segunda-feira, 28 de maio de 2018

Ano Novo no Vale do Pati

Demorei de escrever sobre essa viagem por falta de tempo, mas precisava...


   Planejamento para 2018: Vale do Pati pra fazer planos.
   Toda trabalhada no desapego, na mochila: lanterna de cabeça, mapa, bússola, saco de dormir, barraca, 3 camisas de trilha, 1 bermuda, 1 calça, calçolas, 3 tops, kit de primeiros socorros e lanche de trilha. Ah! O vinho do jantar do Ano Novo com uns queijinhos e salames.
   Saímos de Salvador às 4h, chegamos no Capão por volta de meio dia e entramos no Vale do Pati pelo Bomba às 13h, depois de comer pastel com caldo de cana e de ouvir várias frases do tipo “Vocês não chegam hoje!”, “É muito longe!”, “Vão dormir no caminho?” ou “Sem guia!?”. Esse pessoal pega pesado! Mas a gente não acredita nessa negatividade, não.
   Aquela subidinha do Bomba que passa perto da Cachoeira da Purificação é bem cruelzinha. E linda! Uma trilha toda de subida, sombreada de árvores que só vai abrir lá na frente, perto de um riacho onde paramos rapidinho pra jogar água na cabeça.
   Uns turistas desciam perguntando se estava perto do Bomba... O que pra nós era só o começo, pra eles era quase o fim. Seriam 20km de caminhada até a Prefeitura ou Casa de Sr. Jailson, planejando 2018 e refletindo 2017.


   A higiene mental começava. A civilização deixava uma vista linda lá atrás, mas outra mais linda ainda se descortinava à nossa frente nos Gerais do Vieira. Seguimos pelo Catixto, no sentido do Morro do Castelo, passando por uma toca meio esquisitona. Uma caminhada leve, com poucas intercorrências, trilha bem marcada de vegetação baixa, que alternava descidas e subidas. A cada descida, um riachinho com uma matinha mais fechada. E nas subidas, o bálsamo de visualizar a paisagem cada vez mais incrível.
   Quando o barulho de água ficava forte as cachoeiras começavam a aparecer.  Sempre encontrando com pequenos grupos, chegamos à Cachoeira do Sebo, onde confirmamos o caminho com um pessoal que se banhava. Dali em diante, a vegetação começou a fechar de um jeito que parecia até que o caminho estava errado. Ainda bem que confirmamos! Muita pedra, subida, descida, degraus, raízes de árvores no chão, barrancos. Vitor toda hora enganchava a barraca nos galhos. Os passarinhos começavam a se recolher, as cigarras cantavam às alturas e nós apressávamos o passo pra não chegar muito tarde.
   Perto do Calixto, as lanternas já estavam prontas. Atravessamos a cachoeira, passamos por um casal de tocadores que praticavam sua arte na beira do rio e, de repente, fomos abordados por um grupo de quatro meninas que montava barraca. Uma delas começou a falar sem parar depois de perguntar para onde estávamos indo. Foi tudo tão rápido que só lembro de parte da conversa, que em resumo ficou assim:
   -Saímos 6 da manhã, pegamos o caminho errado, nossa amiga vomitou muitas vezes e não aguenta carregar a mochila.
   Como não atender aquele pedido de ajuda? Nossa cara!
   Foi só o tempo de guardar a barraca... Seguimos conversando muito. Contei a minha vida desde o nascimento e elas tiveram a oportunidade de falar quando eu parava pra respirar. KKK! Brincadeira! As meninas carregavam muito peso. Peguei uma das mochilas pesadas e dei a minha mais leve pra uma delas. Aliás, as duas guerreiras, Camila e Laila, revezaram a mochila de Mayara até o fim. Enquanto nossas mochilas eram minimalistas, as delas levavam tralhas para uns 30 dias de viagem, incluindo 8 garrafas de vinho e 1 de champanhe.
   Umas figuras!! Lanterna com bateria fraca e dois celulares iluminando o caminho tortuoso, talvez até pior do que o que acabávamos de passar. Vinham de Vitória de carro em viagem de 18 dias pela Chapada. Para o Vale do Pati, reservaram 5 dias. Esqueceram o mapa no meio de tantas coisas pra lembrar. E uma delas optou por levar o peso do vinho a levar calçolas. Afinal, bastava revezar com o biquíni. Fácil de resolver esse impasse. Meninotas doidas!
   O caminho foi tortuoso. Muita subida com degraus e pedras, trilhas estreitas, galhos e raízes, ratos e outros bichos. Em meio a tantos altos e baixos, até eu e Vitor tivemos nosso momento de baixa. Precisamos nos alimentar pra melhorar a sensação de cansaço. Aquele trecho, que duraria pouco mais de uma hora, passou de duas. As meninas, que planejavam ir pra igrejinha, acabaram na prefeitura mesmo. E já passava das 20h quando adentramos a casa de Sr. Jailso. Laila sentou numa pedra e caiu no choro. E as outras chegaram contando tudo o que aconteceu para uma plateia que se formou ao chegarmos. O acolhimento foi tão grande que um hóspede fez o jantar pra nós.
   Para nossa sorte, a casa tinha acomodações para dormirmos em colchões nesse primeiro dia de viagem. Sim, preferimos pagar um pouco mais para descansar melhor sem ter que montar barraca àquela hora.
   O banho, o macarrão e o vinho foram perfeitos pra finalizar aquele dia de aventura. E foi uma noite muito tranquila, exceto pelos peidos que as pessoas começaram a soltar a partir das 4 da manhã. Rs! Depois falam mal de mim.
   Acordar no Vale do Pati é extrema contradição com a realidade. A começar pela paisagem incrível, indescritível e o fogão à lenha pronto para uso bem na varanda da casa. A cozinha modesta tinha todos os utensílios necessários pra os trilheiros se virarem. Sr. Jailso, sempre solícito, tem uma vendinha com tudo que é preciso para um bom café da manhã. Fizemos cuscuz com ovos e comemos um abacaxi delicioso que saiu direto do pomar local. 
   As meninas ficaram dormindo quando saímos. Deixei um mapinha na porta do quarto e fui pra trilha do cachoeirão por baixo com o coração apertado.
   No caminho, o poço da árvore, a casa de Sr. Eduardo. E tinha até uma casa vendendo caldo de cana. Maravilha! Decidimos parar. Mas, quando a produção do caldo começou, tivemos dúvida se queríamos mesmo. Depois que um dos ajudantes colocou a cana no sovaco, decidimos levar pra viagem e jogar fora na primeira esquina. Foi horrível! Lembrando que lá não tinha banco 24 horas, jogar comida fora era até pecado.
   Voltando à trilha do cachoeirão... Muito linda, muita pedra, muito galho, um sobe e desce sem fim. Muitas vezes, tínhamos a sensação de que não era por ali, mas não tinha como não ser porque o caminho era por dentro do vale, entre dois morros até o poço. Tanta pedra que começou a ficar chato, mas a certeza da paisagem maravilhosa que encontraríamos, dava aquela vontade de continuar.
   De vez em quando a gente lembrava das meninas. O que estariam fazendo? Será que Mayara tinha melhorado? Para onde iriam naquele dia? Poço da árvore? Nunca mais a veríamos?
   Depois de muitas conjecturas e muitas pedras no caminho, chegamos ao poço do cachoeirão. Dentro do paredão imenso, um fio de água descia sem alcançar o chão. Com poço bem vazio, a água estava parada e escura. Mesmo com calor, não ficamos animados para banho. Então o jeito foi contemplar, lanchar e voltar.
   Depois de tanta pedra no caminho, passamos pela casa do Sr. Eduardo, onde vende a velha e boa coca-cola que todo aventureiro ama quando está sob sol escaldante. Encontramos alguns conhecidos e, enquanto sentamos pra tomar a coca, o movimento da cozinha fervilhava. No fogão à lenha, uma travessa cheia de torresmo e uma panela de sarapetel. E isso me levou a perguntar se servia almoço. Quase fomos ao delírio com aquela comida deliciosa e barata.
   Paramos no poço da árvore para tomar o sonhado banho, que fica quase no quintal da casa de Sr. Jailso. Na verdade são vários poços com muitas pequenas quedas d’água. Bem movimentado, até gente de topless andou passando por lá.
   Finalzinho da tarde, chegando na casa de Sr. Jailso tivemos a grata surpresa de encontrar com as meninas novamente. Elas decidiram dormir mais uma noite na casa e passariam o Ano Novo conosco.


   Começamos a noite com os vinhos, os queijos, os salaminhos... E as meninas fizeram um macarrão com atum maravilhoso. Comemos bastante, conversamos horrores e nos juntamos aos outros hóspedes na fogueira. Naquela noite incrível de lua cheia, o músicos violeiros se revezavam, enquanto a turma toda acompanhava as melodias em coro. Vitor aproveitou para exibir seus dons musicais, tocando e cantando como se estivesse num show. Adora se exibir, meu marido... rs!
   Antes da meia-noite, o grupo fez dinâmicas e terapias do amor e do abraço. Eu acho isso muito piegas e morro de vergonha de me pronunciar, mas fui obrigada. Ainda assim, foi engraçado, várias surpresas rolaram e me diverti bastante. Foi uma festa super diferente, incomparável.
   De manhã cedinho já estávamos prontos ao pé do fogão à lenha, preparando nosso café da manhã e planejando a trilha do dia. Decidimos ir pra casa de Dona Raquel/ João porque ficaria mais perto da saída do Vale pela Rampa, aquela que a gente vê o vale lá de cima.
   As meninas resolveram fazer o mesmo e decidimos fazer a trilha do Castelo juntos. Uma excelente escolha para o primeiro dia do ano com as melhores companhias que poderíamos arrumar.




   No começo era até planinho, mas só no começo. A trilha tem subida pra não acabar mais nunca. Muita pedra, barranco e raiz. E lá em cima, a cratera enorme da entrada. Alguns rapazes que subiam perguntaram se queríamos ir por um lado diferente do Castelo. Fomos e tivemos a grata surpresa de dar uma volta quase completa pelo morro e ainda entrar num salão bem maior e mais escuro da gruta. Antes de entrar, claro, fizemos aquela foto da entrada da gruta que todo mundo tem. Lá em cima a gente fez o lanche, passou um bom tempo olhando o mundo, batendo papo e desceu.
   Embaixo, o bom e velho banho de rio e passamos mais uma noite regada a vinho. Foi muito vinho! E dessa vez, nos deliciamos com um jantar feito por Vitor e brigadeiro das meninas. Que delícia! Uma pena que teríamos que partir no dia seguinte.
   Acordamos pensativos. Tomamos café juntos. As meninas subiram o morro onde estávamos acampados para a despedida. Com olhos marejados, fizemos nossas declarações de afeto. Foi emocionante! Aquela despedida parecia familiar. 
   Terminamos de arrumar nossas coisas e seguimos viagem olhando o horizonte pra ver se avistávamos nossas novas filhas. E olhe que já temos 5 nossos, mais alguns de criação.
   O resto da viagem foi igualmente massa! Chegamos no Capão de tarde, ficamos na pousadinha que a gente gosta e comemos aquela pizza deliciosa.
   Depois, com nossas meninas? Camila, Mayara e Laila formaram em Direito, umas duas semanas depois e mandaram fotos. Uma das três estava com uma disciplina atrasada e parece que ficou para o semestre seguinte. Gabi faz medicina e continua em São Paulo estudando. Pelo grupo de Whatsapp, recebemos notícias e esperamos encontrá-las outras vezes, porque foi muito afeto envolvido.
   Foi isso!



   Meninas, escrevi essa resenha pra gente nunca esquecer desse encontro. Amamos vocês e desejamos que sejam muito felizes! Mesma felicidade que desejamos aos nossos filhos.

quinta-feira, 29 de março de 2018

Noite do Perrengue 6- 100km


   Depois de 4 anos fora do quarteto, voltei. Por motivos diversos, eu e Vitor nos mantivemos em dupla mista para não comprometer a participação da equipe nas provas do Campeonato. Afinal, reorganizar uma dupla de última hora é mais fácil do que um quarteto.
    Equipe- Vand, Scavuzzi, eu e Mauro.


   Amo correr em quarteto! Corrigindo... AMO correr com meus amigos! E quanto mais gente, melhor! Por isso, quarteto, sem dúvida!
   Antes da corrida, pentelhei todo mundo pra ninguém esquecer nada. Enchi o grupo de Whatsapp de lembretes, imprimi todos os documentos, arrumei kit de primeiros socorros e os alimentos da prova. Minha mochila ficou pronta na terça. Estava ansiosa e apreensiva. Como seria depois de tanto tempo?
   Detalhe mais legal: Nada de stress com maridinho lindo, ainda consegui ajudá-lo um pouquinho.
   Saímos almoçados de casa e chegamos ao Restaurante Polomar, local de entrega das bikes, umas 14:30h. Foi o tempo de ir organizando as coisas, até o resto da turma chegar. Vand já tinha chegado e colocado sua bike numa vaguinha. Fechamos o check-in e seguimos para o local da largada.
   Alunos de diversas turmas da Escola de Aventura do Agreste marcaram presença. Muitos representando nossa equipe, outros com suas equipes. E nós, orgulhosos de todos, felizes por ajudar a encher a Corrida de Aventura de apaixonados pelo esporte.
   Prova valendo pelo Campeonato Brasileiro, pelo Baiano, pelo Nordestino. Negócio bacana, chique, iluminado, barulhento... Muita equipe de fora! Aquela festa de sempre! A organização da NP6 é extremamente feliz nas escolhas das bases dos eventos. Dessa vez, foi no Clube do empreendimento Natus, dentro da Reserva Imbassaí. Lanchonete com comidinhas da Vidativa Gourmet, conforto, espaço e muito lugar pra gente namorar o mapa até a hora da largada. Tudo bem que o tempo foi curto, mas o que é um peido pra quem está cagado? Tinha até PCs pra plotar no meio do caminho. Putz! Dois mapas: um com escala de 1:25.000 e outro de 1:50.000.
   Depois do briefing, fizemos o que deu no mapa, mas marcamos todas as distâncias como se fosse tudo 1:25.000. Ok, NO STRESS, dobra as distâncias, cobrindo tudo por cima mesmo. Foi a pressa, mas deu pra resolver, borrando o mapa todo.

Foto @adventuremag
...
   Eu queria mesmo era ser atleta de percurso, mas não consigo. Minha cabeça só funciona bem se tiver ocupada, ajudando... Tipo, tentando dominar o mundo mesmo. Isso já foi um problema pra mim, mas desencanei geral. Meus amigos me conhecem e sabem que não fico quieta, nem tomo iniciativas para ser melhor do que ninguém. Sou proativa e, com os aprendizados impostos pela vida, enfrento os desafios sem muitos melindres. Dá até pra ser bem humorada, mesmo estando na merda, embora nem sempre seja possível. Sou terrível quando tenho certeza sem estar certa, um verdadeiro problema! Mas, quer saber? Nos conhecemos tanto, que os defeitos e qualidades são reconhecidos com naturalidade, sem interpretações, sem julgamentos. Somos capazes de saber o que o outro está pensando com um olhar... Ou um “rabo de olho”. RS! Enfim, correr com esses meninos é diversão garantida! A gente pode estar em qualquer posição na prova, morrendo, mas não perde o “rebolado”. RS!
...
   Saímos forte para o primeiro trecho de 16km de trekking. A previsão da organização era de ficarmos perdidos por lá a noite toda, pra nunca mais voltar. Naquela muvuca toda, o PC1 foi encontrado de galera. A gente resolveu seguir o planejamento de não fazer bate-e-volta, mas a trilha sumiu. Eram apenas 250m, então a trilha mais forte apareceu logo à frente. Encontramos uma galera que já se adiantava por ter feito o trecho sem rasgar mato. Como era uma estrada plana, mesmo com areia, dava pra dar uma corridinha boa. O PC2 estava num coqueiro, num lugar com relativa facilidade. Depois dali que a coisa ficaria mais técnica, indo pro PC3, no mangue. Corremos pela costa, na areia da praia, dando uns pulinhos nas onda... Eu admirava a lua, o mar e o mapa. Comemorava por estar ali.
   Quem tem perna comprida pode ir no trekking. Eu não. Bem básico. Enquanto as outras equipes se dissipavam, batíamos precisamente os 3 km, entrávamos no mangue e seguíamos Mauro que, com mais precisão ainda, identificava o PC. E dali, saímos de luzes apagadas para não chamar atenção, com a lua dando conta da nossa iluminação.
   Com três navegadores (eu, Vand e Mauro) e um atleta (Scavuzzi) que estava bem longe de ser atleta de percurso, fomos atacar o PC4. Muito navegador pode atrapalhar também, mas nesse caso deu certo. Seguimos para o PPO, travamos no azimute e fomos os quatro por direção paralela a uma distância de uns 20m de cada. Um trabalho em equipe que nos levou de cara até o PC. E o mesmo fizemos com o PC5, cuja direção do azimute seguia para a sombra da vegetação, que formava um pequeno vale.
   Preferimos pegar a estrada para chegar no PC6, ao invés da trilha. Também não rasgamos mato pra atacar o 7, exceto no fim da estrada, quando não tinha mais alternativa. As abelhas nos esperavam animadas no caminho do 7, dentro de uma matinha fechada com trilha de difícil progressão. Solenemente ignoradas, ficaram lá, fazendo barulho e nos picando. RS! E ainda tivemos que voltar pelo mesmo caminho, mas acho que elas ficaram confusas com tanta gente que apareceu, que esqueceram de nos picar na volta. Mas doeu!
   O PC8 estava numa duna, no alto, no meio. Fotografamos e fomos! Encontramos o PC9 com a mesma tranquilidade e seguimos para pegar as bicicletas no restaurante Polomar.
   Finalizamos o trecho com exatamente 2 horas e 57 minutos para fazermos uma transição com aquela rapidez competitiva que só nós somos capazes.

Foto @adventuremag
   Com o mapa em outra escala, descemos para um pequeno trecho de asfalto até entrarmos para as bandas do outro lado da pista, onde ia ter o tal do singletrack irado. Achamos a ladeirinha que entrava pra estrada de barro e seguimos para o PC11. Precisei aumentar o tamanho das letras do mapa pra indicar os PCs, porque já passei dos 40. Tava difícil enxergar. 
   Scavuzzi achou o caminho para o PC12 um prato cheio pra gente se perder. Ótimo motivo para ficarmos bem atentos. E assim seguimos... Até eucalipto tinha, e esses não me deram aquela impressão desagradável dos de lá de Catu. O cheirinho estava bom com o tempo fresco. De noite fica tudo melhor. Basta ter uma iluminação boa que a gente vai longe.
   Não queria navegar na bike, mas desisti de não querer. Fiz uma bagunça tão grande no mapa que Vand não conseguia entender nada. Ali só eu mesmo.

Foto @adventuremag
   O singletrack começou antes do PC12. Realmente, maravilhoso, incrível, uma delícia de pedalar. Vand e Scavuzzi que o digam! Fora um ou outro tronco de árvore no caminho, todo pedalável. Com cuidado pra não ficar pendurado pelos chifres ou não dar uma cabriola e voar longe.
   Por falar em cabriola, fiquei toda estrupiada com uma queda. Voei numa caixa de brita no estradão. Presa na roda da bicicleta, precisei de ajuda pra levantar. A preocupação dos meninos passou rápido, porque tratei de continuar meu pedal e administrar as sequelas depois da prova.
   No caminho para o PC13, Mauro teve que trocar a câmara da bicicleta. Essas intercorrências atrasam bastante, principalmente se o ritmo já não está bom. Fazer o quê? Um problema mecânico, sem dúvida, seria pior.
   Desde muito que Vand falava, com razão, que estava reconhecendo aquela trilha. Depois do PC14, saímos na Lagoa Aruá, perto da Praia do Forte, navegando precisamente até os PCs 15, 16, 17 e PC18, onde era a transição para o Enduro a Pé. Reparei naquele finalzinho que as distâncias não bateram muito bem, mas caímos em cima da Fazenda. Então não vamos reclamar de nada, não é? Não devo ter visto alguma entrada.
   Enquanto Mauro e Scavuzzi faziam o Enduro à Pé, eu e Vand providenciávamos as coisas. Reabastecemos água e comida, plotamos os PCs (de 20 até 28) no mapa, jogamos conversa fora, descansamos, cagamos (no caso, eu, mas ficou tudo limpinho lá, viu?!), até que chegaram. Na verdade, eu tinha a impressão de que seria melhor ter ido para o Enduro e deixar Mauro descansar, mas eles dois eram os mais experientes no assunto e, realmente, andaram bem rápido. Chegaram querendo partir.
   Mauro reclamava da sua mochila pesada, dos tênis pendurados... Sendo que não era ele quem estava carregando a porra da mochila. Aí a pessoa não quer ouvir desaforo. Kkkk! Eu e Vand nos revezamos com o peso dele para poupá-lo por quase toda a prova. Muita cara de pau para um ser humano só! Como castigo, teve que carregar um pouquinho de peso, pra variar. Esculhambação!!!
   Na saída, já tinha planejado tudo na plotagem. Mas, Mauro achou que eu estava errada, que precisava orientar o mapa e seguir pro outro lado. Realmente, era possível ir pelo outro lado também, mesmo não parecendo o melhor caminho. Ok, então! Fomos dar uma voltinha até o PC17 e depois voltamos pelo caminho antes sugerido, sob protestos de não se sentir seguro com minha escolha. Pulamos umas porteiras com questionamentos. Sossego mesmo, só tive quando encontramos o PC20. Em seguida, o 21, o 22... Amanheceu. E a Gantuá atropelou a gente lá pelo 23. Sacanagem!! Nosso pedal estava fantástico! E eles estavam muito atrás. Brincadeira... Eles estavam bem atrás mesmo, mas nosso pedal estava Categoria Cicloturismo! Então, sem novidades!
   PCs 24, 25 (cancelado), 26 e 27 (tá de sacanagem aquela ladeira!!?? Só Vand subiu.). Saímos na pista novamente, contamos 1km e pouquinho para a direita e encontramos o PC28- Chico e Álvaro-, onde plotamos os PCs 29 e 30, regados a uma Coca-Cola revigorante. Daquelas que garantem o fôlego do resto do pedal, menos pra Mauro, que já tinha deixado o fôlego por algum lugar da trilha. Mas não deixou a dignidade não, porque, com todo perrengue, ele estava ali, em nossa cola. Dizem que é por causa da bicicleta muito pesada...
   Se você pensa que as coisas não podem piorar, eu lhe afirmo: “todo castigo pra corno é pouco”! O singletrack foi bem gostosinho, mas não sei onde esse pessoal arrumou esse “grand finale” de ladeiras. Rapazzz! Olhando o mapa agora, nem sei se era pior ir pelo asfalto ou pela trilha. Escolhemos ir pela trilha e voltar pelo asfalto, porque foi o que pareceu óbvio na plotagem do mapa.

Foto @adventuremag
   Enfim, chegamos ao PC31 no local da chegada. Infelizmente, com o corte de 8 da manhã, não fomos pra canoagem, nossa prova acabou ali. Sem problemas! Completamos a NP6 com pouco mais de 14 horas de prova. Nossa classificação só vai sair quando divulgarem os tempos das equipes. Vamos aguardar!
   Parabéns pra Arnaldo e Gaia!! Foi uma prova incrível! Nível técnico massa, em todos os aspectos, com desafios diversos pra todos os gostos. Bem organizada, com mapeamento preciso, trechos técnicos, navegação exigente em vários momentos. Eu gosto muito disso!
   Parabéns pra minha dupla mista querida, Vitor e Gabi! Orgulho demais de vocês! E dos meninos, Glad e Lairton?! Nossa! Vocês foram demais!
   Foi tão bom encontrar os alunos da Escola, rever os amigos, ver todo mundo na largada!
   Amei tudo! Sobretudo, correr com essas pessoas queridas! Não tem preço, compartilhar com vocês esses momentos! Muito obrigada por tudo!
   Tia Fêêê, eu sobrei! Valeu pelo treinamento! Você arrasa!
   Agora, minha gente, vou ali treinar para fazer os 500km da Terra de Gigantes.
   Até breve!

terça-feira, 13 de março de 2018

Desafio do Coco 2018- 32km em 10/03


   A inscrição aconteceu no impulso. Não queria perder uma corrida tão bacana em minha terra natal. Mas surgiu uma viagem de última hora pra o Rio de Janeiro pra uma festa de 40 anos. Eu teria que passar a manhã inteira correndo em Catu, voltar, pegar minha mochila, pegar o vôo 17h, chegar na festa e dançar até de manhã. Seria uma odisseia!
   Corrida em trilha é bom porque não tem navegação. Tem gente que se perde, mas não é essa a pegada. Embora não seja o meu esporte favorito, tem outros desafios interessantes, que diferem da corrida de aventura... Tive tempo pra treinar, apesar de ter levado falta em alguns dias. Estava meio que pronta pra enfrentar o desafio. Os dois.
   Acordei às 4 da matina sem fazer muito barulho, comi, peguei minha mochila e fui. Com aquela velha sensação de ter esquecido alguma coisa, cheguei em Catu 6:40h. Não esqueci nada, rs! Depois de pegar o kit atleta, fiz um social básico. Encontrei amigos queridos de infância, amigos de Corrida de Aventura, da Escola de Aventura, gente como o diacho. A comunidade de Sítio Novo é super receptiva, o lugar muito fofo! E já era desde que trabalhei no postinho de saúde de lá em mil novecentos e bolinha. Um jardim bem cuidado, as ruas limpas, sem contar que o evento deu um brilho especial.


   A largada aconteceu na pracinha da igreja com um atraso de 40 minutos. O suficiente para o sol cumprir seu papel: esquentar tudo. Catu fervia junto com os atletas, que largavam no maior gás pra vencer seus desafios nas várias categorias oferecidas na prova.
   Meu objetivo era correr o mais rápido que pudesse e pegar um pódio. E quem não quer?
   Quando larguei, procurei ficar entre os atletas que estavam na frente. Logo de cara apareceu uma ladeira bem íngreme em direção ao cemitério. Subia no trote, mas logo percebi que não sustentaria aquilo por muito tempo. A única “adversária” conhecida era Denise, e ela estava bem pertinho de mim.


   O singletrack escroto que enfrentamos ao lado do cemitério, travou todo mundo numa descida, que ainda tinha um tronco de árvore atrapalhando bastante. O povo gritava, reclamava... Também dei uns gritos, mas aproveitei pra aliviar a respiração. Dava pra ver os outros atletas subindo na ladeira que ficava adiante. Oh dó, a minha amiga Denise ia lá na frente, RS! E eu ali, parada, impotente. Mas nossa prova só estava começando, não era momento para lamentos. Nunca é!
   Minhas pernocas estavam muito doloridas! TPM é uma merda! Tenho um peso esquisito nas pernas. Ficar inventando desculpas também é uma merda! Lembrei que tinha feito um treino de 22km quinze dias atrás, mesmo cansada de um dia inteiro na Escola de Aventura, bem melhor... O que estava rolando? Hum, aquele treino foi à noite. A “lua” que estava ali era outra, o dia seco, empoeirado. Subimos até uma torre e descemos novamente, passando pelo local da largada com uns 5km de prova. Dali, seguimos por uma área conhecida, onde fiz um treino de bike com Show, organizador da prova. Estradão com pouca sombra, um calor insuportável que me fazia refletir se era mesmo possível pegar o vôo das 17h. Precisava terminar com menos de 4 horas de prova, mas naquela velocidade de tartaruga, seria muito difícil. Minha água da mochila estava bem geladinha. Só que eu precisava de água na cabeça. O calor comia no centro.
   No km 7, pensei se não seria melhor parar por causa da viagem. A Luciana que mora dentro de mim, começou a questionar. Quase 1 hora de prova e eu sequer passara dos 8km. Pelas minhas contas, não fechava. Talvez, se respirasse fundo e apertasse o passo. Se desistisse daquela prova, jamais esqueceria. Precisava parar de subir as ladeiras no trekking. Que sofrimento!
   Lá pelo km 8 ou um pouco mais, fui alcançada por um corredor. Trocamos algumas palavras e ele passou à minha frente. Nas costas da sua camisa, uma frase longa instigou minha curiosidade. Imaginei, antes de ler: “Deve ser uma frase motivacional!”. Li.
   - Se você está lendo essa mensagem é porque é mais lento do que eu.
   Pensei:
   - Pôxa, que frase de mau gosto! Kkkk! Deselegante.
   Motivacional! Fui remoendo aquele texto. Ora passava por ele com seus amigos, ora revisava o texto. E acho que, se tivesse que colocar uma frase nas costas, seria: “Falta só mais um pouco, você consegue.” “Sou lenta, mas não paro.” “Posso ajudar?”... Fui tagarelando comigo mesma.
   Aff! Nunca odiei tanto eucaliptos! Como sabemos, uma plantação de eucaliptos desequilibra o ambiente, seca tudo, não nasce nada em volta. Nenhum bicho quer viver lá. O cheiro que antes curtia, nem conseguia sentir. Folhas secas no chão arenoso, poeira, sol de 38°C e um calango ou outro fugindo dos passos rápidos dos corredores. Nem pra fazer sombra estavam servindo. E a água do km 11? Precisava...
   Uma corredora me alcançou. Durante a ultrapassagem, olhou indiscretamente para o meu número de peito para dar um "confere" em minha categoria. Humilhantemente, seguiu a passos rápidos e seguros, enquanto aquele da frase que estava logo atrás dizia: “Vocês são da mesma categoria, vão lá!”... Não deu mesmo, fui atropelada. Aliás, ela atropelou todas as mulheres que estavam à frente também... Vamos arrumar uma frase: "Se você está lendo essa mensagem é porque foi atropelado!"
   Enquanto a água do Km 11 não aparecia, avistei uma camisa laranja. Fui chegando, chegando. Entrou numa trilha errada e voltou. Alcancei num falso plano. Mas, não tenho coragem de olhar pra o número de peito pra ver a categoria da pessoa, não. Sequer consigo ter ideia da minha posição dentro da prova, a não ser que alguém me conte. Parece que o desafio torna-se estritamente pessoal. Conversamos sobre o tempo, sobre nossos cansaços. Ela dizia que já não aguentava correr nem no plano. Praticamente um encontro de sequeladas, RS! Como ainda conseguia correr no plano, me despedi e continuei minha penitência. E que penitência!
   Administrava a corrida km a km, quando Show apareceu com água. Peguei uma garrafa de 1,5l, pedi perdão a Deus pela falta de água potável no mundo e joguei quase tudo pelo corpo. Refrescou, mas só percebi a merda que fiz quando meus tênis começaram a fazer aquele barulho de ensopados. Não poderia piorar! Como pude fazer aquilo?
   A menina ficou pra trás e os rapazes também. Cheguei a parar pra pegar água mais uma vez e segui.
   Teve um trecho de singletrack maravilhoso! Todo de descida, sombreado e fresco. Aproveitei para apertar o passo, enquanto as unhas davam sinais de morte. Com os tênis tão molhados não daria outra.
   Tem umas horas nessas provas que curto demais! É a boa e velha solidão aliviada. Aquele momento em que não aparece uma alma viva e você aproveita pra bater aquele papo cabeça com seus parafusos.
   Quando "acordei", lá pelo km 24, 25, encontrei Pedro, caminhando com dificuldade. Ele fazia 21 ao invés dos 32km. Sentia muita dor na articulação do fêmur, quase não conseguia caminhar. Trocamos umas palavras e nos separamos. Aproveitei pra dizer que ele conseguiria, eu tinha certeza! Show apareceu de novo com água. Dividi com Pedro e fui embora de vez.
   Que SO-FRI-MEN-TO! Parecia sem fim, mas a minha consciência insistia em dizer que sempre acaba. Acaba. Pode ser o que for, acaba!
   Avistei Denise faltando uns 2 km pra chegada. Nos encontramos, conversamos um pouco. Até tentei subir uma ladeira trotando, mas notei que só serviu de estímulo para que, dali em diante, ela corresse sem mais parar. Não posso negar que fiquei feliz. Será que estou errada? Fiquei pensando sobre isso. Esse momento esportivo é bem interessante, gera muitas reflexões. Ela é forte! Eu também acho que sou, mas era o momento dela. Estava administrando o prejuízo e fiquei muito feliz em concluir a prova. Doeu, mas foi massa! Nenhum peso na consciência. Sequer pensei que poderia ter feito melhor do que o que fiz.




   No fim das contas, o percurso foi reduzido em 2km, consegui fazer em menos de 4 horas, cheguei em quarto lugar e corri pra administrar outra história. O tempo.
   O tempo foi a conta certa de cumprimentar os amigos, tomar uma água de coco, chupar um geladinho, dirigir até Lauro de Freitas, arrumar a mochila (Putz! Não arrumei minha mochila com antecedência!), seguir pro aeroporto, comer alguma coisa e pegar o vôo. Ainda consegui dançar até de manhã numa boate no Rio de Janeiro. Ufa!
   Meus agradecimentos super especiais aos meus amigos: Andréa, Letícia, Katiola, Fernanda Piedade (também minha treinadora), Down, Pedro, Denise, Aventureiros do Agreste (meu povo)... Cada um por razões diferentes.
   Meu marido lindo, valeu pela festa no Rio!


#todomundopensouqueeuestavabebada

   Parabéns pra Show, pela prova, que está melhor a cada dia e a todos os atletas que fizeram essa grande festa!
   Cinquenta mil beijos e trezentos e quarenta mil abraços!
   Até muito breve!
   Lu    
 
PS: As foto lindas são de Tatiana Cabral e Kátia Souza.

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

ULTRA TRAIL CHAPADA DIAMANTINA- 50KM

   Zé. Combinamos que ele seria o primeiro citado, com os merecidos agradecimentos. Ele é o cara mais legal da galáxia, do sistema solar, da via láctea, do universo e, porque não dizer, do multiverso. Zé está comigo na maior parte do tempo, me dá umas ideias bacanas, me empurra quando estou devagar, me ajuda a seguir na caminhada da vida, que algumas vezes não é tão animada quanto parece, mas é a minha caminhada, a que preciso trilhar por merecimento e só eu posso seguir. Pra quem não conhece, eis O CARA: Zé, meu anjo da guarda! Obrigada, Zé! Uhuuu!
   Agora que já cumpri com o combinado, vamos à prova...
   Logo que a Ultra foi anunciada, decidi abrir mão da última etapa do Campeonato Baiano de Corrida de Aventura pra fazer os 50km de corrida em trilha. Sim, teve gente que fez as duas e fez muito bem e não vejo problema na decisão de cada um. Ano passado fiz a corrida de aventura de 60km num dia, a corrida em trilha de 21km no outro e ainda subi o cruzeirão em 13’18’’ no outro. Esse ano não. Como nunca tinha corrido 50km em Trailrun, considerei que fazer o melhor não era fazer tudo.
   Contei meus planos pra tia Fê (Fernanda Piedade), minha Ultra-Mega-Power-Treinadora, e começamos os treinos com certa antecedência. No meio de tudo isso fizemos (eu e Vitor) uma trilha de 85km em três dias na Cordilheira dos Andes, onde acredito que ganhei um arzinho a mais nos pulmões. Entretanto, quando faltavam 2 meses pra prova, surgiu uma lesão no tornozelo, provavelmente, num treino de areia fofa.
   Daí em diante, rolou uma deprê básica. Sem coragem de ir ao médico, pedia a Deus pra me ajudar, fugia do grupo de Whatsapp “Treino Lu e Vitor”, não contava a dor toda aos interessados, mancava até no trabalho, tomava Tandrilax pra fazer os treinos longos e acabei fazendo o Desafio dos Sertões (uma Corrida de Aventura de 130km) na base do medicamento. Fiz tudo errado!
   Depois do Desafio, cheguei a um ponto que não conseguia mais segurar. Terminei um treino de 16km mancando. Vitor fez “fuxico” pra tia Fê, que me chamou pra uma conversa séria. O medo de não conseguir fazer a corrida era tanto que menti pra mim mesma. Já no meio de setembro, devendo estar no auge dos treinos, não conseguia mais correr, só pedalava. Então Fê deu o ultimato: Não daria mais tempo de fazer o treino do jeito que ela queria, mas eu teria que parar para ir ao médico e cuidar da lesão antes da prova. Tia Fê dá esporro, briga mesmo!
   Voltei pra casa com a promessa de me cuidar, mas viajei pra Santa Catarina à trabalho na primeira semana de outubro, onde precisei tomar remédio todos os dias pra conseguir atravessar a rua do hotel pra o trabalho. Com a correria, só consegui marcar o médico pra 26 de outubro. Então fui a um fisioterapeuta tentar algum tipo de tratamento até que o dia da consulta chegasse porque, estava muito claro que, se esperasse até lá, não daria tempo de tratar a lesão de 26 de outubro até 4 de novembro.
   Àquela altura, Fê já tinha mudado completamente meus treinos pra bike pra deixar minhas pernas fortes e trabalhar o cardiovascular, deixando claro que não era a mesma coisa que correr. Fazia Pilates com Marina, queridíssima que me indicou o fisioterapeuta. Além disso, acupuntura com Vitor. Tudo pra não desistir, mas tinha certeza absoluta de que não conseguiria correr 50km do jeito que estava.
   No dia 9 de outubro, entrei no consultório de Giulyano Lima pra minha primeira sessão de fisioterapia. O cara avaliou minha postura, falou pelos cotovelos, estalou todas as minhas articulações, colocou umas fitas azuis em volta do meu tornozelo e disse que eu só precisava ir uma vez na semana. Saí preocupada, mas já senti diferença.
   No feriado de 12 de outubro, fiz a primeira corrida de meia hora, depois de um longão de bike de 4 horas e meia, quando Fê começou a se sentir segura pra passar treino de corrida. Mas, dali até a prova, não tinha tempo pra nada muito elaborado.
   Obedeci, segui tudo o que tinha que fazer, menos ir ao médico, porque já estava me sentindo tão bem que não precisava. Sem o volume de treino, teria que fazer os 50km na base da força mental, trabalhando o psicológico.
    Enfim chegou o grande dia!
   No saco de mantimentos do km 36, deixei alguma comida. A lanterna ficaria na minha mochila para o caso de eu decidir não parar.
   Nas minhas reflexões, passei um tempo fazendo os combinados com Zé. Precisava manter a calma, não pisar em falso, respirar bem, ter pensamentos positivos, cuidar da alimentação...
   Pontualmente às 9h da manhã, com adrenalina em nível 10 das galáxias até o último fio de cabelo, larguei no ritmo da galera dos percursos de 6, 11 e 21km. Trote básico de 10km/h que, sinceramente, sabia que não conseguiria segurar até o fim, mas aproveitei o plano pra dar um gás. Como o ponto de corte era em 6horas no km36, planejei chegar confortavelmente em pouco mais de 5horas com uma velocidade boa, sem tanto desgaste.
   O primeiro trecho era plano, mas com bastante areia fofa e pedras. Lá pelos 5km de prova, começamos a subir onde começava o percurso comum aos atletas que correriam 11 e 21km. Uma subida íngreme cheia de pedras, que eu andava a passos rápidos, pedindo licença gentilmente aos mais lentos. Lá em cima, aquele ventinho fresco de topo do mundo. A temperatura de Mucugê estava propícia a uma corridinha pelos pampas, rs! Aquilo estava divertido demais! Nada em meu corpo reclamava e agradecia ao universo por tudo o que estava acontecendo, enquanto procurava meninas com pulseiras pretas, da minha categoria!
   No km 10, pensei muito alto:
   -Agora vou fazer uma parte da prova de 21km, um percurso lindo, que passa rapidinho! Zé, a primeira coisa que vou fazer na minha resenha vai ser um agradecimento a você. Tamo junto!!!
   Encontrei meu amigo Tadeu antes do portão que dividia a galera de 11 e de 21km. Subimos aquela trilha que vai pra a cachoeira do Tiburtino no maior gás, ora correndo ora a passos rápidos, conversando por um bom tempo. Um cara pediu pra passar em nossa frente pra nos filmar. Achei ótimo, mas a minha vontade de fazer xixi foi maior do que a vontade de aparecer na TV. Quando eu falei que ia fazer xixi o cara falou: “Na Globo??”. Kkkkk! Eu disse que sentia muito, mas precisava fazer xixi. É o preço que se paga pela espontaneidade e por não assistir TV, logo, não reconhecer pessoas famosas. Fiz xixi escondida, não se preocupem.
   Até o Tiburtino tem muita pedra e dois trechos que a gente tem que sentar na pedra pra descer. Precisa ter muito cuidado pra não machucar. A cachoeira é linda demais e tinha ido com as crianças um dia antes numa velocidade totalmente diferente. Na verdade, fiz o percurso todo lembrando do grau de dificuldade que vimos no dia anterior, lembrando das nossas crianças curtindo a natureza e fazendo perguntas sobre meu desafio.
   Depois da cachoeira, Tadeu sumiu e encontrei um novo amigo. Ele disse que era a primeira Ultra e, assim como eu, estava administrando o tempo pra não sofrer muito. Aquele trecho de singletrack, com um pouco de sombra de árvores, ajudava ainda mais a amenizar a temperatura.
   Na mochila, água, gel de carboidrato, chips de banana, pasta de amendoim, polenguinho, maçã, tangerina e um pó de repositor eletrolítico para o momento certo. Tudo planejado de maneira que não sentisse fome nem sede.
   Entrei no desvio que, no mapa, era uma alça que saia do percurso de 21 e voltava pra ele outra vez. Muita, muita subida. Quando avistei uma menina numa subida sem fim, longe de mim, tive um misto de alegria e preocupação. Lembrei do meu volume de treino e que estávamos apenas no km 19. Percebi que ela subia devagar e que me aproximava sem fazer tanto esforço. Alcancei a fofa!! Super gentil, conversamos, trocamos amabilidades. Ela me deixou passar e me arrependi imediatamente. A criatura começou a trotar quando chegou no plano, respirando bem no meu cangote. Sem contar que descia muito melhor do que eu, fazendo aquele barulho de cavalaria chegando. Nossa, se eu continuasse na frente, seria um sofrimento, a não ser que... Resolvi fazer xixi e deixá-la passar para repensar meu comportamento.
   É isso aí, nada como esvaziar a bexiga e reduzir o peso! Voltei num ritmo ótimo, pensando que se encontrasse a menina poderia ir embora sem olhar pra trás. E encontrei. Encontrei também um atleta de caganeira, dentro de uma moita bem alta. Ele achou o melhor lugar. Tomara que tenha enterrado o “côquis”. Ia soltar uma piadinha, mas preferi ser discreta.
   Dessa vez, fui embora sem olhar pra trás. Subi tão alto que sentia um vento empurrando minhas costas naquele momento de solidão aliviada. Dava pra ter uma visão da paisagem de 360 graus, com morros pra todos os lados, de todos os formatos, tamanhos e verdes. Ali eu já fechava os 24km, falando:
-          - Agora eu vou dividir o percurso em 3, vai ficar fácil. Zé, tamo junto!! Isso aqui está bom demais!
   Essa divisão de percurso é uma estratégia que minha amiga do coração, Thays Medrado, ensinou quando fizemos uma prova de Penélopes em Alagoas. Funciona mesmo!

   Sobre a menina, só tive coragem de olhar pra trás lá longe e nada de ninguém.
   Depois de muito correr, fechei 30km pelo projeto Sempre Viva. Naquele ponto de hidratação foi o primeiro momento onde tive noção do que acontecia no mundo lá fora. Enquanto abastecia meu camelback com água, recebia as notícias. Estava em quarto lugar, com Carol Barcellos, a repórter do Esporte Espetacular, em terceiro.
   Então tá, quem sabe não passo dela... Fui correndo pela estrada afora, num dos pouquíssimos trechos de asfalto da prova e, provavelmente, o mais perigoso. Carro mata! Entrei pela trilha dos garimpeiros, pulando pedras a três por quatro até sair lá perto da cidade, no asfalto de novo. Entrei pela cidade numa vibração incrível! Cada pessoa por quem passava gritava uma palavra de ânimo, aplaudia, dava um sorriso largo, um “Bora Lu!”. Entrei no corredor do km 36 com 5 horas e meia de prova, parecendo que estava na chegada. Fui recebida calorosamente por todos, principalmente Ygor Graça, ex-aluno da Escola de Aventura do Agreste e grande atleta de corrida, com uma animação tão grande que levantava até defunto. Ygor perguntou como eu estava, se precisava de spray para dores musculares e apontou o meu lugar no pódio.
   Foi tudo muito rápido!! Minha lanterna já estava na mochila. Só peguei um Gatorade e um gel, fui na mesa de frutas rapidinho, olhei pra o meu lugar no pódio e saí correndo como se estivesse começando naquela hora.
   Só faltavam 14 km, dava pra dividir por 3 de novo. Dava sim! E estava mais fácil ainda! Pra não falar que não doeu nada, estava certa de que a unha do pé cairia. Dor conhecida, ignorada solenemente!
   Arrumei outro amigo, para quem ofereci Gatorade, alegando que não conseguiria dar conta de tudo. Precisava de ajuda porque era um sacrilégio jogar fora. Ele aceitou um pouco e devolveu dizendo que precisava parar pra esperar alguém. Amizade fulgaz. Snif!
   Continuando minha odisseia... Aquele trecho plano da corrida foi um descanso e tanto para o que viria adiante! Ventinho no rosto, corrida tranquila... No km 41, mais ou menos, arrumei mais um amigo. Coincidentemente, Bruninho é atleta da Carcará. Se é Carcará é meu amigo, com certeza!!  Para sempre! Corremos juntos por uns 8km na maior animação, conversando horrores! Quer dizer... rs!
   Faltando 5km pra terminar a prova começamos a subir uma ladeira extremamente cruel que levava a um dos cruzeiros de Mucugê. Coisa de maluco você acabar uma prova dessa, lagartixando em pedras. Era uma escalaminhada capaz de fazer o caboclo desistir e, literalmente, morrer na praia. Um atleta subia mais à frente, enquanto as pedras rolavam pra cima de nós. Bruninho preferiu até esperar que eu fosse primeiro pra gente não se acidentar. Fui de joelhos, segurando nas pedras laterais. Uma experiência muito louca!
   Lá em cima, mais pedras pra pular. Lugares onde precisava mirar bem do outro lado e abrir as pernas pra não cair no buraco. O pessoal da organização, sabiamente, sinalizava o que poderia se chamar de trilha para os que passariam pela noite.
   Quando chegamos na “boca” da descida do cruzeirão, ouvi o locutor anunciar a chegada de Carol Barcellos. Todo mundo dizia que eu alcançaria a menina, mas não rolou nem um contato visual, imagine ultrapassagem. A criatura correu muito!
   Eu e Bruninho descemos o cruzeirão na melhor performance possível e quando chegou lá embaixo a nossa amizade acabou. Bruninho queria alcançar dois atletas que estavam logo à frente e, claro, incentivei o abandono à minha pessoa! Snif!
-          Vá, Bruninho, jogue duro que vou seguir no meu ritmo!
   E lá se foi ele, correndo loucamente!
    Massa! Entrei na cidade muito animada. As pessoas começaram a gritar de novo. Na rua principal que levava ao pórtico, os amigos começaram a sair dos bares, dos restaurantes, a descer dos passeios. Gritavam meu nome. Pedro, Ygor, e Plínio, vieram correndo junto comigo até a linha de chegada num final que todas as vezes que assisto às filmagens me emociono. E me emocionei outra vez ao escrever. Meus filhos estavam me esperando, junto com Vitor, Marina, Ana Paula, Ricardo e muitas outras pessoas queridíssimas que vibravam com essa conquista.


    Sou muito agradecida por tudo e por todos! Foi uma prova incrível, movida pela natureza, pelo amor, pela coragem e, sobretudo, pela fé. Curti cada segundo, cada momento, cada encontro, cada passo.
    Carinhosamente, agradeço aos queridos amigos, à minha família maravilhosa, especialmente minha Tiloca e meu Tiago, Marina linda, aos meus Aventureiros do Agreste. Agradeço ao meu marido lindo que sempre me olha com cara de admiração e orgulho quando faço essas maluquices.
    E aos profissionais que foram fundamentais para que esse projeto se realizasse: Marina Peixoto, minha professora maravilhosa de Pilates, Giulyano Lima, o cara da fisioterapia osteopática (nome super estiloso!), meu terapeuta Lafaiete Freitas e à minha treinadora toda trabalhada no poder, Fernanda Piedade. Ainda teve meu marido na acupuntura...
   Parabéns à equipe Gantuá pela prova espetacular!

   Valeu demais!