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Viva São João!




Todo ano é uma "renca" de gente que aparece lá na roça. A casa só tem dois quartos e um puxadinho lá embaixo, colado com a cozinha de fogão à lenha, logo depois da jaqueira de 200 anos. Nunca deu pra quantidade de gente que aparece nos feriados. Aliás, sempre deu! Os colchões ficam espalhados por todos os cômodos. Já dormi até em cima da mesa. Outra vez, levei barraca. De outra, dormi na cozinha, antes mesmo da casa de verdade ficar pronta. ( Meus pais passaram mais de 3 anos dormindo no puxadinho até a casa principal ter telhado e ser rebocada. Mudaram sem pintura mesmo.)


As três irmãs (incluindo eu, please!), Gabi(Penélope) e Mauro com as crianças, todos os sobrinhos, os primos, Tia Flor, Alzerina. Ao todo, dezenove pessoas dormiram lá! E deu pra todo mundo.


Cheguei na quarta mas, a festa já tinha começado no fim de semana anterior porque a minha irmazinha do Rio estava lá, dando todas as gargalhadas que uma pessoa puder imaginar. E bem altas! Inclusive, é impossível assistir à TV num volume de gente normal. As gargalhadas dela são acima dos decibéis permitidos pela lei, se a lei do silêncio da roça não fosse a nossa própria lei.


No outro dia, já véspera de São João, eu e Marcílio (meu querido cunhadinho) fizemos um pedal de 20km até o Tabuleiro, onde minha avó tem casa. É um pedal bem legal porque tem uma ladeira monstruosa bem no meio do caminho. (Até já fui lá sozinha, lembram?!) O pneu da bike de Cílio furou no meio do caminho. Pedi pra trocar só pra me amostrar. Fiquei toda orgulhosa de mim mesma! E a divulgação aqui no blog é apenas um detalhe obrigatório.


Depois da pedalada, tinha pressa de ir à cidade. Precisava comprar aquelas botas de R$ 50,00 que Lila (minha irmã mais nova) garimpou na Casa do Fazendeiro. De couro mesmo! Estava mais barata por causa dos solados quase soltos. Aproveitamos para pegar mais comida na cidade. Era muita gente pra alimentar. Fomos cruzando com todas as visitas que estavam se dirigindo para o São João na roça.


Amo rever as minhas amigas de infância! Morei e estudei em Catu até os 15 anos. Tenho ótimos e inesquecíveis amigos por lá. Sendo assim, minhas idas à cidade são sempre recheadas de belos reencontros. Melhor ainda quando vejo que elas estão lindas e felizes. Pena que tenho tanta dificuldade em ficar mais tempo. O mato me chama!


A casa encheu mesmo! Só pra vocês terem ideia, lavei os pratos do almoço por mais de uma hora sem parar. Conversando e lavando. Essa é a parte boa!


Naquela noite, as botas com solados quase soltos não resistiram às minhas palhaçadas e sapateados. Estava previsto a visita ao sapateiro, antes mesmo de usá-las mas, já sabem não é?! Não resisti! As crianças soltaram fogos até tarde. Assamos milho e churrasquinho naquela fogueira enorme que meu pai faz todo ano. Ouvimos e dançamos forró. Tinha milho cozido, amendoim, bolo de todos os sabores do São João. Não faltou licor. E fomos dormir entalados de tanta comida, já programando o pedal da manhã seguinte.


Eu, Mauro, Gabi e Marcílio pedalamos até a venda de João, de lá pegamos aquela estrada do oleoduto. Bem retinha, com subidas e descidas leves, parecendo um tobogã. Exceto por uma ladeira cavernosa que nem dá pra ver o final se você não chegar bem pertinho. Depois pegamos um trecho de asfalto até o Veadinho. Paramos por causa de outro pneu furado, depois seguimos até Bela Flor.


Bela Flor é um Distrito de Catu onde trabalhei como Dentista por muito tempo. O Posto de Saúde fica na pracinha, assim como a Igreja, o Posto de Correio, o telefone público, o mercadinho. Uma gracinha! Toda vez que passo lá, toda suja de lama, os moradores me reconhecem. A gente sempre para na mesma vendinha. A mãe de Marcílio (Au- é o apelido de Alzerina) nasceu lá. Todo mundo conhece Marcílio também. É uma parada obrigatória!


De lá, foram uns 4km de estrada de asfalto até Pedras, para começarmos os 20km finais de barro. Esse trecho é aquele que tem a ladeira (1,5km) que sempre sonhei subir, quando tivesse uma bicicleta. Já tô craque em chegar ao topo! Dessa vez, apostei um pega com Mauro. Ganhei! Uhuuuu! Já fui pegando distância desde os primeiros metros, nas primeiras curvas. E esperei o perdedor lá em cima quase botando os bofes pra fora. Dali foi só descidão pra gente soltar os freios e se divertir.


Todos os dias, as crianças aproveitavam nossas bicicletas para pedalar na estrada. A cena da minha sobrinha entrando em casa, me perguntando se ia morrer não sai da minha cabeça. Foi um escândalo por causa de um machucado num arame farpado. E a pessoa só lembra de gritar a Tia Lulu. Pensem num escândalo e multipliquem por 95. Foi isso aí! Tem que ter essas coisas em festas de família.


Nesse dia do São João recebemos visitas de vários parentes queridos. Rimos e comemos o resto do dia inteiro. E à noite, fez até um friozinho para o vinho ficar com um sabor mais especial.


O piquenique com as crianças no sábado de manhã foi uma aventura para eles. Saímos todos com chapéus de palha, parecendo uns retirantes, pela estrada. Mauro colocou uma mochila-cadeira nas costas para levar um dos filhos. E seguimos para a Sapucaia. Entramos pela porteira, seguimos por um charco terrível que, segundo Marcílio, era o melhor caminho. As meninas se divertiam com tudo e tagarelavam horrores. Sei que a gente acabou o passeio no meio do caminho da Sapucaia. Paramos numa árvore frondosa, logo depois da cerca. Sentamos e mandamos ver na comida. Tinha pipoca de microondas, suco, biscoito, laranja, lima, tangerina. Pensem na mochila pesada que carreguei? As crianças amaram! E ainda encontramos Sr. Freitas (trabalhando, só pra variar) no caminho, que fez a maior onda porque escomlhemos o pior caminho pra subir o morro. Tava todo mundo podre de lama!


No fim de tudo, a casa recebeu a visita ilustre de uma amiga de infância que foi até lá perguntando pelo caminho. No melhor estilo: "Quem tem boca chega até os Varões!" Uma figura a Jay! Vivemos muitas aventuras juntas! Fizemos muito piquenique, corremos de boi brabo, roubamos frutas no quintal do vizinho. Uma vez, o pai dela até me prometeu uma surra porque cheguei dando muita gargalhada na casa deles. Ele falava assim: "Essas meninas de Conceição são muito escandalosas!"


O bom de tudo isso é que a gente tem muita estória pra contar pros nossos filhos e netos. Pros amigos queridos também!




Viva São João!

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