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UTCD 2023- 80km


   Não tenho um pingo de vergonha na cara. Da última vez que fiz a Ultra Trail Chapada Diamantina (UTCD), disse que machucava muito os pés e que preferia fazer Corrida de Aventura… Como se Corrida de Aventura machucasse menos. 😂

   Esse ano, eu corri todas as provas do Campeonato Baiano de Corrida de Aventura, menos a Expedição Mandacaru, porque estou envolvida na organização. Então, pra fechar com chave de ouro o meu ano esportivo e comemorar meus 52 anos, decidi correr a UTCD. 

   Tudo bem! Eu amo correr, mas precisava ser 80km? Aí é que vou contar pra vocês…

   Já que eu estava indo e já tinha feito 50km, decidi me desafiar nos 80. Fiz minha inscrição e ainda joguei minha filha no bolo, nos 35km, que depois ela mudou pra 14, por que não estava com tempo pra treinar o suficiente. Eu queria brincar o brinquedo todo!

   Depois de um fim de semana de muito movimento na Expedição Mandacaru, lá estávamos nós, na semana seguinte, acampados em Mucugê, de mala e cuia, com boa parte da família e mais duas turistinhas fofas. Realmente não sei se foi uma boa ideia fazer tanta coisa, uma atrás da outra, mas acho que nada acontece por acaso. Ainda estava muito acelerada dos dias anteriores, precisando terminar relatórios, ao mesmo tempo que tentava conectar com a natureza, relaxar, desestressar. Foram poucos dias em casa, entre uma viagem e outra, dirigi por muito tempo em todas as viagens, dei pouca atenção ao meu filhote, ao meu cachorrinho… enfim. Boa parte da família estava lá, fiz o que estava ao meu alcance e segui em frente sem me culpar.

   Em meio a tanta coisa pra fazer e tanta tentativa de me conectar com o que realmente precisava naquele momento, eis que, quinta-feira, lá estava eu, em Mucugê, na fila, pra pegar meu kit da prova e vejo umas pessoas com uns papéis nas mãos. Oi?! Papéis!? Atestado?! Termo de Responsabilidade!? Fiquei doidinha! Saí da fila… A sorte que estava com exames em dia e não foi difícil falar com o médico. Mas, como que uma pessoa tão organizada como eu não sabia de nada da prova? … Bom… Nada de cobranças! Se não desse pra correr a prova, estava até preparada pra abrir mão.

   No fim das contas, só fui pegar o kit na sexta pela manhã, antes de ir visitar a Cachoeira do Buracão pela quarta vez, só pra acompanhar minha galera e não perder de ver as carinhas de alegria da turma. Foi uma boa?! Confesso que pensei algumas vezes se deveria ter ido mesmo… vocês vão entender.

   A visita ao Buracão durou o dia inteiro. Foi uma delícia! Como se fosse a primeira vez, curti demais, cheguei até a beira da cachoeira, voltei de alma lavada! Sem contar que a guia foi Sabrina, minha amiga querida. Na volta, pra incrementar com mais emoção, caiu uma chuva que deixou a estrada super escorregadia. Encontramos vários carros atolados pelo caminho, numa ladeira, com várias pessoas desoladas, por imaginar que perderiam o briefing da prova. Foi meio tenso mas, no fim das contas, conseguimos subir e chegamos em cima da hora de ver o que aconteceria em nossos percursos. Ainda bem, apesar da intercorrência e de ter passado o dia sem ter feito o que tinha que fazer, que era me alimentar, hidratar e descansar antes da prova.

   Cheguei no camping e fiquei por quase uma hora pensando o que a pessoa coloca em dois sacos de mantimentos pra fazer uma prova de 80km. Tô acostumada com provas de 500km, com logística complexa, modalidades, tempos. Não achava que precisava deixar nada em sacos pra uma corrida de 80km. Fiquei parada um tempão, olhando pro nada, pensando no que fazer, me achando meio incompetente. Como se as pessoas que estariam na prova, tivessem uma fórmula mágica que eu não conhecia. Por fim, pari dois sacos de mantimentos com 5 kits de comidinhas em cada, dois ovos cozidos, um tênis extra e dois bastões de trekking. Detalhe que nunca usei meus bastões de trekking e, certamente, não usaria dessa vez.


   Depois de um pouco de ansiedade na indecisão dos sacos no dia anterior, acordei super tranquila, zero nervoso na largada, parti bem de boa, pensando em fazer o que treinei pra fazer. Sim, se acontecesse uma desistência, não seria por falta de treino. Fiz o meu dever de casa direitinho! Na verdade, meu plano número 2 era fazer a prova em, aproximadamente, 10 horas, depois do primeiro plano, que era terminar. Oitenta é chão pra não acabar mais!

   Pensei em dividir a prova em 4 de 20km pra sentir menos, mas não deu muito certo, porque os primeiros 36 me pareceram os mais difíceis. Foquei neles! Foram os mesmos dos 50km que fiz numa UTCD anterior, que não lembrava mais. A gente dá uma volta pela cidade e depois começa a subir bastante. Ali, o trânsito fica meio ruim, você fica pedindo licença pra passar, alguns entendem que você é capaz de seguir na frente, outros não. Fui ultrapassando como pude.

   Lá em cima, perto do Projeto Sempre Viva, tinha um ponto de reabastecimento, com água, fruta, isotônico e Coca-Cola. Passei rapidinho e segui. Mas achei que iria direto pro Tiburtino… Que nada! Subi aos céus, corri por um platô, onde dava pra ver os vales dos dois lados e daria pra desfrutar de uma paisagem incrível, se eu tivesse prestando atenção. 


   O sol escaldante me fez tirar a camisa e perceber que a mochila já tinha feito um buraco em minhas costas. Bom… depois eu resolveria a situação. Tentaria não me machucar tanto. 

   Alguns rapazes estavam por perto, com stravas ligados, avisando as distâncias, paces, tempos, etc. Ouvia e tentava acelerar, pensando que, talvez, pudesse ser um pouco mais rápida. Apareceu uma subida que não acabava nunca. Dava pra ver as camisas coloridas pequenininhas lá no morro. Pode apreciar a paisagem deslumbrante!

   Quando finalmente cheguei ao Tiburtino, molhei a cabeça no rio e confirmei que não daria pra chegar nos 36 no tempo que eu queria. O sol castigava demais, dezenas de atletas "ferviam" o carburador pelo caminho. Enfim, desci as trilha do Tiburtino que vai até a cidade, no pique. Até tive que “enfrentar” uma moça um pouco chateada que achava que eu não poderia passar na frente dela pra subir nas pedras, enquanto outra estava travada, alegando medo de altura. Que bom que li o regulamento da prova e sabia que ela precisava me deixar passar. Pois é! Li o regulamento quase na hora de largar. 😂😂

   Dali em diante, não houve mais engarrafamentos! Cheguei nos 36km pouco antes de 1 da tarde, fora do meu tempo esperado, porém, animada por estar tão bem! Peguei os 2 ovos cozidos e os lanches de trilha, comi umas frutas e o tal do Godó, e fui embora, sendo filmada por Mano, minha amiga querida e cheia de palavras de estímulo. 


   Saí andandinho rápido… Devorando ovos cozidos, conversando com 2 novos amigos que encontrei no caminho. Foram muitas amizades efêmeras, daquelas que jamais lembrarei dos rostos, mas lembrarei dos momentos. Um desses foi um gringo, que vomitou os bofes logo depois do Posto de gasolina saindo de Mucugê. A comida dele voltou toda e eu fui obrigada a ver aquela cena de filme de terror! 🥴

   Depois da ponte, um menino, sentado no cavalete que indicava a divisão dos percursos, disse que tinham passado só 2 mulheres nos 80 km. Eu fiquei numa felicidade danada porque, apesar de achar que meu tempo estava bem lento, estava muito bem, em ritmo constante, sem dores, sem ofegância. 

   Tudo ali era muito conhecido, apesar de eu nunca ter treinado exatamente pra UTCD, foram muitas corridas e muitas pedaladas nesses últimos anos pela região. Entrar na trilha do Pinheirinho foi uma delícia! O tempo foi passando muito rápido! E o tempo fechou muito rápido também, logo que entrei na trilha. A chuva caía torrencialmente, com raios e trovões, formando pequenas corredeiras pelas trilhas desniveladas. Ficou até agradável, deu alivio danado no calor. Com isso, não precisei mais parar pra fazer xixi, já que era água pra todo lado. 

   Um menino escorregava toda hora na minha frente. De um jeito que achei que quebraria uma costela, uma hora daquelas. Quando a chuva deu uma trégua, que voltei a usar o matinho, notei que o xixi estava preto. Desidratei sem perceber. Reduzi um pouco o ritmo, fiquei pensando no que fazer, refletindo se estava com algum sintoma… Fui de novo fazer xixi… tudo muito escuro. Fiquei um pouco assustada, mas, por incrível que pareça, nada de desânimo. 

   Sem sintoma algum, achei melhor não falar que estava desidratada. Passei a beber muita água e isotônico até chegar ao Km 52, onde teria mais um ponto de apoio e uma pulseira. Lá, comi fruta pra caramba, bebi muito líquido e pensei: Agora só faltam 28km. Pouca coisa! Sempre repito isso pra mim, independente de quantos quilômetros faltem. Detalhe que aquele apoio já me disse que eu estava em quinto lugar… Povo indeciso! Nem tinha como alguém me passar. 

   E segui, tentando não forçar muito pra não morrer de desidratação. 😁

   Nesse meio tempo, conversei com Zé, meu anjo da guarda. Expliquei que precisava terminar a prova e ele deveria muito me ajudar. Eu cheguei até ali e não dava mais pra voltar atrás. Não via ninguém na minha frente, nem atrás. Parecia não sentir nada, mas comecei a imaginar que, talvez, meus rins entrassem em falência… E quando entrei numa trilha bem fechada, sozinha, a vista "anuviou" e achei que se desmaiasse ali, poderia entrar em coma e daria trabalho me tirar dali… 

   Resolvi fazer outro xixi, que foi o mais transparente que fiz em minha vida. E toda neura se foi, rápido como veio. E passei a correr como se nada tivesse acontecido, até que cheguei ao km 65, bem solitária.

   Em quase todos os pontos de apoio tinha amigos trabalhando. No 65 estava Douglas, outro querido. Lá, me disseram que eu estava em quarto lugar, arrumaram uma cadeira, sentei, me deram macarrão e coca-cola. Peguei apenas os pequenos lanches no saco onde estavam o tênis reserva e os bastões de trekking, sem uso mais uma vez. 

   Enquanto comia o macarrão, apareceu uma menina, do nada, e sentou-se também. Eu realmente não sei de onde ela surgiu, porque, em vários momentos da prova, olhava pro horizonte atrás de mim e não via absolutamente nenhuma mulher. Enfim… Cumprimentei a minha grande estimuladora de performance a partir dali, me despedi de todos e corri aqueles 15km finais como se não houvesse amanhã, como se estivesse começando a prova, como se uma bomba estivesse explodindo atrás de mim. 

   Cheguei no asfalto, atravessei pra trilha mais uma vez. A noite foi chegando, as lanternas se acenderam. Do outro lado, entrei na trilha que dá a volta no morro do Cruzeirão, já de noite. Corria loucamente, apagando a lanterna algumas vezes, pra ver se vinha alguém atrás de mim. Nada! Quando apagava a lanterna, ficava um “Breu” danado! Aí eu decidi não apagar mais, porque se a lanterna resolvesse não acender, eu tava ferrada! 

   Aquela volta do Morro do Cruzeirão parecia que não acabaria nunca, mas acabou, porque tudo acaba, e não era isso que não ia acabar. Quando as luzes da cidade apareceram, quase gritei de felicidade. Ao mesmo tempo, pensei que seria a prova de fogo! Será que conseguiria correr lá em cima?

   Passei pelo último apoio, peguei a última pulseira, bebi minha última coca-cola, antes do que último desafio. A subida do Cruzeirão por aquele lado é bem pior do que a tradicional, que fica do lado do cemitério. Já fiz aquilo outras vezes, tanto passeando, quanto nos 50 da UTCD. Depois de 76km, a pessoa de pernas moles, pirigando de perder seu quarto lugar, sobe numa ofegância fora do normal, por mais que treine… Olhei pra trás umas 3 vezes, fingindo admirar a paisagem, para respirar. Subi o mais rápido que pude! Lá em cima, muita pedra pra descer, subir, pular, escalaminhar. Tudo muito intenso, muito escuro, só nas fitas reflexivas! Chegava em Mucugê mas não chegava no diacho do Cruzeirão. Parecia até que ele se afastava. Mas chegou! Chegou e eu desci no mesmo pique, escorregando onde precisava, fazendo apoio com as mãos, na velocidade que pude…

   Daí aconteceu algo completamente inusitado. Uma pessoa apareceu na minha frente. Pensei que era um menino que algumas vezes encontrei. Ali, uns 40 metros abaixo. Falei “U U”… Como gosto de fazer quando encontro os amigos. E pasmem! Era a menina que estava em terceiro lugar. Eu nem acreditei que fiz aquilo! Talvez, se eu não tivesse chamado a atenção dela, realmente a tivesse alcançado e, um pega teria acontecido até a linha de chegada. Mas a menina fez a mesma coisa que eu fiz quando encontrei a que estava em quinto lugar. Correu como se não houvesse amanhã. 

   Na frente do cemitério, ela não estava mais ao meu alcance. Eu também corri muito, mas nem em sonho a avistei mais. Chegamos com uma diferença de menos de dois minutos. Ela no terceiro lugar que manteve por tantas horas, eu, no quarto lugar que mantive por quase 14 horas. Era meu aquele lugar!

   Feliz da vida por ter conseguido realizar essa proeza de fazer 80km toda contente, sem sofrimento, e ainda pegar um pódio! Feliz por saber que minha filhota ficou em primeiro em sua categoria e em 7 no geral dos 14km. 

   Nem deu tempo de tomar banho pra subir no pódio, já fui chegando e participando das comemorações, com a roupa do corpo, toda mijada. 😂😂😂

   Acabei a prova dizendo que não faria mais porque meus pés ficam muito machucados, embora sinta muito pouco durante o percurso. Entretanto, hoje, escrevendo esse texto, já quero mais, e quero correr mais rápido, porque sobrou muita Lulu nessa UTCD, fiz a prova toda curtindo cada momento, concentrada, interiorizada, sem dor, ponderando cada movimento. 

   Saldo: menos 6 unhas e 3 perebas nas costas. Mais felicidade, autoestima, autoconhecimento, etc., etc., etc  😁

   Parabéns a todos os envolvidos! Que prova bem organizada! Não esperava menos! Percurso super bem marcado, pontos de hidratação nos lugares certos, sofrimento na medida certa, manos naquele Cruzeirão dos infernos!

   Obrigada a toda minha grande família, pelo apoio nessas minhas maluquices!

   Agradeço aos meus parceiros de treino: Plínio, Gabi, Gilmar, Ignêz, Vitor, Glad… a cada um que foi um diazinho pra me acompanhar. E a todos os Aventureiros do Agreste que estão comigo, mesmo em pensamento.

   E agradeço à minha super, mega, blaster treinadora Fernanda Piedade, por tanta competência e pela parceria e amizade!

   Até a próxima UTCD, quem sabe? Vou pensar. 🤪




Comentários

Bruno Matos disse…
Que massa! Parabéns pela prova e pela resenha. Correr 80km na trilha é dar um passo além da normalidade. E naquelas condições, um passo e meio. Que não tenham sido os últimos...

Abraço!

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