. Apesar do cansaço, manteve a calma, nadou devagar e sempre até o fim.
   Com a maré enchendo, teríamos que voltar por lá novamente... Nem queria pensar muito no tema. Recompostas dos litros de água que bebemos, seguimos pro trekking de 12km. Gabi, nossa capitã, já veio logo me falar pra aliviar com as meninas, não puxar muito no ritmo, blá, blá, blá... Oxe! Eu juro que não fiz nada! Lucy tem o trekking mais forte de todas e só precisava se lembrar de suas habilidades. Fizemos um trekking incrível pela beira do mar, curtindo aquela manhã linda de sábado com o mar mais azul do universo! Algumas equipes optaram pelo caminho por trilha, nós pela areia da praia, tagarelando horrores e resenhando o terror que foi a natação. E 5km depois de muita tricotagem, o primeiro PC na cruz abriu os braços pra nós lá em cima da duna, descortinando uma vista ainda mais linda!


   Babi ficou responsável por levar nossa câmera fotográfica, para registrar os melhores momentos Penelopísticos, e pelo racebook. Tirou várias fotos lindas no começo da prova, depois ficou com preguiça. Lucy ficou com a contagem de tempo no trekking, a calculista. Gabi, nossa capitã e co-navegadora, marcava tempo e distâncias.


   O trekking pela praia foi tão massa que mudamos de estratégia sobre o PC “Y”. Já tinha localizado a “boca” da trilha no caminho pra cruz. Ficou mais prático. Quando a trilha acabou, azimutamos e seguimos. Muitas equipes já procuravam o PC por ali. Os marimbondos encontraram algumas equipes, antes deles encontrarem o PC. Nós só encontramos o PC, ainda bem.
   Foi a primeira vez que encontramos Vitor e Glad na prova. Eles seguiram num trekking forte logo à nossa frente. Por 3,5km caminhamos por um canal de “pesque e pague” até beirar o mangue e chegar à praia novamente.
   Com a maré mais cheia, a distância entre os pontos deu uma dobrada básica. A “boca nervosa” da barra já não era o lugar mais seguro para atravessar. Pra cair no lugar certo, fomos o mais próximo possível, na parte menos nervosa, e nos jogamos. Mas, não antes de fazer os combinados e colocar umas mochilas no sacão de 100litros. Grudadinhas, Gabi e Lucy, eu e Babi, caímos pra dentro. Chegava ao pólo sul, mas não chegava do outro lado. As meninas começaram a gritar com câimbras. O salva-vidas aproximou-se de caiaque para monitorar nossa travessia, enquanto Gabi berrava palavrões indizíveis! Deve ter ficado horrorizado! Lucy também xingou tudo o que pôde. Só Bárbara teve câimbra com educação. Tinha horas em que não sabia se estavam rindo ou chorando. Ri tanto que dobrei a quantidade de água engolida.
   A correnteza fez o favor de nos deixar um ponto depois, como se fosse um ônibus, que você pede ao motorista pra parar e ele finge que não ouviu. Mas tudo bem! Depois daquele trecho da prova, tive a sensação de que não precisaria me preocupar com Bárbara, que mostrou um preparo psicológico absurdo. Foi muito punk!

Transição Natação- Canoagem

Lucy toda feliz!
   Hora de remar 15.8km (medidas oficiais da organização). Eu com Bárbara e Gabi com Lucy. 
   Aqui na Bahia tem poucas provas com canoagem. Quando tem, os organizadores, estrategicamente, jogam a modalidade para o fim da prova, utilizando como corte pra evitar faltar barcos. Na Odisseia, “o buraco foi mais embaixo”. Não havia possibilidade de ficar sem remar, exceto se a equipe desistisse. 
   Como não treinamos juntas, inicialmente, foi mais difícil de ajustar. Bati o remo na cabeça de Bárbara muitas vezes. Fomos todas, sem exceção, no esforço para fazer o melhor. Toda vez que eu baixava a cabeça pra olhar o mapa, o barco mudava de direção e acabava fazendo aquele leme que freia e atrasa a viagem. Os galhos do mangue bem sabem o quanto tentamos.
   A canoagem é sempre um momento bom pra conversar, cantar, trocar ideia. A nossa foi um momento de alinhamento de conduta porque esse foi o treino que a gente precisava pra fazer a volta, que ainda vou contar como foi. No fim das contas, fizemos dois cortes de caminho até o PC da transição para a bike, encurtando a distância.
   Qualquer dúvida sobre a resistência de Bárbara a uma prova de 130km se esvaia a cada modalidade. A menina é bruta como o pai, Vand, que é atleta da equipe também. Segue em frente sem reclamar e até as queixas são muito sutis.
   Com a bunda quadrada do caiaque, o mountain bike de 41km veio pra dar aquela mudada na musculatura trabalhada. Um sonho a mudança de modalidade!
   Inicialmente Lucy precisou se alinhar com sua magrela nova. Após um ligeiro estranhamento, conseguiram se entender. E que vontade da nossa amiga de fazer essa prova! Eu não pegaria uma bicicleta emprestada pra uma corrida de 130km nem a pau! Minha bicicleta não largo de jeito nenhum. Lulu se superou mesmo!

Foto de Sérgio Bandeira

   O canavial não é o lugar dos melhores pra navegar. São muitos cruzamentos, estradas secundárias, caminhões enormes que mais parecem trens voadores, levantando aquela poeira vermelha pra cima e muita areia fofa pra brincadeira ficar mais emocionante. Salgadas até a alma, recebemos tratamento de beleza completo com pó vermelho. O protetor solar se misturava no rosto, formando um creme de esfoliação.
   Seguimos por uma estrada reta, atravessando para o outro lado do asfalto, para mais uma estrada de barro... Vira pra esquerda, pra direita, 500m aqui, 100m ali, descemos da bicicleta e fomos varrer a área pra encontrar o PC.
   O mapa impecável, não deu trabalho. Quem deu trabalho mesmo foi o pneu de Gabi, que resolveu furar na saída do PC. Lembram daquela câmara que Glad me emprestou de última hora? E das espátulas de Pezão? Salvação da pátria!



   Na cirurgia de troca, dentre as funções distribuídas, teve uma mocinha que ficou fazendo self na maior cara lavada, enquanto a gente suava a camisa. Quem mandou dizer que ela era a fotógrafa oficial? Tomei na cara... kkkk!
   Quando as meninas me perguntaram o que eu não sabia fazer na bicicleta, cá entre nós, pensei logo em consertar corrente e lembrei que deixei a chave de corrente no hotel. Não teria como consertar, mesmo sabendo. Vixe maria! Xocotô, mangalô três vezes!
   Seguimos para o PC 10 animadíssimas! O sol inclemente fazia sua parte, jogando aquele bafo quente sobre cada uma de nós. Nuvem nenhuma aparecia pra apaziguar a situação. No caminho, nosso casalzinho querido deixou uns remendos de câmaras, quando contamos sobre o pneu furado. As meninas olharam pra minha cara já querendo saber se eu sabia colocar remendo... Sim, sei, vamos levar. Se não soubesse teria que aprender na hora.
   O PC 10 estava no final de um sigletrack misturado com downhill, muito íngreme. Se atravessássemos o charco pra alcançar o outro PC, seria um bom corte de caminho, entretanto, encarar aquele paredão com mata fechada no fim de tarde nos parecia totalmente desnecessário. Prudentemente, preferimos pedalar 23km a arriscar.
   A subida de volta foi bem cruel, mas foi a melhor alternativa ainda assim. Fizemos uma volta da zorra, chegando ao PC da barragem já de noite. Caminhamos pela margem esquerda toda sem encontrar. Chegaram duas equipes, inclusive nossos Aventureiros, Vitor de Glad. Então, em nossas conjecturas, Lucy ventilou a possibilidade de estar do outro lado da parede da represa. Pronto! Foi dito e certo! Estava lá. Bastava olhar o mapa. Perdemos uns 10 minutos por falta de atenção. O cara botava até as bolinhas do PC na posição correta. Não tinha como errar.


   A propósito, essas meninas viraram farejadoras de PCs. Ia dando as coordenadas, elas saíam desbravando os horizontes e ribanceiras. Contavam as distâncias, marcavam tempo, não erravam uma. Juntas, fomos ganhando uma confiança na navegação que ninguém mais nos segurava.
   O ritmo na bike diminuiu no começo da noite. O pneu furado atrasou nossa prova, encurtando o tempo pra escapar do horário de corte. Ainda assim, não deixamos de fazer força, muito menos de ter esperança. Nossa capitã estimulava o tempo todo pra gente não deixar de lutar.
   Quando pegamos o asfalto para chegar até a Vila, soubemos por Sérgio que ainda estávamos dentro do limite de corte. Olha, foi tanto grito naquele breu, rsrs!!! Que notícia maravilhosa!
   Chegando à Vila, sentimos falta de Vitor e Glad. O horário de corte estava pertinho.
   Deixamos as bicicletas no canto e fomos ver o que tinha pra comer na mochila e no barzinho da D. Divina. As vegetarianas comeram tapioca e as carnívoras caíram pra dentro na sopinha de charque dos Deuses. A delícia que é comer uma comida quentinha depois de tantas horas de prova não tem preço.




   Plotei os PCs do trekking, fiz um rápido planejamento enquanto esperava a sopa. Os meninos da Aventureiros chegaram, mas não conseguiram passar do corte. Eles chegando e a gente acabando, deu pra bater um papinho e saber como estava a prova de cada um.
   Ok, então! Partimos para o nosso trekking determinadas. Primeiro o PC X porque era só travar o azimute e ir embora, se a gente não se deslocasse, claro! As meninas estavam demais! Iam na frente vasculhando tudo, catando trilha meio difusa pela noite afora. Nosso objetivo era o finzinho da área aberta, quando começava a mata. Gabriella parecia um cão farejador, louca na frente, dizendo que era por ali, por ali, por ali e, de repente, achou o PC. Nada de dificuldade! Estávamos demais!
   Seguimos tagarelantes para W, beirando a mata à nossa direita. Não demorou para entrarmos no coqueiral. Entramos na primeira, andamos os metros previstos e não achamos o PC. Com objetividade, voltamos, encontramos a trilha correta, seguimos e lá estava ele.
   O trekking foi todo na areia fofa. Suava loucamente, parecendo um dia de sol escaldante. Por um momento achei que era só comigo... sei lá, menopausa pode estar perto ou talvez não estivesse muito bem mesmo ou a sopa de charque. Nossa, que calor! Deu o maior alívio saber que todas sentiam o mesmo.
   Fizemos o trekking em 2 horas. O PC da transição e o quarteto da Coyote ficaram surpresos ao nos ver voltar tão rápido. Eles fizeram o trekking em 3horas. O nosso foi o melhor tempo do trekking. Suamos a camisa!
   Enquanto plotava o PC da bike, as meninas se resolviam. Teve gente até que tirou um cochilote. Sérgio deu as últimas coordenadas pra fase final da prova. Faltavam 2 PCs de bike, somando mais de 30km, e o trecho de canoagem.
   Das duas opções de caminho para o primeiro PC do trecho de bike, uma era singletrack numa mata e a outra uma volta bem maior por estradão. Estrategicamente, optamos pelo estradão. As meninas estavam cansadas, nossa iluminação começava a dar sinais de morte... Quem tinha lanterna de cabeça funcionando, não estava mais com a da bike, e quem estava com a de bike, já estava com a de cabeça ruinzinha. Apoiar na iluminação na estrada mais aberta seria bem mais fácil.
   O pessoal da Coyote não demorou a sair. Nós demoramos mais uma meia hora e seguimos. Sérgio foi embora logo depois e passou por nós na estrada, desejando boa sorte.
Com 3km de pedal no asfalto, a corrente de Babi partiu. Lembrei da chave de corrente que deixei no hotel. Quase morri! Cheguei a tirar tudo da mochila pra ver se não estava enganada. Nada de chave. Ficamos ali olhando, pensando, tentando encontrar uma solução. Catei o power link, peguei meu canivete, pensei, tentei... Não havia nada que pudéssemos fazer.
   Sérgio tinha acabado de passar, não queríamos resgate, talvez tivesse outro jeito. Pensamos em voltar na Vila pra ver se achava alguém pra ajudar... uma oficina, uma bicicleta. De repente, umas luzes apareceram do sentido da Vila em nossa direção. Nem acreditamos! Era a Coyote, que não tinha conseguido encontrar a trilha e decidiu fazer o mesmo trajeto que escolhemos.
   Olha, esses meninos fizeram de tudo pra ajudar. Fizeram força, tentaram colocar o power link, que não era do modelo da corrente de Bárbara. Demoraram pelo menos uns 40 minutos tentando nos ajudar. Quando decidiram emendar a corrente, a chave deles quebrou. Precisavam ver nossas caras. Não tinha mais jeito! E vocês acreditam que essa galera propôs rebocar Bárbara por mais de 30km pra gente não desistir da prova? Pôxa, como ainda tem gente boa nesse mundo e no nosso esporte. Só não aceitamos a gentileza porque seria muito sacrifício pra eles.
   De volta à estaca zero, em consenso, decidimos tirar os tênis da mochila pra empurrar a bike de volta até a Vila, na esperança de achar um filho de Deus que ajudasse. Não tinha sentido que fossemos pedalando e Bárbara empurrando. Caminhando e jogando conversa fora, depois de mais ou menos 1km, avistamos mais lanternas. Mas não tinha nenhuma equipe mais na Vila... Que estranho! Nem acreditamos quando avistamos a Bichos Escrotos, equipe do Ceará, vindo em nossa direção.
   Eles disseram que estavam cortados e decidiram ficar mais um pouco na Vila. Começaram a arrumar a corrente, dizendo que só sairiam dali quando estivéssemos com a bicicleta pronta. E foi o que fizeram! Por mais de 40 minutos, praticamente uma cirurgia pra tirar o gomo da corrente, que empenou. O outro gomo deu certo. Essa turma foi demais com a gente!
   Dali em diante, a corrida era contra o tempo, por conta do risco de perder o avião. Voltamos às sapatilhas, nos recompomos e seguimos. Bárbara um pouco tensa com a corrente reduzida, foi ganhando confiança e pedalando cada vez mais rápido. Quando iniciamos a trilha que já perto do PC, cruzamos com casalzinho. Logo depois com o quarteto que nos ajudou. Todos achavam que tínhamos desistido da prova.


   No caminho pra o PC tinha umas valas enormes, obstruindo a passagem. Deu uma chuvinha pra aliviar o calor, que deu também aquela melecada incremental nas sapatilhas. Encontramos o PC e seguimos. O outro estava longe, muito longe, em outra vila na beira da praia. Uma vista linda, um paraíso. Na subida de volta, mesmo com pressa, paramos numa casa pra um banho de mangueira.
   Comecei a mentir pras meninas. Toda hora faltava pouco mais de 5km pra chegar e o caminho era com muita descida. Bárbara parecia que tinha bebido algum energético. A menina pedalava loucamente... Jovem é outro papo! Rs! Dizia que queria chegar logo, torcendo pra canoagem ser cancelada. Oh ilusão!
   Imersa em meus pensamentos, vislumbrava nossa chegada com muita emoção. Chegava a sentir a descarga de adrenalina e as lágrimas nos olhos. Faltava pouco, muito pouco.


   A chegada na beira do rio foi uma alegria! Fizemos a transição mais rápida de nossas vidas (mentira!) e seguimos remando até a chegada... Acabaria aqui se não fosse uma remada escrota, com vento contra, correnteza muito contra, tudo contra. Por quase 4 horas, apliquei tudo que treinei de leme na ida, naquela volta. Puxava a pá pra o meu quadril com uma força que imaginei não conseguir me mexer no dia seguinte. Não podíamos dar uma trégua de descanso.
   Foi duro, suado, sofrido, penoso. Eu e Babi nos entrosamos completamente. Lucy e Gabi vinham logo atrás e a gente avançava pra chegada fazendo muita força.


   Correndo contra o tempo, nós, Penélopes do Agreste, cruzamos o pórtico de chegada em segundo lugar na categoria e terceiro geral, carregando os barcos, com direito a abraços calorosos e muita emoção.




   Foi um retorno tão incrível, que só de lembrar vem a sensação de vitória outra vez. 
   Em nome das Penélopes, muita gratidão à todos os atletas que estiveram presente, especialmente Bichos Escrotos, Thunders e Coyotes, que nos apoiaram incondicionalmente. Só de lembrar do desprendimento dessas pessoas, vem um sentimento tão bom que, sem dúvida, será levado a cada uma em forma de energia positiva.
   Meus Aventureiros do Agreste queridos, somos um só coracão transbordando de amor! Só gratidão aos meninos!
   Sérgio e sua equipe, muito obrigada! Valeu cada investimento, seja físico, psicológico ou financeiro, que fizemos para chegar até a Odisseia! Uma prova milimetricamente planejada, com mapa impecável, organização Top das Galáxias, camisa, pórtico, backdrop, transporte de bikes. Não faltou nada! Que bom que fomos! Ano que vem estaremos coladas mais uma vez!
   Meninas... Ah meninas! Fomos incríveis, guerreiras, divertidas, fortes, companheiras, solícitas, participativas, maravilhosas! Tinha que ser com vocês, tinha que ser na Odisseia, tínhamos que encontrar tanta gente boa, era pra ser assim: TRIUFAL!
   Já estou pensando na próxima e com muitas saudades!

   Luciana Penélope do Agreste (com nome e sobrenome)

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Desafio dos Sertões 2018- 140km



   Casei no Desafio dos Sertões, logo, nem preciso dizer porque tenho um carinho especial por essa prova. Além de toda gratidão por aquela surpresa, o Desafio dos Sertões é a prova mais esperada do ano.
   Pugliese, nosso amigo da equipe R2, caiu de gaiato no quarteto, substituindo Vand, nosso quarto elemento a mais de 4 provas, que mudou pra o Pará com nossa Penélope Lucy. Então ficou eu, Scavuzzi, Mauro e Pugliese.
   Essa edição da corrida aconteceu na região de Paulo Afonso, envolvendo algumas cidades do estado de Alagoas, com alguns trechos daquela grande prova que fizemos em 2008, a Brasil Wild Extreme de 600km.
   Descansei duas semanas da Expedição Terra de Gigantes e já cai pra dentro nos 140km. Falando nisso, a resenha da Expedição ainda está no forno porque é mais longa. É Gigante mesmo!
   Pela primeira vez, decidimos ir de buzu. Juntamos com mais de 20 atletas de Salvador e Feira de Santana e rateamos o frete. O que foi uma ideia maravilhosa! Ficou super em conta, além disso pudemos confraternizar e viajar em segurança, numa cachorrada danada! Mauro, com suas habilidades com nós, arrumou tudo direitinho no bagageiro e as bikes ficaram super bem até Paulo Afonso. O motorista, Sr. Flor, sofreu o pão que o diabo amassou passando o fim de semana com a gente, mas resistiu bem à viagem. Foi um guerreiro! A gente agora só quer ir com ele. Um fofo! A galera foi resenhando, cantando, cagando... e até bebendo, daqui até Paulo Afonso.
   Como não conseguimos hospedagem em Paulo Afonso, tivemos que dormir em Delmiro Gouveia. Por sinal, imagino que os outros hóspedes tenham reparado no barulho porque a gente se embola sempre no mesmo quarto. Dessa vez, cinco. E a resenha é impagável! Só senti porque não fui ver o show do Harmonia do Samba em Paulo Afonso, mas foi melhor assim.
...
   A camisa do Desafio dos Sertões ficou lindíssima! Um absurdo de linda! E ainda teve cor diferente pras meninas. Tecido massa, seca rápido...
...

   Na manhã de sábado já estávamos concentrados no briefing. Gente como diacho, auditório lotado! Mais de 40 equipes, fora as duplas. Quem estava lá assistindo a nossa largada foi nossa querida Thays Medrado, que ficou na torcida na largada.
   Largamos junto com atletas de corrida de rua em percurso balizado. Tivemos que rodar a cidade e fazer um tour pela CHESF, até separar da galera, seguindo pra represa que fica de frente pra ponte sobre o Rio São Francisco.



   Pronto, acabou o balizamento! Dali em diante era cada um por si, pelo mapa, pela bússola, pelo azimute.
   Do lugar onde estávamos, tínhamos que pular no rio a uma boa altura. Mauro, Scavuzzi e Pugliese fizeram logo isso. Eu fiquei olhando pra água, analisando minha pulada. Mauro disse que ficou lá de baixo olhando minha cara de desespero. Mas não tava desesperada não. Só estava vendo as pessoas pularem pra ver de onde eu saltaria pra evitar bater numa pedra. Entrei na fila na viga de ferro. Quando chegou minha vez, tapei meu nariz com os outros dedinhos esticados, igualzinho quando era pequena e mergulhava na praia de Cabuçu. Fui com coragem, afundei e voltei cheia de classe, pronta para seguir adiante.
   O bom é que nunca fui tão bem tratada na equipe. Pugliese me rebocou a natação inteira. Foi uma beleza! Uma viagem refrescante, curtindo o visual dos cânions do Rio até as escadas que levavam à ponte e estrada.


   Subindo as escadarias quebradas que chegavam à estrada de asfalto, encontramos várias pessoas que acompanhavam a prova, inclusive Roberta Guerra, a responsável pelo glamour do meu casório surpresa de anos atrás. À propósito, a dica da água de coco no caminho foi delícia, viu?!
   Na transição pra bike, estava Vânia, a namorada de Pugliese, outra fofa que nos acompanhou por quase toda a prova.
   Depois da transição, saímos pedalando pelo portão errado do fundo (tava aberto aquela merda!), mas depois fomos pra o outro aberto. A paisagem no Sertão sempre me encanta demais. Aqueles galhos secos cheios de espinhos nos acompanham do começo ao fim. É tudo cor de barro, gerando o contraste com as nossas roupas e mochilas.
   Até chegar na árvore do PCA, passamos por um bom trecho de transposição do Rio São Francisco. Alguns atletas passavam dizendo que já tinham procurado por todo canto, mas ele estava lá.


   O PCB estava pertinho, na casa abandonada, mas o C custou umas boas pedaladas. De lá, seguimos para Pariconha. Numa Vila no caminho, parei numa casa pra pedir água pra molhar a cabeça. Deu uma agonia aquele calor! Enquanto isso, os meninos me deixavam pra trás, mas valeu a pena molhar a cabeça. Em Pariconha, um bar pra fazer um xixi, aquela coca gelada e a igreja com o PC4 na grade.


   A partir dali o sofrimento começou de verdade porque a estrada empenou. Ainda bem que o tempo não estava tão quente, além disso era meio de tarde quando começamos a primeira ladeira sem fim. Tão íngreme que, ora pedalávamos, ora empurrávamos. Enquanto isso, os encontros com os amigos das outras equipes. Denise, Down, Bruno, Murilo e outros, que compartilhavam o sofrimento com a gente e muitas histórias de aventura. O visual lá de cima, como sempre, impagável, mas quando chegamos na casa de Natália, no PCD, já era noite. 
   O PC 5 já era em Água Branca, Alagoas. A cidade estava em festa por nossa causa. A praça da igreja parecia um campo de guerra, tomado de “fora a fora” de bicicleta. O locutor a todo momento falava dos atletas que chegavam e saiam, mas eu não entendia nada direito. Nos alimentamos, diminuímos o peso da mochila e começamos o trekking em direção ao mirante. Subimos, subimos e subimos. O PCE estava na árvore, depois da casa. Dali descemos até o asfalto por outra ladeira muito íngreme, pra atravessar a pista e subir pelo outro lado e encontrar os PCs F e G.


   Para entrar na trilha, tinha uma entrada na cerca, mas Mauro não achou que era ali. Seguiu um pouco mais à frente junto com Scavuzzi e encontrou a trilha correta... Mauro navega muito e estava super inspirado no Desafio dos Sertões.
   Na trilha, começamos a subir loucamente outra vez, junto com algumas equipes pelo caminho. Como tinha muito gente na corrida, não dava pra saber quem era quem naquele carnaval. Então achamos o F e logo depois o G. Não demoramos. E também não demoramos a achar a estrada que nos levava de volta até Água Branca.
   Lá chegando, Vânia, aquela fooofa, nos esperava toda animadinha. Deve ser bom quando a equipe que você está acompanhando não demora muito de chegar.
   Pegamos as bikes e seguimos para subir mais umas ladeirinhas. Essa parte da prova tinha tanta curva de nível no mapa que nem conto. De Pariconha em diante foi só sofrimento. Afff! O PCH…
   Os mapas de Waltinho, como sempre, não tem todas as trilhas. Você precisa fazer as contas e acompanhar o azimute pra não se perder. Fizemos bem isso no caminho pro H, porque tinha bem mais entradas na vida real do que no mapa. Encontramos uma turma grande perto do PC, afirmando que já tinha vasculhado tudo, sem sucesso. Pois então nós descemos alguns metros e entregamos o PC pra galera toda.


   Nessa hora o pneu de Pugli furou pela segunda vez e precisamos ficar por lá mais um pouquinho pra resolver o problema.
   Teve gente que desceu a ladeira depois do PCH na maior adrenalina. Eu não! Cheguei toda cagada lá embaixo. Desci empurrando o tempo inteiro. Deus me livre! Um downhill cheio de pedras, super íngreme!
   Indo pra o I, passamos por uma outra vilazinha. E cada Vila é um saco pra entender as entradas e saídas. Outro grupo apareceu no sentido contrário, dizendo que o caminho não era aquele, que já tinham procurado tudo e não tinham encontrado. Daí vocês já sabem... Seguimos, passamos pela ponte e continuamos.
   Mas, tinha uma igreja antes da igreja do PC, e bem que Waltinho avisou que não faltariam igrejas! Dessa vez prestei atenção ao briefing. Estava lá na porteira.
   Mais à frente, o asfalto, um alívio na bunda e outra trilha. A trilha, a ponte e uma trilha do lado da ponte, o rio seco, o PCJ.
   Seguimos pela trilha, ora pedalando, ora empurrando a bike, com bastante areia. O horário do corte estava bem apertado. Assim que chegamos na estrada melhor, apertamos o pedal pra tentar chegar no prazo, que era até às 5h da manhã.
   Minha iluminação acabou por completo. Os meninos estavam tão apressados que me deixaram pra trás. Precisei parar porque não sou ninguém sem lanterna. Fiz o que tinha que fazer e continuei sozinha, só encontrando o povo mais adiante. PC7, Show da Natureza! Um lugar show de lindo. Chegamos no horário, entretanto, as contas não batiam. Teríamos que completar a prova toda até meio dia. Então, se passássemos do corte, tendo que percorrer todo o resto da prova, não daria tempo de concluir até o tempo limite de prova. Teríamos que fazer um trekking perverso, de onde todas as equipes que tinham passado ainda não tinham voltado, depois seguiríamos para o PC8, faríamos uma natação de 1km até o PC9, etc, etc, etc. Resultado: a contragosto (só meu), optamos pelo corte, pegando um trekking direto para o PC8, sem fazer o “marvado” trekking pelo cânion.
   Descansamos um pouco e seguimos junto com Makaíra e Xixarros, garantindo a farra até o final da prova. Dez atletas. Os rapazes convenceram a gente a rasgar mato. pois queríamos fazer o “feijão com arroz” mesmo. Realmente, eram apenas 500m... Achamos um descampado. Só ali, já uns 250. E, quando percebemos, estávamos na estrada outra vez. Foi super rápido! 
   Em seguida, outra situação. Clóvis, todo desbravador, encontrou a outra trilha, que sumia e apagava, aparecia e desaparecia. A caminhada rendeu muitas risadas! Cada navegador tinha uma ideia sobre alguma coisa e acho que tava todo mundo meio abilolado pela noite sem dormir. O ponto alto da história foi Mauro, que já perto de pisarmos na estrada, resolveu seguir pra direção de onde viemos. Não teve quem não desse risada. Ele insistiu, pareceu que ia sozinho. Todos ignoraram, até que resolveu voltar. Foi uma viagem, mas não se preocupem não porque todo mundo já fez isso um dia.
   Chegamos no P8 na maior animação. Dividimos dois sacos para embalar mochilas e outras tralhas que não queríamos molhar. Amarramos todos os capacetes numa penca só. Alguns tiraram tênis, outros não. Mauro encheu um colchão de piscina. Parecíamos uma equipe de dez, todos juntos na água, como náufragos que sabiam nadar.


   No percurso, Scavuzzi encontrou uma trilha e resolveu subir pra dar um tempo, caminhar um pouco. Mauro continuava no colchão, com o nariz enterrado no travesseiro, numa posição super engraçada. Eu, por minha vez, fui rebocada por Pugliese, mas tive que desistir em algum momento porque minha coluna começou a doer muito. Seria um reboque por um preço alto, caso continuasse naquela posição. Daí fui nadar um pouco.
   Chegamos todos! Uns mais cansados do que outros. Um dos sacos furou, molhando tudo o que estava dentro. Nos recompomos e fomos providenciar a transição pra canoagem.


   Nos barcos de Pescadores, a Makaíra, com Clóvis “Boca de remo”, sumiu logo das nossas vistas. Os meninos da Xixarros foram remando devagar e sempre. Nós ficamos dando voltar no Rio São Francisco por alguns minutos. Pugliese começou a fazer o leme, depois passou para Mauro, que acertou um pouco melhor a direção, mas também não foi essas coisas todas não. No final das contas, deu tudo certo! Chegamos no rapel, a 100m da chegada.


   Pugliese e Mauro subiram pra fazer o rapel, enquanto ficamos esperando no barco. Como o PC disse que só precisavam subir 2 atletas, eu amei a ideia. Apesar de saber que testemunharia um visual incrível, não faço questão nenhuma de fazer. E depois do rapel, fomos pra chegada.
   O único detalhe é que fomos desclassificados porque só metade da equipe fez o rapel, quando todos teriam que descer, conforme anunciado no briefing. Ok então, paciência, a corrida foi massa assim mesmo! Vamos assumir a nossa parte da culpa. Deveríamos dar uma surra  de gato morto naquele cara do PC. Até o gato miar. Na verdade, ele não sabia de nada mesmo. A gente que devia saber. 😁



   A chegada foi fantástica porque rolou um churrasco de arromba, oferecido pela organização da prova. Todo mundo sabe que depois de 25 horas de prova a pessoa só deseja comer comida de verdade. Um churrasco é como o oasis no deserto do Saara. Nossa, que delicia!!!
   Tem mais, gente! Sr. Flor estava lá, esperando a gente, com o buzu com o ar condicionado ligadinho. Ou seja, foi só comer o churras, tomar banho e voltar babando a viagem toda até Salvador. Tem coisa melhor?
   Agradeço a todo mundo que me ajudou a esquecer da vida nesse final de semana! Foi uma viagem super bacana!
   Parabéns pra Waltinho e Daniel, que sempre fazem de tudo pra gente sofrer bastante no Desafio dos Sertões, como se o próprio Sertão não desse conta disso. Ao velho Chico, meu agradecimento especial por refrescar nossas vidas e encher o Sertão de beleza!
   Ano que vem estaremos lá de novo, podem crer! Com rapel e tudo!
   Beijos e até mais!