sábado, 8 de julho de 2017

Trilha Salkantay- Dia 3- Chaullay a Águas Calientes- Muitos Km!


   Café robusto com mingau de aveia, ovos revueltos sem tempero, café com leite e pão! Maravilha pra começar um trekking de 35km. Com planos de surpreender as expectativas locais, certos de que não teríamos dificuldade com altitude nesse trecho, queríamos chegar em Águas Calientes ainda de dia. Na pior das hipóteses, chegar na Hidroelétrica de dia, já que o caminho dali em diante era pela linha do trem.
   Às 5:50h a gente já estava com o pé na estrada fazendo o vídeo inicial da trilha. Sempre sozinhos nessa parte da viagem, seguimos pelo estradão até uma ponte, onde uma trilha atravessava para o lado esquerdo do rio Urubamba. Trilha linda que contornava um paredão do vale, enquanto do outro lado do rio a estrada contornava o outro, até se encontrarem outra vez em La Playa, em outra ponte.   Poucas subidas, mata verde escura, pontes de madeira que nos ajudavam a transpor as cachoeiras que desciam das montanhas. Caminhávamos animadíssimos, curtindo a paisagem, os bichos e o barulho do rio. Encontramos plantações, um pequeno camping e uma vendinha de bebidas e frutas pelo caminho. Sempre tem um lugar pra comprar água e comida, mesmo que seja só salgadinho industrializado.




   Em La Playa (2350m de altitude), depois de uns 15km de Chaullay, rolou uma paradinha rápida pra tirar o peso da mochila das costas, beber algo e comprar umas frutas. E seguimos em conversa tão animada que aumentamos a velocidade. Descendo uma ladeira, fizemos um vídeo para os nossos amigos que não puderam ir, Mauro e Gabi... Com 16km, percebemos que a ponte que esperávamos não tinha passado e que, talvez, estivéssemos no caminho errado. Mas como que só tinha aquela estrada no mapa?... Perguntamos... Então?! Aquela estrada não estava no mapa.
   Voltamos para a ponte, subindo a ladeira de volta, respirando ofegantes e tentando recuperar o tempo perdido. Esses 3 km a mais poderiam fazer diferença lá na frente mas a gente só queria achar a ponte e seguir pra Hidroelétrica. Pronto, a ponte!
   Continuamos pela estrada até Lucmabamba, onde ficava a bifurcação pra Llactapata... cada nome de vilarejo, que só Jesus Cristo na causa!... Na bifurcação, uma entrada para a direita com placa enorme, informando “Hidroelétrica 11,9km”
   Sabe aquela história de que não tinha mais subidas? Tudo mentira! Morri de subir ladeira! Mais de 5km, parando só pra fingir que estava contemplando a natureza. Quase no fim da subida, as vozes de crianças nos animaram muito. Mais uma vendinha de frutas, salgadinhos, doces e bebidas, e coca-cola. A menina disse que a gente subia só mais um pouco e encontrava os pampas. É isso aí, animação!! Daqui em diante tem pampas, eu pensava. Oba!


   Continuamos a subir a morrer até os pampas. Lá em cima, muito em cima mesmo, tinha outra vendinha com uma senhora muito simpática que deixou a gente usar a mangueira para lavar as mãos e o rosto. Vitor se deliciou com um abacate com açúcar, eu comi banana e continuamos. Mas a senhora quis nos mostrar uma coisa, pedindo que a seguíssemos pela trilha. Abandonou sua vendinha e foi com a gente até uma bifurcação. Pra frente seguiríamos pelo nosso caminho e pra esquerda, ela retirou umas barreiras e nos levou até um barranco descampado de onde dava pra ver Machu Picchu inteirinha, lá embaixo, e a Hidroelétrica, mais lá embaixo ainda.
   Perplexa, várias frases viam à cabeça ao mesmo tempo:
  •         Meu Deus, como subimos!!!
  •         Jesus Maria José, como está longe!
  •         Putz! A hidroelétrica é mais longe ainda!
  •         Uau, que lindo!
  •         Por quanto tempo mesmo vamos andar por esses pampas?

   Gente, a conta dos 34, 35km não estava fechando. Nos despedimos da senhora simpática e começamos a descer. E os pampas? Os meus pés começavam a dar sinais de cansaço, uma unha começou a avisar que sairia do dedos, o quadríceps disse que estava presente e a cabeça informava pra todo mundo que o trabalho em equipe era super importante naquele momento. Não aguentava mais descer em zigue-zague. Um penhasco escorregadio, uma descida muito mais cruel do que todas ficou ali, reservada para o último dia. Escondida, minha gente!! Ninguém avisou desse suplício. Não dava pra enxergar o fim do buraco, não dava pra ver o rio, mesmo quando a vegetação abria.
   Uns 5km descendo a floresta, até que encontramos uma ponte para atravessar o rio e chegar na estrada. Daquelas pontes que balançam tanto que a gente tem que segurar nas laterais e, se cair, morre. Vitor morreu de medo e nem quis tirar uma fotinha pra registrar, rs! E a estrada ainda seguia por uns 2km infinitos.


   Na entrada da hidroelétrica, registramos nossos passaportes, seguindo para a linha do trem exatamente às 16:10h. Olha só que delícia! Andamos horrores e ainda chegamos de dia pra o trekking da linha do trem.


   Foi a hora da caminhada que tivemos companhia de outras pessoas por perto. Vários mochileiros faziam o mesmo. Ao invés de pegar o trem, iam caminhando. Como seriam duas horas de trekking, nos animamos, acelerando o passo pra chegar o mais rápido possível. Deu duas horas de caminhada, escureceu e nada de Águas Calientes. O peso da mochila, os calos nos pés, a unha solta... Tudo incomodava nas pedras soltas da linha do trem. Ligamos as lanternas e continuamos nosso suplício, que até ali contava mais 45km. Passamos pela entrada de Machu Picchu, por dois túneis e avistamos as luzes.
   Veio um sentimento de gratidão, misturado com a serenidade da certeza de que conseguiríamos.  Uma alegria boa. Mas, sofrimento pouco é bobagem! Depois de entrar na vila pela linha do trem, descobrimos que o hostel ficava na parte mais alta da vila. Rimos das nossas próprias caras!! KKK! Os dois fedorentos, tipo bicho-grilo, subindo a ladeira, acabados, enquanto um monte de gente descia de bota com salto, casacos arrumados... Piada pronta que a gente se acaba na resenha. Afinal, nosso quarto ainda ficava no terceiro andar.
   Pois é! Conseguimos fazer a trilha Salkantay em três dias. O argentino da Peru Goyo Expedition precisava saber do nosso feito! A gente riu na cara do desafio. A gente jogou duro! Sem mula, sem carregador, sem carro, mochila no lombo e pé na trilha!
   Enfim, mandamos as roupas pra lavanderia porque o fedor estava horrível, tomamos um banho e descemos de sandália havaiana pra o restaurante Índio Feliz pra comer comida de verdade e tomar um porre de Pisco Sour. Viva nóis!!
   Ah! Eu quero fazer um agradecimento muito especial ao meu marido. Ele quis casar comigo mesmo sabendo que eu fazia essas coisas doidas, mesmo sabendo que invento muita arte. Das nossas melhores aventuras, essa foi a mais incrível! E mesmo com todo perrengue da caminhada, do frio, altitude, cheguei ao final com aquela velha certeza de que esse é o cara com quem quero passar o resto da vida. Gratidão!




Trilha Salkantay- Dia 2- Soraypampa a Chaullay- 20km

   Noite fria e chão duro! O saco de dormir não deu conta na categoria conforto. Os ossos do quadril não encontraram posição sem doer naquele chão de madeira. As meias não deram conta do frio em sua totalidade. Dormia apenas o tempo de doer muito o quadril para mudar de posição por causa da dor. Pensava o tempo inteiro no Humantay, na dor no quadril e no frio nos pés. Reflexão demais da conta!
   O acampamento estava muito cheio. Perto das 5h da manhã, os guias começavam a acordar seus pupilos e a nós, por tabela. Decidimos esquecer o Humantay, tomar café em D. Andrea e seguir nosso caminho rumo à Chaullay. Até então não tínhamos certeza de que o hostel reservado existia mas, no ruim de tudo, acamparíamos outra vez. Ninguém sabia informar sobre o Salkantay Hostel. Paciência!

O amanhecer.


   Realmente, a subida do Salkantay é indócil! A passos de tartaruga, dividindo a trilha com mulas mancas, guias apressados e alguns trilheiros. A sensação de lentidão era sentida até na hora de tirar uma foto. Cada passo uma vitória, e a cada olhada pra trás a paisagem incrível no vale. Aliás, qualquer lado era cenário de cinema. Então, o que fizemos foi dosar o ritmo e aproveitar o visual.
   A subida de 7km do Salkantay (4625m) durou cinco horas. Seguramente, um dos lugares mais lindos que meus olhos puderam ver a partir de todos os ângulos. A respiração voltou ao normal. Contemplamos, refletimos, fotografamos...






   Do outro lado, outro vale com um rio margeando o lado direito da trilha. Bem lá longe, avistávamos umas casinhas. Descemos a passos rápidos, felizes com a conquista do Salkantay e dando graças por não termos tentado subir o Humantay pela manhã. Realmente não seria bom.


   A paisagem deslumbrante nos acompanhava, junto com o barulho do rio. Uma descida deslumbrante  rumo ao vale que mergulhava na floresta. Chegando nas casinhas, qualquer lugar onde servia refeição estava destinado aos grupos guiados. O chão parecia um campo de guerra, de tanta gente sequelada, com pés machucados e caras vermelhas.
   Encontramos uma vendinha com bebidas e salgadinhos. A coca-cola geladinha ao ar livre caiu muito bem com nosso atum enlatado. Quem precisa de geladeira naquela temperatura? Rs!


   A partir dali, faltavam uns 9km descendo até Chaullay a 2900m de altitude. Tome-lhe quadríceps e joelhos! Como deixamos a turma do campo de guerra descansando, acabamos fazendo o trekking sentindo aquela solidão aliviada, interrompida pela passagem das mulas de carga, visivelmente cansadas, e pelos cozinheiros e guias, sempre apressados. Situação que nos causou um desconforto muito grande.
   A vegetação mudou completamente para o verde escuro de floresta amazônica, onde mergulhamos. O Salkantay ficava pra trás, enquanto Vitor tagarelava. Disparou a refletir sobre o contexto social do Peru, desigualdades sociais, exploração do povo daquela região com o turismo, sofrimento dos animais. Depois começou a falar sobre as experiências que a gente leva dessa vida, todas as informações que a gente guarda, o valor do dinheiro, sobre comprar um carro caro ou viajar.. Então veio o papo sobre a dimensão espaço-tempo, a dobra do universo... Ãh?! KKKK! Àquela altura eu estava viajando no espaço e no tempo. Gente, ele fala muito! E eu ali, toda trabalhada na reflexão.


   Enquanto isso, as mulas desciam levando utensílios, mochilas e barracas. Morri de pena! Muita descida! As perninhas delas chegavam a tremer com o peso.


   Conversa vai, conversa vem... Fechando um total de 9 horas de trekking, finalmente, chegamos em Chaullay! E não é que o nosso hostel existia! O único problema foi que o dono não estava lá e lugar não era exatamente como pensávamos. Mas a mãe do rapaz, que falava o dialeto Quechua, conseguiu arrumar a acomodação pra gente, com a ajuda de um “translater”, irmão do Manoel, que chegaria no fim da tarde.
   Enquanto eu acomodava as coisas no quarto, Vitor saiu à procura de um lugar pra comermos algo que não fosse os lanches de trilha. Voltou com uma notícia maravilhosa! D. Guillermina faria truta com arroz e salada, pescada do seu próprio criadouro. Enquanto isso, um banho seria uma ótima pedida, depois de dois dias inteiros de corpitcho sujo.
   O hostel que reservamos pelo Booking ficava dentro do acampamento, numa estrutura de madeira e madeitite, sendo que algumas paredes eram de papelão. Acho que faltou madeirite, rs! No quarto tinha duas camas meio-casal, tomadas com fiação improvisada dentro de tubos de PVC. A porta só fechava de dentro pra fora. De fora pra dentro, só teria chave quando Manoel chegasse. Praticamente, o paraíso dentro do paraíso! Banheiro compartilhado com água quente, toalha limpa, cama com colchão fofo e quentinho. Tudo dentro de um vale que só cabia umas casinhas, o camping, o rio e a estradinha.
   Limpos e cheirosos, atravessamos um córrego e tangemos umas mulas pra chegar no bar de D. Guillermina. Ao som de despacito, aguardávamos nosso jantar com ansiedade. Que delícia de jantar!!!
   O irmão de Manoel, intérprete da “mama”, ficou assustado com nossos planos do dia seguinte. De Chaullay até Águas Calientes (Machu Picchu Pueblo) era uma caminhada muito longa, dizia ele, oferecendo condução até La playa, pra aliviar o percurso. Sugeriu que dormíssemos em algum lugar porque, direto por Llactapata seriam mais de 13 horas... Pessoalzinho baixo astral, querendo estragar nossos planos. Rs!
   Quando Manoel chegou, pediu mil desculpas por não ter nos recebido. Embora igualmente assustado com nossos planos, deu várias dicas para o trekking até Águas Calientes. Avaliou que chegaríamos em, no mínimo, 13 horas e combinou nosso café da manhã às 5h.
   Nem preciso contar que dormi como um anjo...






sexta-feira, 7 de julho de 2017

Trilha Sankantay- Dia 1- Mollepata a Soraypampa- 20km

   Logo cedo, às 4:20h, seguíamos para rua Arcopata. Nass mochilas, o necessário para sobreviver por 3 dias de trilha e a muda de roupa para Machu Picchu. Num frio de doer, em meio à escuridão, um táxi apareceu do além, cobrando apenas 7 soles para nos levar até o ponto de vans. Um achado!
   A van até Mollepata saiu exatamente às 5 da manhã de Cusco. Enquanto não estava enxergando, tudo certo, mas o dia amanheceu e tudo mudou em minha vida. O motorista buzinava para avisar a quem estava vindo na direção contrária. Algo do tipo "Tô passando!". Fiz uma breve oração de precaução e mantive os olhos fechados. Quando a pista de asfalto acabou, a coisa ficou feia! A van serpenteava loucamente pela estrada de barro estreita, como se não houvesse amanhã. Ainda bem que o movimento para a Mollepata naquele horário era mais de ida do que de vinda. Dava um certo alívio mas cair daqueles penhascos seria mesmo o fim de todos nós.


   Mollepata tem pedágio de 10 soles para gringos. A van parou na entrada do vilarejo, eu e meu querido marido, com cara pescador norueguês (naquela barba enorme que ele decidiu criar), descemos, pagamos o pedágio e entramos novamente para seguir por 5 minutos a mais.
   O motorista tentou nos convencer a ir até Soraypampa de van. E tivemos que negar ajuda por várias vezes, minha gente! Resistindo ao apoio externo a todo momento. Pessoalzinho estraga prazeres!!
   Na praça de Mollepata, o motô indicou o lugar pra tomarmos um café da manhã. Vale ressaltar que muita coisa por aquelas bandas está arrumada para grupos guiados. Então você precisa, algumas vezes, procurar alguém ou algo que não seja “exclusivo”.  
   Não gostei de ovos “revueltos” com tempero mas comi sem reclamar.
   Começamos a caminhada de Mollepata até Soraypampa às 7:30h, com um dia lindo de céu azul. No frio da manhã, a subida começava a partir do primeiro passo e a cada passo a paisagem ficava mais bonita. Não conseguia ficar de boca fechada de tanta ofegância... Pensei que ia morrer umas 5 vezes. Subiríamos mais de 1000m. Na paisagem de tirar o fôlego, as trilhas sinalizadas com plaquinhas azuis eram íngremes e sinuosas. A estrada, os penhascos e vales apareciam através da vegetação, que começou a ficar rasteira à medida que avançávamos.
   Com uns 6km de subida, apareceu um desvio para um mirante que dava pra ver o vale e ter noção do quanto tínhamos subido. Paramos para contemplar, registrar o momento e fazer um xixi.


   No mirante seguinte, km 10 de subida, uma família super simpática conversava animadamente. De lá já dava pra ver o vale até Soraypampa, que ficava lá bem longe, bem pequenininha, com a pontinha do Salkantay ao fundo. Conversamos um pouco com a turma e seguimos por uma trilha que seguia por um canal, aproveitando a dica do guia que acompanhava a família. A água limpíssima descia ao contrário do nosso caminho mas eu tinha a estranha sensação de que nós que estávamos descendo... Uma coisa muito doida!! Olhava pra frente e via descida, mas a água vinha em nossa direção.


   Do lado direito, o vale com a estrada (carretera) serpenteando pra lá e pra cá. Do lado esquerdo o canal e o paredão da montanha.
   Enfim, chegamos em Soraypampa, um lindo vale na Cordilheira dos Andes.
   Por lá tem dois hotéis bem caros que só oferecem hospedagem para pacotes completos. Não atendem ninguém de fora e podem cuspir em você, caso tente aproximação, rs!!! Melhor não ir perguntar onde fica o camping. O pescador norueguês saiu de lá achando graça da pose do recepcionista.
   O vale tem uns três campings bem próximos. Um deles é um barracão azul grande que aparece em várias postagens que encontrei na internet. Como o dono estava completamente bêbado e sua esposa  super envergonhada, passamos reto até um outro barracão onde ficavam as mesas já prontas para a galera dos pacotes, que estava pra chegar. Tudo bonitinho mas... Passei os olhos de Fiscal de Vigilância Sanitária no lugar onde os cozinheiros estavam preparando o jantar e comecei a rezar para Nossa Senhora da Caganeira Profunda. Ali não dava nem pra Notificar, era Interdição Total em nome da Saúde Pública. Mas li em alguns blogs que a comida é muito gostosa. Deve ser!!
   Enfim, um cozinheiro nos orientou a procurar D. Andrea, no fundo do barracão, onde tinha uma vendinha e uma casa. Conseguimos uma Tchoza, lugar que parece uma casinha de índio com chão de madeira, onde se monta a barraca dentro. Fica protegido do vento, da chuva e do frio. Do frio, mais ou menos, rs!
   D. Andrea ficou de preparar um jantar pra nós, enquanto subíamos pra ver a Laguna Humantay, que ficava a 1,2 km do acampamento, perto do céu. Sim! Estávamos tão bem depois de mais de 7 horas de trekking, que montamos a barraca e iniciamos a subida. Entretanto, faltava fôlego, o coração batia no pescoço, perto da língua, e as nossas forças se esvaiam a cada passo. As pessoas lá em cima pareciam muito longe, e as de baixo, idem. Devemos ter subido 1/3 do caminho, nem sei ao certo. Um desgaste enorme! Vitor reclamava, falava em descer pra comer e voltar a subir. Eu achava que, se descêssemos não subiríamos mais. Embora insistisse em continuar, já sentia dor de cabeça e tontura. Nós dois estávamos na mesma situação. Batia um sentimento de frustração enorme, como o de desistir de uma corrida. Voltamos arrasados! Queria muito ver a Laguna mas não deu mesmo.
   Pior é que o jantar de Dona Andrea não desceu de jeito nenhum. Um desconforto que a gente não sabia nem explicar como era. Então resolvemos levar o prato pra barraca pra comer depois de descansar um pouco. Como a sensação desagradável aliviava muito lentamente, tomamos apenas um café com leite e fomos dormir para enfrentar o segundo dia de caminhada.
   Mesmo felizes em termos conseguido fazer os 20km do primeiro dia, refletimos muito naquela noite. Vitor falava em usar o serviço de mula para carregar nossas mochilas mas não dei muita atenção porque sabia que mudaria de ideia quando amanhecesse. De vez em quando ele fala umas bobagens dessas nos momentos de aperto... basta descansar um pouco que isso passa. Corrida de Aventura também tem dessas coisas... A gente fala umas bobagens mas nada como um breve descanso pra mudar de ideia e seguir em frente com o objetivo.
 
 



Diário da Trilha Salkantay- Preparativos até Cusco

   Antes, pesquisamos muito em blogs, vídeos e sites, reservamos o que pudemos e organizamos os equipamentos que tínhamos. A Corrida de Aventura nos traz essa leveza. Acostumados com perrengue, a gente tem quase tudo de equipamentos e a cabeça meio preparada para os imprevistos. Inclusive, o kit de primeiros socorros usado nas corridas sofreu poucas alterações para viagem.
   Até Lima, a mudança de duas para três conexões resultou em um dia inteiro de viagem. Saída de Salvador na manhã de 21 de junho, conexão de 5 horas no Rio de Janeiro, outra de 4 horas em Santiago, até chegar em Lima na madrugada seguinte, dia 22 de junho. Esperamos o dia amanhecer para pegar a condução até o Hostel em Miraflores.
   O assédio dos taxistas no aeroporto é pior do que em qualquer lugar que já fui. Eles não lhe deixam em paz, irritam mesmo. Uber não deu certo, e rolou assédio também. Arghhh! Depois de mais de meia hora tentando, pegamos o Táxi Green por $60 (60 soles) até Miraflores. Então fiquem ligados porque não vale a pena se estressar, melhor pegar o táxi que você fecha antes mesmo de sair do desembarque.
   Às 6:30h da manhã, o trânsito de Lima é indiano, faltando só as vacas no meio da rua. Os motoristas buzinam eternamente, quase todos os carros são amassados em algum lugar, a rotatório é mundo sem lei e cruzamento... Sem comentários. Sem contar que atropelam as pessoas sem dó nem piedade. Nunca deixe seu pé na faixa de pedestre! Prometo passar um bom tempo sem reclamar do trânsito no Brasil.
   Todo canto da cidade tem uma orientação para o caso de terremoto, tsunami ou os dois eventos. Os peruanos estão esperando um daqueles que matam 50 mil pessoas porque tem mais de 100 anos que ocorreu o último. Confirmei em rápida pesquisa no Google e comecei a rezar. Rs! Lá tem tanto tremor de terra que a pessoa nem percebe mais. Deve ser por isso que o trânsito é daquele jeito. Pressa!
   Levamos as malas para o Hostel Pucllana Lodge em Miraflores. Bairro bem bonitinho, arrumado, florido, cheiroso... Mas as pessoas buzinam em qualquer bairro. O céu de Lima é cinza como o de Santiago, embora não tem o mesmo charme da capital Chilena. Que me perdoem os amantes de Lima!
   Um dia dedicado à busca de equipamentos da nossa pequena lista de pendências. Seguindo a dica dos nossos queridos amigos, Lucy e Vande, a visita à loja da Salomon, no Shopping Larcomar, nos rendeu tênis Speed Cross 3 novinhos por 200 soles. Ninguém quer mais porque o SC4 foi lançado. Que bom que eles acham isso!! Também compramos uma mochila de trekking num lugar longíquo!


   O almoço no Bistrô perto de uma igrejinha de Miraflores foi ótimo! De lá, fomos turistar na simpática Plaza de Armas, onde tinha uma banda tocando no meio da rua e a galera da terceira idade jogava duro no tchá- tchá- tchá.
   Na manhã seguinte, as malas já estavam prontíssimas pra viagem à Cusco. Aproveitamos a sobra de tempo pra visitar o Sítio Arqueológico na esquina do hostel. As ruínas foram encontradas em 1981. Um passeio bem legal que me fez até pensar que visitar Lima pode valer a pena...


   Nosso avião, atrasado em uma hora, mergulhou em Cusco lá pelas 4 da tarde. A cidade fica, a 3400m de altitude, dentro de um buraco. O pequeno aeroporto consegue ser tão confuso quanto o de Lima. O detalhe é que os taxistas não podem entrar. A condução custou 10 soles, super baratex, até o Hostel Munaycha Casa Hospedage. Atendimento ótimo, chá de coca quentinho na recepção, folha à disposição, quarto confortável e café da manhã gostoso.
   Percebi a altitude apenas por leve queimor no nariz e o cansaço para subir degraus e ladeiras. Nada demais. E no outro dia ainda cumprimos nosso treino regenerativo de meia horinha que nossa treinadora passou. Na boa... Nem tive coragem de olhar o frequencímetro.. rs! Os dentes e as bochechas quase quase congelaram. Os bofes tentaram sair pela boca mas eu arrumei a respiração, tomei fôlego e não dei ousadia pra ofegância.


   A cidade estava em festa. A tradicional Inti Raymi, festa inca do solstício de inverno ou festa do sol, parece carnaval. Um ritual lindo, colorido, com comentarista, encenação, transmissão ao vivo pela TV, bandas, desfile com carros alegóricos e gente fantasiada. A praça esteve cheia dia e noite sem parar, enquanto estivemos lá.
   Tínhamos duas noites em Cusco para concluir os últimos detalhes da viagem, dentre os quais, comprar mapa topográfico, uma mochila de 40l, alugar barraca de montanha e saco de dormir de -10 graus, além de pegar o máximo de informações possível. Cusco é um paraíso para comprar essas coisas! Lima é totalmente dispensável nesse aspecto, exceto pelo Salomon.
   Entrando de loja em loja, encontramos o argentino Alejandro, da loja Peru Goyo Expedition. O cara disse que era muito frio, que era impossível fazer a trilha Salkantay em três dias, que a altitude fazia sangrar o nariz, que a gente podia até morrer... Enfim, saímos da loja pra pensar melhor, depois voltamos para alugar os equipamentos com ele. As dicas foram muito boas mas fomos embora com a promessa secreta (eu e Vitor) de voltar lá pra mostrar pra ele do que éramos capazes.

    A aventura estava só começando!!