quinta-feira, 29 de março de 2018

Noite do Perrengue 6- 100km


   Depois de 4 anos fora do quarteto, voltei. Por motivos diversos, eu e Vitor nos mantivemos em dupla mista para não comprometer a participação da equipe nas provas do Campeonato. Afinal, reorganizar uma dupla de última hora é mais fácil do que um quarteto.
    Equipe- Vand, Scavuzzi, eu e Mauro.


   Amo correr em quarteto! Corrigindo... AMO correr com meus amigos! E quanto mais gente, melhor! Por isso, quarteto, sem dúvida!
   Antes da corrida, pentelhei todo mundo pra ninguém esquecer nada. Enchi o grupo de Whatsapp de lembretes, imprimi todos os documentos, arrumei kit de primeiros socorros e os alimentos da prova. Minha mochila ficou pronta na terça. Estava ansiosa e apreensiva. Como seria depois de tanto tempo?
   Detalhe mais legal: Nada de stress com maridinho lindo, ainda consegui ajudá-lo um pouquinho.
   Saímos almoçados de casa e chegamos ao Restaurante Polomar, local de entrega das bikes, umas 14:30h. Foi o tempo de ir organizando as coisas, até o resto da turma chegar. Vand já tinha chegado e colocado sua bike numa vaguinha. Fechamos o check-in e seguimos para o local da largada.
   Alunos de diversas turmas da Escola de Aventura do Agreste marcaram presença. Muitos representando nossa equipe, outros com suas equipes. E nós, orgulhosos de todos, felizes por ajudar a encher a Corrida de Aventura de apaixonados pelo esporte.
   Prova valendo pelo Campeonato Brasileiro, pelo Baiano, pelo Nordestino. Negócio bacana, chique, iluminado, barulhento... Muita equipe de fora! Aquela festa de sempre! A organização da NP6 é extremamente feliz nas escolhas das bases dos eventos. Dessa vez, foi no Clube do empreendimento Natus, dentro da Reserva Imbassaí. Lanchonete com comidinhas da Vidativa Gourmet, conforto, espaço e muito lugar pra gente namorar o mapa até a hora da largada. Tudo bem que o tempo foi curto, mas o que é um peido pra quem está cagado? Tinha até PCs pra plotar no meio do caminho. Putz! Dois mapas: um com escala de 1:25.000 e outro de 1:50.000.
   Depois do briefing, fizemos o que deu no mapa, mas marcamos todas as distâncias como se fosse tudo 1:25.000. Ok, NO STRESS, dobra as distâncias, cobrindo tudo por cima mesmo. Foi a pressa, mas deu pra resolver, borrando o mapa todo.

Foto @adventuremag
...
   Eu queria mesmo era ser atleta de percurso, mas não consigo. Minha cabeça só funciona bem se tiver ocupada, ajudando... Tipo, tentando dominar o mundo mesmo. Isso já foi um problema pra mim, mas desencanei geral. Meus amigos me conhecem e sabem que não fico quieta, nem tomo iniciativas para ser melhor do que ninguém. Sou proativa e, com os aprendizados impostos pela vida, enfrento os desafios sem muitos melindres. Dá até pra ser bem humorada, mesmo estando na merda, embora nem sempre seja possível. Sou terrível quando tenho certeza sem estar certa, um verdadeiro problema! Mas, quer saber? Nos conhecemos tanto, que os defeitos e qualidades são reconhecidos com naturalidade, sem interpretações, sem julgamentos. Somos capazes de saber o que o outro está pensando com um olhar... Ou um “rabo de olho”. RS! Enfim, correr com esses meninos é diversão garantida! A gente pode estar em qualquer posição na prova, morrendo, mas não perde o “rebolado”. RS!
...
   Saímos forte para o primeiro trecho de 16km de trekking. A previsão da organização era de ficarmos perdidos por lá a noite toda, pra nunca mais voltar. Naquela muvuca toda, o PC1 foi encontrado de galera. A gente resolveu seguir o planejamento de não fazer bate-e-volta, mas a trilha sumiu. Eram apenas 250m, então a trilha mais forte apareceu logo à frente. Encontramos uma galera que já se adiantava por ter feito o trecho sem rasgar mato. Como era uma estrada plana, mesmo com areia, dava pra dar uma corridinha boa. O PC2 estava num coqueiro, num lugar com relativa facilidade. Depois dali que a coisa ficaria mais técnica, indo pro PC3, no mangue. Corremos pela costa, na areia da praia, dando uns pulinhos nas onda... Eu admirava a lua, o mar e o mapa. Comemorava por estar ali.
   Quem tem perna comprida pode ir no trekking. Eu não. Bem básico. Enquanto as outras equipes se dissipavam, batíamos precisamente os 3 km, entrávamos no mangue e seguíamos Mauro que, com mais precisão ainda, identificava o PC. E dali, saímos de luzes apagadas para não chamar atenção, com a lua dando conta da nossa iluminação.
   Com três navegadores (eu, Vand e Mauro) e um atleta (Scavuzzi) que estava bem longe de ser atleta de percurso, fomos atacar o PC4. Muito navegador pode atrapalhar também, mas nesse caso deu certo. Seguimos para o PPO, travamos no azimute e fomos os quatro por direção paralela a uma distância de uns 20m de cada. Um trabalho em equipe que nos levou de cara até o PC. E o mesmo fizemos com o PC5, cuja direção do azimute seguia para a sombra da vegetação, que formava um pequeno vale.
   Preferimos pegar a estrada para chegar no PC6, ao invés da trilha. Também não rasgamos mato pra atacar o 7, exceto no fim da estrada, quando não tinha mais alternativa. As abelhas nos esperavam animadas no caminho do 7, dentro de uma matinha fechada com trilha de difícil progressão. Solenemente ignoradas, ficaram lá, fazendo barulho e nos picando. RS! E ainda tivemos que voltar pelo mesmo caminho, mas acho que elas ficaram confusas com tanta gente que apareceu, que esqueceram de nos picar na volta. Mas doeu!
   O PC8 estava numa duna, no alto, no meio. Fotografamos e fomos! Encontramos o PC9 com a mesma tranquilidade e seguimos para pegar as bicicletas no restaurante Polomar.
   Finalizamos o trecho com exatamente 2 horas e 57 minutos para fazermos uma transição com aquela rapidez competitiva que só nós somos capazes.

Foto @adventuremag
   Com o mapa em outra escala, descemos para um pequeno trecho de asfalto até entrarmos para as bandas do outro lado da pista, onde ia ter o tal do singletrack irado. Achamos a ladeirinha que entrava pra estrada de barro e seguimos para o PC11. Precisei aumentar o tamanho das letras do mapa pra indicar os PCs, porque já passei dos 40. Tava difícil enxergar. 
   Scavuzzi achou o caminho para o PC12 um prato cheio pra gente se perder. Ótimo motivo para ficarmos bem atentos. E assim seguimos... Até eucalipto tinha, e esses não me deram aquela impressão desagradável dos de lá de Catu. O cheirinho estava bom com o tempo fresco. De noite fica tudo melhor. Basta ter uma iluminação boa que a gente vai longe.
   Não queria navegar na bike, mas desisti de não querer. Fiz uma bagunça tão grande no mapa que Vand não conseguia entender nada. Ali só eu mesmo.

Foto @adventuremag
   O singletrack começou antes do PC12. Realmente, maravilhoso, incrível, uma delícia de pedalar. Vand e Scavuzzi que o digam! Fora um ou outro tronco de árvore no caminho, todo pedalável. Com cuidado pra não ficar pendurado pelos chifres ou não dar uma cabriola e voar longe.
   Por falar em cabriola, fiquei toda estrupiada com uma queda. Voei numa caixa de brita no estradão. Presa na roda da bicicleta, precisei de ajuda pra levantar. A preocupação dos meninos passou rápido, porque tratei de continuar meu pedal e administrar as sequelas depois da prova.
   No caminho para o PC13, Mauro teve que trocar a câmara da bicicleta. Essas intercorrências atrasam bastante, principalmente se o ritmo já não está bom. Fazer o quê? Um problema mecânico, sem dúvida, seria pior.
   Desde muito que Vand falava, com razão, que estava reconhecendo aquela trilha. Depois do PC14, saímos na Lagoa Aruá, perto da Praia do Forte, navegando precisamente até os PCs 15, 16, 17 e PC18, onde era a transição para o Enduro a Pé. Reparei naquele finalzinho que as distâncias não bateram muito bem, mas caímos em cima da Fazenda. Então não vamos reclamar de nada, não é? Não devo ter visto alguma entrada.
   Enquanto Mauro e Scavuzzi faziam o Enduro à Pé, eu e Vand providenciávamos as coisas. Reabastecemos água e comida, plotamos os PCs (de 20 até 28) no mapa, jogamos conversa fora, descansamos, cagamos (no caso, eu, mas ficou tudo limpinho lá, viu?!), até que chegaram. Na verdade, eu tinha a impressão de que seria melhor ter ido para o Enduro e deixar Mauro descansar, mas eles dois eram os mais experientes no assunto e, realmente, andaram bem rápido. Chegaram querendo partir.
   Mauro reclamava da sua mochila pesada, dos tênis pendurados... Sendo que não era ele quem estava carregando a porra da mochila. Aí a pessoa não quer ouvir desaforo. Kkkk! Eu e Vand nos revezamos com o peso dele para poupá-lo por quase toda a prova. Muita cara de pau para um ser humano só! Como castigo, teve que carregar um pouquinho de peso, pra variar. Esculhambação!!!
   Na saída, já tinha planejado tudo na plotagem. Mas, Mauro achou que eu estava errada, que precisava orientar o mapa e seguir pro outro lado. Realmente, era possível ir pelo outro lado também, mesmo não parecendo o melhor caminho. Ok, então! Fomos dar uma voltinha até o PC17 e depois voltamos pelo caminho antes sugerido, sob protestos de não se sentir seguro com minha escolha. Pulamos umas porteiras com questionamentos. Sossego mesmo, só tive quando encontramos o PC20. Em seguida, o 21, o 22... Amanheceu. E a Gantuá atropelou a gente lá pelo 23. Sacanagem!! Nosso pedal estava fantástico! E eles estavam muito atrás. Brincadeira... Eles estavam bem atrás mesmo, mas nosso pedal estava Categoria Cicloturismo! Então, sem novidades!
   PCs 24, 25 (cancelado), 26 e 27 (tá de sacanagem aquela ladeira!!?? Só Vand subiu.). Saímos na pista novamente, contamos 1km e pouquinho para a direita e encontramos o PC28- Chico e Álvaro-, onde plotamos os PCs 29 e 30, regados a uma Coca-Cola revigorante. Daquelas que garantem o fôlego do resto do pedal, menos pra Mauro, que já tinha deixado o fôlego por algum lugar da trilha. Mas não deixou a dignidade não, porque, com todo perrengue, ele estava ali, em nossa cola. Dizem que é por causa da bicicleta muito pesada...
   Se você pensa que as coisas não podem piorar, eu lhe afirmo: “todo castigo pra corno é pouco”! O singletrack foi bem gostosinho, mas não sei onde esse pessoal arrumou esse “grand finale” de ladeiras. Rapazzz! Olhando o mapa agora, nem sei se era pior ir pelo asfalto ou pela trilha. Escolhemos ir pela trilha e voltar pelo asfalto, porque foi o que pareceu óbvio na plotagem do mapa.

Foto @adventuremag
   Enfim, chegamos ao PC31 no local da chegada. Infelizmente, com o corte de 8 da manhã, não fomos pra canoagem, nossa prova acabou ali. Sem problemas! Completamos a NP6 com pouco mais de 14 horas de prova. Nossa classificação só vai sair quando divulgarem os tempos das equipes. Vamos aguardar!
   Parabéns pra Arnaldo e Gaia!! Foi uma prova incrível! Nível técnico massa, em todos os aspectos, com desafios diversos pra todos os gostos. Bem organizada, com mapeamento preciso, trechos técnicos, navegação exigente em vários momentos. Eu gosto muito disso!
   Parabéns pra minha dupla mista querida, Vitor e Gabi! Orgulho demais de vocês! E dos meninos, Glad e Lairton?! Nossa! Vocês foram demais!
   Foi tão bom encontrar os alunos da Escola, rever os amigos, ver todo mundo na largada!
   Amei tudo! Sobretudo, correr com essas pessoas queridas! Não tem preço, compartilhar com vocês esses momentos! Muito obrigada por tudo!
   Tia Fêêê, eu sobrei! Valeu pelo treinamento! Você arrasa!
   Agora, minha gente, vou ali treinar para fazer os 500km da Terra de Gigantes.
   Até breve!

terça-feira, 13 de março de 2018

Desafio do Coco 2018- 32km em 10/03


   A inscrição aconteceu no impulso. Não queria perder uma corrida tão bacana em minha terra natal. Mas surgiu uma viagem de última hora pra o Rio de Janeiro pra uma festa de 40 anos. Eu teria que passar a manhã inteira correndo em Catu, voltar, pegar minha mochila, pegar o vôo 17h, chegar na festa e dançar até de manhã. Seria uma odisseia!
   Corrida em trilha é bom porque não tem navegação. Tem gente que se perde, mas não é essa a pegada. Embora não seja o meu esporte favorito, tem outros desafios interessantes, que diferem da corrida de aventura... Tive tempo pra treinar, apesar de ter levado falta em alguns dias. Estava meio que pronta pra enfrentar o desafio. Os dois.
   Acordei às 4 da matina sem fazer muito barulho, comi, peguei minha mochila e fui. Com aquela velha sensação de ter esquecido alguma coisa, cheguei em Catu 6:40h. Não esqueci nada, rs! Depois de pegar o kit atleta, fiz um social básico. Encontrei amigos queridos de infância, amigos de Corrida de Aventura, da Escola de Aventura, gente como o diacho. A comunidade de Sítio Novo é super receptiva, o lugar muito fofo! E já era desde que trabalhei no postinho de saúde de lá em mil novecentos e bolinha. Um jardim bem cuidado, as ruas limpas, sem contar que o evento deu um brilho especial.


   A largada aconteceu na pracinha da igreja com um atraso de 40 minutos. O suficiente para o sol cumprir seu papel: esquentar tudo. Catu fervia junto com os atletas, que largavam no maior gás pra vencer seus desafios nas várias categorias oferecidas na prova.
   Meu objetivo era correr o mais rápido que pudesse e pegar um pódio. E quem não quer?
   Quando larguei, procurei ficar entre os atletas que estavam na frente. Logo de cara apareceu uma ladeira bem íngreme em direção ao cemitério. Subia no trote, mas logo percebi que não sustentaria aquilo por muito tempo. A única “adversária” conhecida era Denise, e ela estava bem pertinho de mim.


   O singletrack escroto que enfrentamos ao lado do cemitério, travou todo mundo numa descida, que ainda tinha um tronco de árvore atrapalhando bastante. O povo gritava, reclamava... Também dei uns gritos, mas aproveitei pra aliviar a respiração. Dava pra ver os outros atletas subindo na ladeira que ficava adiante. Oh dó, a minha amiga Denise ia lá na frente, RS! E eu ali, parada, impotente. Mas nossa prova só estava começando, não era momento para lamentos. Nunca é!
   Minhas pernocas estavam muito doloridas! TPM é uma merda! Tenho um peso esquisito nas pernas. Ficar inventando desculpas também é uma merda! Lembrei que tinha feito um treino de 22km quinze dias atrás, mesmo cansada de um dia inteiro na Escola de Aventura, bem melhor... O que estava rolando? Hum, aquele treino foi à noite. A “lua” que estava ali era outra, o dia seco, empoeirado. Subimos até uma torre e descemos novamente, passando pelo local da largada com uns 5km de prova. Dali, seguimos por uma área conhecida, onde fiz um treino de bike com Show, organizador da prova. Estradão com pouca sombra, um calor insuportável que me fazia refletir se era mesmo possível pegar o vôo das 17h. Precisava terminar com menos de 4 horas de prova, mas naquela velocidade de tartaruga, seria muito difícil. Minha água da mochila estava bem geladinha. Só que eu precisava de água na cabeça. O calor comia no centro.
   No km 7, pensei se não seria melhor parar por causa da viagem. A Luciana que mora dentro de mim, começou a questionar. Quase 1 hora de prova e eu sequer passara dos 8km. Pelas minhas contas, não fechava. Talvez, se respirasse fundo e apertasse o passo. Se desistisse daquela prova, jamais esqueceria. Precisava parar de subir as ladeiras no trekking. Que sofrimento!
   Lá pelo km 8 ou um pouco mais, fui alcançada por um corredor. Trocamos algumas palavras e ele passou à minha frente. Nas costas da sua camisa, uma frase longa instigou minha curiosidade. Imaginei, antes de ler: “Deve ser uma frase motivacional!”. Li.
   - Se você está lendo essa mensagem é porque é mais lento do que eu.
   Pensei:
   - Pôxa, que frase de mau gosto! Kkkk! Deselegante.
   Motivacional! Fui remoendo aquele texto. Ora passava por ele com seus amigos, ora revisava o texto. E acho que, se tivesse que colocar uma frase nas costas, seria: “Falta só mais um pouco, você consegue.” “Sou lenta, mas não paro.” “Posso ajudar?”... Fui tagarelando comigo mesma.
   Aff! Nunca odiei tanto eucaliptos! Como sabemos, uma plantação de eucaliptos desequilibra o ambiente, seca tudo, não nasce nada em volta. Nenhum bicho quer viver lá. O cheiro que antes curtia, nem conseguia sentir. Folhas secas no chão arenoso, poeira, sol de 38°C e um calango ou outro fugindo dos passos rápidos dos corredores. Nem pra fazer sombra estavam servindo. E a água do km 11? Precisava...
   Uma corredora me alcançou. Durante a ultrapassagem, olhou indiscretamente para o meu número de peito para dar um "confere" em minha categoria. Humilhantemente, seguiu a passos rápidos e seguros, enquanto aquele da frase que estava logo atrás dizia: “Vocês são da mesma categoria, vão lá!”... Não deu mesmo, fui atropelada. Aliás, ela atropelou todas as mulheres que estavam à frente também... Vamos arrumar uma frase: "Se você está lendo essa mensagem é porque foi atropelado!"
   Enquanto a água do Km 11 não aparecia, avistei uma camisa laranja. Fui chegando, chegando. Entrou numa trilha errada e voltou. Alcancei num falso plano. Mas, não tenho coragem de olhar pra o número de peito pra ver a categoria da pessoa, não. Sequer consigo ter ideia da minha posição dentro da prova, a não ser que alguém me conte. Parece que o desafio torna-se estritamente pessoal. Conversamos sobre o tempo, sobre nossos cansaços. Ela dizia que já não aguentava correr nem no plano. Praticamente um encontro de sequeladas, RS! Como ainda conseguia correr no plano, me despedi e continuei minha penitência. E que penitência!
   Administrava a corrida km a km, quando Show apareceu com água. Peguei uma garrafa de 1,5l, pedi perdão a Deus pela falta de água potável no mundo e joguei quase tudo pelo corpo. Refrescou, mas só percebi a merda que fiz quando meus tênis começaram a fazer aquele barulho de ensopados. Não poderia piorar! Como pude fazer aquilo?
   A menina ficou pra trás e os rapazes também. Cheguei a parar pra pegar água mais uma vez e segui.
   Teve um trecho de singletrack maravilhoso! Todo de descida, sombreado e fresco. Aproveitei para apertar o passo, enquanto as unhas davam sinais de morte. Com os tênis tão molhados não daria outra.
   Tem umas horas nessas provas que curto demais! É a boa e velha solidão aliviada. Aquele momento em que não aparece uma alma viva e você aproveita pra bater aquele papo cabeça com seus parafusos.
   Quando "acordei", lá pelo km 24, 25, encontrei Pedro, caminhando com dificuldade. Ele fazia 21 ao invés dos 32km. Sentia muita dor na articulação do fêmur, quase não conseguia caminhar. Trocamos umas palavras e nos separamos. Aproveitei pra dizer que ele conseguiria, eu tinha certeza! Show apareceu de novo com água. Dividi com Pedro e fui embora de vez.
   Que SO-FRI-MEN-TO! Parecia sem fim, mas a minha consciência insistia em dizer que sempre acaba. Acaba. Pode ser o que for, acaba!
   Avistei Denise faltando uns 2 km pra chegada. Nos encontramos, conversamos um pouco. Até tentei subir uma ladeira trotando, mas notei que só serviu de estímulo para que, dali em diante, ela corresse sem mais parar. Não posso negar que fiquei feliz. Será que estou errada? Fiquei pensando sobre isso. Esse momento esportivo é bem interessante, gera muitas reflexões. Ela é forte! Eu também acho que sou, mas era o momento dela. Estava administrando o prejuízo e fiquei muito feliz em concluir a prova. Doeu, mas foi massa! Nenhum peso na consciência. Sequer pensei que poderia ter feito melhor do que o que fiz.




   No fim das contas, o percurso foi reduzido em 2km, consegui fazer em menos de 4 horas, cheguei em quarto lugar e corri pra administrar outra história. O tempo.
   O tempo foi a conta certa de cumprimentar os amigos, tomar uma água de coco, chupar um geladinho, dirigir até Lauro de Freitas, arrumar a mochila (Putz! Não arrumei minha mochila com antecedência!), seguir pro aeroporto, comer alguma coisa e pegar o vôo. Ainda consegui dançar até de manhã numa boate no Rio de Janeiro. Ufa!
   Meus agradecimentos super especiais aos meus amigos: Andréa, Letícia, Katiola, Fernanda Piedade (também minha treinadora), Down, Pedro, Denise, Aventureiros do Agreste (meu povo)... Cada um por razões diferentes.
   Meu marido lindo, valeu pela festa no Rio!


#todomundopensouqueeuestavabebada

   Parabéns pra Show, pela prova, que está melhor a cada dia e a todos os atletas que fizeram essa grande festa!
   Cinquenta mil beijos e trezentos e quarenta mil abraços!
   Até muito breve!
   Lu    
 
PS: As foto lindas são de Tatiana Cabral e Kátia Souza.