quarta-feira, 8 de novembro de 2017

ULTRA TRAIL CHAPADA DIAMANTINA- 50KM

   Zé. Combinamos que ele seria o primeiro citado, com os merecidos agradecimentos. Ele é o cara mais legal da galáxia, do sistema solar, da via láctea, do universo e, porque não dizer, do multiverso. Zé está comigo na maior parte do tempo, me dá umas ideias bacanas, me empurra quando estou devagar, me ajuda a seguir na caminhada da vida, que algumas vezes não é tão animada quanto parece, mas é a minha caminhada, a que preciso trilhar por merecimento e só eu posso seguir. Pra quem não conhece, eis O CARA: Zé, meu anjo da guarda! Obrigada, Zé! Uhuuu!
   Agora que já cumpri com o combinado, vamos à prova...
   Logo que a Ultra foi anunciada, decidi abrir mão da última etapa do Campeonato Baiano de Corrida de Aventura pra fazer os 50km de corrida em trilha. Sim, teve gente que fez as duas e fez muito bem e não vejo problema na decisão de cada um. Ano passado fiz a corrida de aventura de 60km num dia, a corrida em trilha de 21km no outro e ainda subi o cruzeirão em 13’18’’ no outro. Esse ano não. Como nunca tinha corrido 50km em Trailrun, considerei que fazer o melhor não era fazer tudo.
   Contei meus planos pra tia Fê (Fernanda Piedade), minha Ultra-Mega-Power-Treinadora, e começamos os treinos com certa antecedência. No meio de tudo isso fizemos (eu e Vitor) uma trilha de 85km em três dias na Cordilheira dos Andes, onde acredito que ganhei um arzinho a mais nos pulmões. Entretanto, quando faltavam 2 meses pra prova, surgiu uma lesão no tornozelo, provavelmente, num treino de areia fofa.
   Daí em diante, rolou uma deprê básica. Sem coragem de ir ao médico, pedia a Deus pra me ajudar, fugia do grupo de Whatsapp “Treino Lu e Vitor”, não contava a dor toda aos interessados, mancava até no trabalho, tomava Tandrilax pra fazer os treinos longos e acabei fazendo o Desafio dos Sertões (uma Corrida de Aventura de 130km) na base do medicamento. Fiz tudo errado!
   Depois do Desafio, cheguei a um ponto que não conseguia mais segurar. Terminei um treino de 16km mancando. Vitor fez “fuxico” pra tia Fê, que me chamou pra uma conversa séria. O medo de não conseguir fazer a corrida era tanto que menti pra mim mesma. Já no meio de setembro, devendo estar no auge dos treinos, não conseguia mais correr, só pedalava. Então Fê deu o ultimato: Não daria mais tempo de fazer o treino do jeito que ela queria, mas eu teria que parar para ir ao médico e cuidar da lesão antes da prova. Tia Fê dá esporro, briga mesmo!
   Voltei pra casa com a promessa de me cuidar, mas viajei pra Santa Catarina à trabalho na primeira semana de outubro, onde precisei tomar remédio todos os dias pra conseguir atravessar a rua do hotel pra o trabalho. Com a correria, só consegui marcar o médico pra 26 de outubro. Então fui a um fisioterapeuta tentar algum tipo de tratamento até que o dia da consulta chegasse porque, estava muito claro que, se esperasse até lá, não daria tempo de tratar a lesão de 26 de outubro até 4 de novembro.
   Àquela altura, Fê já tinha mudado completamente meus treinos pra bike pra deixar minhas pernas fortes e trabalhar o cardiovascular, deixando claro que não era a mesma coisa que correr. Fazia Pilates com Marina, queridíssima que me indicou o fisioterapeuta. Além disso, acupuntura com Vitor. Tudo pra não desistir, mas tinha certeza absoluta de que não conseguiria correr 50km do jeito que estava.
   No dia 9 de outubro, entrei no consultório de Giulyano Lima pra minha primeira sessão de fisioterapia. O cara avaliou minha postura, falou pelos cotovelos, estalou todas as minhas articulações, colocou umas fitas azuis em volta do meu tornozelo e disse que eu só precisava ir uma vez na semana. Saí preocupada, mas já senti diferença.
   No feriado de 12 de outubro, fiz a primeira corrida de meia hora, depois de um longão de bike de 4 horas e meia, quando Fê começou a se sentir segura pra passar treino de corrida. Mas, dali até a prova, não tinha tempo pra nada muito elaborado.
   Obedeci, segui tudo o que tinha que fazer, menos ir ao médico, porque já estava me sentindo tão bem que não precisava. Sem o volume de treino, teria que fazer os 50km na base da força mental, trabalhando o psicológico.
    Enfim chegou o grande dia!
   No saco de mantimentos do km 36, deixei alguma comida. A lanterna ficaria na minha mochila para o caso de eu decidir não parar.
   Nas minhas reflexões, passei um tempo fazendo os combinados com Zé. Precisava manter a calma, não pisar em falso, respirar bem, ter pensamentos positivos, cuidar da alimentação...
   Pontualmente às 9h da manhã, com adrenalina em nível 10 das galáxias até o último fio de cabelo, larguei no ritmo da galera dos percursos de 6, 11 e 21km. Trote básico de 10km/h que, sinceramente, sabia que não conseguiria segurar até o fim, mas aproveitei o plano pra dar um gás. Como o ponto de corte era em 6horas no km36, planejei chegar confortavelmente em pouco mais de 5horas com uma velocidade boa, sem tanto desgaste.
   O primeiro trecho era plano, mas com bastante areia fofa e pedras. Lá pelos 5km de prova, começamos a subir onde começava o percurso comum aos atletas que correriam 11 e 21km. Uma subida íngreme cheia de pedras, que eu andava a passos rápidos, pedindo licença gentilmente aos mais lentos. Lá em cima, aquele ventinho fresco de topo do mundo. A temperatura de Mucugê estava propícia a uma corridinha pelos pampas, rs! Aquilo estava divertido demais! Nada em meu corpo reclamava e agradecia ao universo por tudo o que estava acontecendo, enquanto procurava meninas com pulseiras pretas, da minha categoria!
   No km 10, pensei muito alto:
   -Agora vou fazer uma parte da prova de 21km, um percurso lindo, que passa rapidinho! Zé, a primeira coisa que vou fazer na minha resenha vai ser um agradecimento a você. Tamo junto!!!
   Encontrei meu amigo Tadeu antes do portão que dividia a galera de 11 e de 21km. Subimos aquela trilha que vai pra a cachoeira do Tiburtino no maior gás, ora correndo ora a passos rápidos, conversando por um bom tempo. Um cara pediu pra passar em nossa frente pra nos filmar. Achei ótimo, mas a minha vontade de fazer xixi foi maior do que a vontade de aparecer na TV. Quando eu falei que ia fazer xixi o cara falou: “Na Globo??”. Kkkkk! Eu disse que sentia muito, mas precisava fazer xixi. É o preço que se paga pela espontaneidade e por não assistir TV, logo, não reconhecer pessoas famosas. Fiz xixi escondida, não se preocupem.
   Até o Tiburtino tem muita pedra e dois trechos que a gente tem que sentar na pedra pra descer. Precisa ter muito cuidado pra não machucar. A cachoeira é linda demais e tinha ido com as crianças um dia antes numa velocidade totalmente diferente. Na verdade, fiz o percurso todo lembrando do grau de dificuldade que vimos no dia anterior, lembrando das nossas crianças curtindo a natureza e fazendo perguntas sobre meu desafio.
   Depois da cachoeira, Tadeu sumiu e encontrei um novo amigo. Ele disse que era a primeira Ultra e, assim como eu, estava administrando o tempo pra não sofrer muito. Aquele trecho de singletrack, com um pouco de sombra de árvores, ajudava ainda mais a amenizar a temperatura.
   Na mochila, água, gel de carboidrato, chips de banana, pasta de amendoim, polenguinho, maçã, tangerina e um pó de repositor eletrolítico para o momento certo. Tudo planejado de maneira que não sentisse fome nem sede.
   Entrei no desvio que, no mapa, era uma alça que saia do percurso de 21 e voltava pra ele outra vez. Muita, muita subida. Quando avistei uma menina numa subida sem fim, longe de mim, tive um misto de alegria e preocupação. Lembrei do meu volume de treino e que estávamos apenas no km 19. Percebi que ela subia devagar e que me aproximava sem fazer tanto esforço. Alcancei a fofa!! Super gentil, conversamos, trocamos amabilidades. Ela me deixou passar e me arrependi imediatamente. A criatura começou a trotar quando chegou no plano, respirando bem no meu cangote. Sem contar que descia muito melhor do que eu, fazendo aquele barulho de cavalaria chegando. Nossa, se eu continuasse na frente, seria um sofrimento, a não ser que... Resolvi fazer xixi e deixá-la passar para repensar meu comportamento.
   É isso aí, nada como esvaziar a bexiga e reduzir o peso! Voltei num ritmo ótimo, pensando que se encontrasse a menina poderia ir embora sem olhar pra trás. E encontrei. Encontrei também um atleta de caganeira, dentro de uma moita bem alta. Ele achou o melhor lugar. Tomara que tenha enterrado o “côquis”. Ia soltar uma piadinha, mas preferi ser discreta.
   Dessa vez, fui embora sem olhar pra trás. Subi tão alto que sentia um vento empurrando minhas costas naquele momento de solidão aliviada. Dava pra ter uma visão da paisagem de 360 graus, com morros pra todos os lados, de todos os formatos, tamanhos e verdes. Ali eu já fechava os 24km, falando:
-          - Agora eu vou dividir o percurso em 3, vai ficar fácil. Zé, tamo junto!! Isso aqui está bom demais!
   Essa divisão de percurso é uma estratégia que minha amiga do coração, Thays Medrado, ensinou quando fizemos uma prova de Penélopes em Alagoas. Funciona mesmo!

   Sobre a menina, só tive coragem de olhar pra trás lá longe e nada de ninguém.
   Depois de muito correr, fechei 30km pelo projeto Sempre Viva. Naquele ponto de hidratação foi o primeiro momento onde tive noção do que acontecia no mundo lá fora. Enquanto abastecia meu camelback com água, recebia as notícias. Estava em quarto lugar, com Carol Barcellos, a repórter do Esporte Espetacular, em terceiro.
   Então tá, quem sabe não passo dela... Fui correndo pela estrada afora, num dos pouquíssimos trechos de asfalto da prova e, provavelmente, o mais perigoso. Carro mata! Entrei pela trilha dos garimpeiros, pulando pedras a três por quatro até sair lá perto da cidade, no asfalto de novo. Entrei pela cidade numa vibração incrível! Cada pessoa por quem passava gritava uma palavra de ânimo, aplaudia, dava um sorriso largo, um “Bora Lu!”. Entrei no corredor do km 36 com 5 horas e meia de prova, parecendo que estava na chegada. Fui recebida calorosamente por todos, principalmente Ygor Graça, ex-aluno da Escola de Aventura do Agreste e grande atleta de corrida, com uma animação tão grande que levantava até defunto. Ygor perguntou como eu estava, se precisava de spray para dores musculares e apontou o meu lugar no pódio.
   Foi tudo muito rápido!! Minha lanterna já estava na mochila. Só peguei um Gatorade e um gel, fui na mesa de frutas rapidinho, olhei pra o meu lugar no pódio e saí correndo como se estivesse começando naquela hora.
   Só faltavam 14 km, dava pra dividir por 3 de novo. Dava sim! E estava mais fácil ainda! Pra não falar que não doeu nada, estava certa de que a unha do pé cairia. Dor conhecida, ignorada solenemente!
   Arrumei outro amigo, para quem ofereci Gatorade, alegando que não conseguiria dar conta de tudo. Precisava de ajuda porque era um sacrilégio jogar fora. Ele aceitou um pouco e devolveu dizendo que precisava parar pra esperar alguém. Amizade fulgaz. Snif!
   Continuando minha odisseia... Aquele trecho plano da corrida foi um descanso e tanto para o que viria adiante! Ventinho no rosto, corrida tranquila... No km 41, mais ou menos, arrumei mais um amigo. Coincidentemente, Bruninho é atleta da Carcará. Se é Carcará é meu amigo, com certeza!!  Para sempre! Corremos juntos por uns 8km na maior animação, conversando horrores! Quer dizer... rs!
   Faltando 5km pra terminar a prova começamos a subir uma ladeira extremamente cruel que levava a um dos cruzeiros de Mucugê. Coisa de maluco você acabar uma prova dessa, lagartixando em pedras. Era uma escalaminhada capaz de fazer o caboclo desistir e, literalmente, morrer na praia. Um atleta subia mais à frente, enquanto as pedras rolavam pra cima de nós. Bruninho preferiu até esperar que eu fosse primeiro pra gente não se acidentar. Fui de joelhos, segurando nas pedras laterais. Uma experiência muito louca!
   Lá em cima, mais pedras pra pular. Lugares onde precisava mirar bem do outro lado e abrir as pernas pra não cair no buraco. O pessoal da organização, sabiamente, sinalizava o que poderia se chamar de trilha para os que passariam pela noite.
   Quando chegamos na “boca” da descida do cruzeirão, ouvi o locutor anunciar a chegada de Carol Barcellos. Todo mundo dizia que eu alcançaria a menina, mas não rolou nem um contato visual, imagine ultrapassagem. A criatura correu muito!
   Eu e Bruninho descemos o cruzeirão na melhor performance possível e quando chegou lá embaixo a nossa amizade acabou. Bruninho queria alcançar dois atletas que estavam logo à frente e, claro, incentivei o abandono à minha pessoa! Snif!
-          Vá, Bruninho, jogue duro que vou seguir no meu ritmo!
   E lá se foi ele, correndo loucamente!
    Massa! Entrei na cidade muito animada. As pessoas começaram a gritar de novo. Na rua principal que levava ao pórtico, os amigos começaram a sair dos bares, dos restaurantes, a descer dos passeios. Gritavam meu nome. Pedro, Ygor, e Plínio, vieram correndo junto comigo até a linha de chegada num final que todas as vezes que assisto às filmagens me emociono. E me emocionei outra vez ao escrever. Meus filhos estavam me esperando, junto com Vitor, Marina, Ana Paula, Ricardo e muitas outras pessoas queridíssimas que vibravam com essa conquista.


    Sou muito agradecida por tudo e por todos! Foi uma prova incrível, movida pela natureza, pelo amor, pela coragem e, sobretudo, pela fé. Curti cada segundo, cada momento, cada encontro, cada passo.
    Carinhosamente, agradeço aos queridos amigos, à minha família maravilhosa, especialmente minha Tiloca e meu Tiago, Marina linda, aos meus Aventureiros do Agreste. Agradeço ao meu marido lindo que sempre me olha com cara de admiração e orgulho quando faço essas maluquices.
    E aos profissionais que foram fundamentais para que esse projeto se realizasse: Marina Peixoto, minha professora maravilhosa de Pilates, Giulyano Lima, o cara da fisioterapia osteopática (nome super estiloso!), meu terapeuta Lafaiete Freitas e à minha treinadora toda trabalhada no poder, Fernanda Piedade. Ainda teve meu marido na acupuntura...
   Parabéns à equipe Gantuá pela prova espetacular!

   Valeu demais!

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Desafio dos Sertões 2017: o dia em que o Sertão nos deixou ganhar.

POR VITOR HUGO MOREAU

O Desafio dos Sertões é uma das provas mais aguardadas do Campeonato Baiano de Corrida de Aventura, principalmente por não ter ocorrido no ano passado, por eu ter feito a proposta de casamento para Luciana no briefing da corrida em 2014 e, ainda mais, por eu não ter conseguido completar as edições de 2013 e 2015. Mesmo tendo ficado em 3º lugar entre os quartetos em 2014, não tive minha revanche porque neste ano, o Desafio não foi exatamente no sertão da região de Juazeiro, como de praxe. Minha vingança contra o Sertão ainda estava travada na boca, esperando para ser engolida.
Vínhamos, eu e Lu, fazendo um treinamento visando o Desafio dos Sertões. Pra isso, contamos com suporte da queridíssima e competentíssima Fernanda Piedade, treinadora cruel e divertida (sim, isso é possível!). Além disso, eu vinha há dois meses adaptando uma dieta cetogênica para suportar os 130 km da prova sem passar mal por falta de comida, o que vinha causando certo estresse na minha parceira e na minha treinadora. Nem o treino de corrida simulada que fizemos na semana anterior – 75 km em 7 horas – foi suficiente para garantir a confiança da Luciana. Era preciso mais, era preciso vencer o Sertão.
Saindo de casa.
Saímos de Lauro de Freitas com o carro carregado de coisas de aventura na quinta pela manhã. Com a corrida marcada para sexta a noite, seria ótimo chegar sem pressa, descansar, encontrar amigos e nos preparar com calma para a largada as 22:30. O preparativo é uma estória a parte e precisa ser contada. Chegamos a Petrolina de noite e fomos direto para a casa de Pezão e Malena, amigos queridíssimos que conhecemos nas corridas e que apelidamos carinhosamente de “casalzinho”. Quem os conhece, já pode imaginar o por que. Eles arrumaram um village para toda a nossa equipe no condomínio deles. Ficamos lá do jeito que gostamos, sem luxo, mas todo mundo junto: eu, Lu, Mauroba, Gabi e Scavuzzi.
Casalzinho, antes da largada. Thunder Adventure, depois... kkkk
 A maior farra... Ainda deu tempo de comermos um sensacional hambúrguer gourmet feito por Cássio Insanos – sem pão, no meu caso. Foi uma oportunidade de bons encontros e relax antes da prova. Na sexta, ainda almoçamos um bode na brasa com amigos queridos Gilson, Gaia, Arnaldo entre outros que já conhecíamos ou que conhecemos na hora. Corrida de Aventura é sempre isso, farra primeiro, competição depois e farra, de novo, por último.
Confraternização na Hamburgueria do Cássio.
Preparativos e estresses, como sempre, partimos para Petrolina após o almoço e chegamos a Piçarrão, local da largada. Deu tempo de cumprimentar todo o povo, vestir as roupas, comer, assistir ao briefing, aquecer. A largada atrasou um pouco e às 11:00, soltavam-se os fogos da partida. Finalmente, começava o Desafio dos Sertões. Nossa primeira perna seria uma corrida até o PC1, nas margens do lago de Sobradinho. Como já tínhamos deixado as bikes no PC5, que era no meio do caminho, já sabíamos pra onde ir, então guardamos o mapa e fomos correndo. 7 km até o PC1 com o vento empurrando, foi ótimo. Pegamos o PC1 e seguimos para o resto do trekking, já que o remo (PCs 2, 3 e 4) tinham sido adiados para o fim da prova.

 Batemos o azimute e seguimos no ritmo frenético de início de corrida. Daí o erro fatal – ou quase. Na pressa, não percebi que havia retirado a declinação da minha bússola para competir na Corrida de Orientação, onde o mapa já é declinado. Bati o azimute errado e acabamos cortando para o outro lado da estrada. Por azar, do lado errado tinha uma trilha com o mesmo azimute que a trilha certa (30º ). Não tivemos dúvida, entramos... e não saímos nunca mais. Ou melhor, saímos, mas duas horas depois. Foi um rasga mato, volta na trilha, tenta de novo, até decidirmos voltar tudo até a estrada e descobrir onde erramos. Percebemos que estávamos bem fora da estrada correta e tivemos que rodear o morro para procurar a trilha. No caminho, encontramos Gaia – que nessa prova era nosso concorrente com “A Menina de São Paulo” que ele trouxe pra puxar ele (rsrsrs), Gilson e Arnaldo. Eles já tinham pego o PCB, mas preferiram rodear de volta o morro para pegar o PCA e o PCC. Não havia trilha entre o PCB e o PCA, então quem quisesse cruzar sem rodear 7 km teria que rasgar mato morro acima. Decidimos rasgar. Entramos na trilha – a certa dessa vez – e pegamos o PCB. Encontramos a BB Brindes e as Penélopes do Agreste, que estavam batendo cabeça no PCB e seguimos juntos rumo ao rasga-mato-morro-acima para o PCA. Foi duro! Enxergávamos as luzes do povo perdido no alto do morro. Muito alto mesmo. Parecia que a gente nunca ia chegar lá. E a subida?! Toda de pedra solta! Em alguns momentos, tínhamos que andar engatinhando para subir. Revezei com Plínio o papel do rompe mato e seguimos. Quando estava na frente, era sofrido, mas quando estava atrás, tinha que tentar ignorar a bunda grande do Omar engatinhando na minha frente e continuar, achando graça daquilo tudo! Hehehehe.
PC C depois de rasgar mato e subir pedra.
Mantemos o azimute e saímos na trilha entre o PCA e o PCB. Decidimos subir primeiro e depois descer para o PCA. Que subida miserável! Só não tinha mato, mas pedra solta de montão. Muito íngreme. Chegamos ao PCC, numa antena no alto do morro. Como é bom ir chegando no cume e sentir a brisa. Que alívio! Sempre rola uma piadinha, tipo: “só o cume interessa” ou “sente a brisa que no cume bate”... Foto do PCC e descida escabrosa nas pedras soltas até o PCA, na virada da cerca. Não acabava aí. Continuamos descendo fortemente até a beira do lago. Já amanhecia quando chegamos ao PC5 para pegar as bikes.
Comer, beber, equipar e sair. Tudo muito objetivo. Saímos de bikes em direção ao Piçarrão para atravessar a pista e seguimos para o PC6, no povoado de Pau de Colher, depois, o PCD, na beira da estrada. Para chegar ao PC7, uma subida de 6 km. Concentração... o sol já estava forte no início da manhã e muitas equipes já ficavam pelo caminho, empurrando as bikes na subida. Passamos pelas turbinas eólicas e me impressionei com o tamanho. As hélices passam por nós a milhão, embora de longe pareça que elas rodam devagar, chega a dar medo daquele treco soltar e sair varrendo tudo igual filme de Transformers. Na decida, chegando ao PC7, que foi uma transição para o trekking no povoado de São Pedro, cruzamos com a Makaíra (quarteto) já voltando e um dos atletas gritou: “as duplas mistas acabaram de sair!” Achei legal a preocupação dele em nos avisar, mas depois daquela subida, confesso que tinha pouco fôlego pra correr atrás de alguém. Queria era fazer a minha prova e chegar bem.
Chegando ao PC7, deixamos as bikes e seguimos para o trekking pelo vale, morro acima, é claro. Subimos o leito seco do rio pegando o PCE, PCF e PCG sem dificuldade; todos nos locais exatos. Chegando ao PCH, encontramos Gaia, que nos olhou com visível espanto de quem não esperava nos encontrar ali. Confirmei sua surpresa quando ele perguntou: “tiveram dificuldade no PCE?” e eu com a cara mais lavada: “não, dificuldade nenhuma...” KKKKK. Só sei que quando virei para tirar a foto do PC, Gaia e “Menina de São Paulo” já tinham sumido... deixado Arnaldo e Gilson, até então companheiros de jornada, para trás. KKKK Eu acho isso uma sacanagem. O cara é amigo, sócio, sobrinho só até os adversários aparecerem... Quando o bicho pega, é “peraí tio, que eu tenho que dar um gás aqui pra esses caras não me passarem!” KKK Me senti elogiado. Gaia é um atleta experiente, campeão brasileiro e bruto, mesmo com pouco treino, tem lastro, e correr porque me viu me deixou de certa forma, orgulhoso. Continuamos o trekking sem comer a pilha de ir atrás deles, focados no objetivo de terminar bem a prova. Lu e eu nem cogitamos essa possibilidade, seria um desgaste desnecessário e não temos esse perfil. Sempre fazemos a nossa prova e o resto vem como consequência.
Voltando do PCH em direção ao PC7, que agora era PC8 para pegar as bikes de novo, passamos por um dos trechos mais difíceis da prova: um trekking de 6 km ladeira acima sob o sol de meio dia do sertão. A única coisa que me consolava era a vendinha em São Pedro que tinha água e coca-cola geladas. Andei o tempo todo pensando nisso... Decidimos pegar as bikes na escolinha de São Pedro e só depois irmos ao bar. Tomei um banho de bica na escolinha, equipamos e partimos. Cem metros até o bar, onde água e coca gelada nos esperavam. Eu estava quase botando os bofes pra fora quando tomei aquela coca super gelada. Que alívio! Parece que minhas forças voltaram. Lu tomou até um cafezinho oferecido pela dona do bar. Revigorados e reidratados, seguimos nosso caminho rumo ao PCI e o PCJ. Chegamos de volta ao PC6, que agora já era PC9, em Pau de Colher. Esse foi um “down hill” dos mais legais da prova. Uma trilhazinha bem pedregosa que testou um pouco das nossas técnicas de mountain bike. O sol já começava a abrandar e o ânimo voltou. Bem divertido!
Em compensação, um dos piores trechos estava por vir. De Pau de Colher até o PCL o caminho era cheio de areais. Um empurra bike chatíssimo! Toda hora tínhamos que parar pra empurrar um pouco. Quando achávamos que o terreno iria melhorar, começou uma subida insubível. Não sei como Walter e Daniel chegaram lá em cima... moto? 4x4? Helicóptero? Pedalando é que não foi, se não iam ter pena de mandar a gente praquele boqueirão, carregando as bicicletas no lombo! No alto do morro, pulando uma cancela, chegamos à entrada da trilha para o PCL. Embaixo do PC, um singelo bilhete: “Não usar a trilha para Arizona, ir pelo estradão”. Me esqueci de perguntar o porque, mas achamos prudente seguir o conselho e fazer a volta pelo estradão até Arizona, onde estava o PC10.
Não sei por que, mas criamos uma idéia de que em Arizona teria um barzinho para comprar outra coca-cola... Doce ilusão. O lugar parece mesmo com o nome; só tinha areia, vento e breu. Só faltou a bola de feno rolando e os pistoleiros fazendo duelo, o resto tudo era faroeste puro. Pedi 15 minutos pra minha parceira para tirar um cochilo – o que ela atendeu parcialmente, hehehe – dei umas lambidas em um doce que me deram que tinha uma textura péssima, acho que era biscoito com goiabada. Eu estava com tanto sono que nem consegui distinguir o que era... kkkkk. Mas o rapaz que me ofereceu o doce também me deu um Gatorade em pó que foi minha salvação. Encontramos novamente Gilson e Arnaldo e seguimos rumo ao trekking em parceria. O percurso era até bonito, apesar da noite e do vento frio. Subimos uma serrinha, descemos do outro lado e encontramos o olho d´água onde ficava o PCK. O lugar parecia lindo, mesmo sendo noite. Fiquei com vontade de voltar lá de dia, era um oásis no meio do sertão. Uma nascente saindo de duas pedras enormes e formando um lago que parecia ser cristalino. Só deu tempo de fotografar o PC e sair em direção ao PCM.
Seguimos a trilha meio plana, já apresentando sinais de cansaço. Já estávamos em quase 24 horas de prova. Nessas alturas, o pessoal viu onça, saci, caapora e tudo mais que o povo sempre vê na mata a noite. Demoramos um pouco a achar o PCM, mas encontramos a trilha e batemos. Seguindo uma ravina na rocha, descemos até a lagoa, de volta ao PC11, o mesmo local que o PC10 em Arizona. Nesse momento, já estávamos mirando o fim da prova. Faltavam só 25 km de bike e dois PCs, já que a canoagem tinha sido cancelada por má condição do tempo no lago de Sabradinho. Saímos junto com Arnaldo e Gilson que logo se destacaram e seguiram em frente. Eu e Lu estávamos com muito sono e seguimos um pouco mais devagar. Eram 10 km até o PCP e passamos por Arnaldo e Gilson dormindo. Não resistiram e resolveram dar uma parada. A gente não podia se dar a esse luxo, Thunder Adventure – a do casalzinho, Pezão e Malena, que a essa altura já tinham deixado de ser amigos pra se tornar adversários (kkkk) - estavam atrás, ou pelo menos assim achávamos. Pegamos o PCP. O PCN, que era opcional, tinha sido cancelado. Arnaldo e Gilson passaram de novo por nós no PCP e se foram novamente. Faltando 3 km para o PCO, nossas lanternas começaram a se apagar progressivamente. O pedal que já estava difícil por conta da areia, do sono e do cansaço de 27 horas de prova, se tornou um suplício. Ficamos entre dormir até de manhã – e correr o risco de tomarmos um balão da Thunder – ou empurrar as bikes até o dia amanhecer. Preferimos pedalar à luz da Lua mesmo. Seguimos pela estrada sem iluminação, tendo que tatear o caminho com a roda da bike para não perder tempo. Encontramos a entrada do PCO na estrada, a 1 km do PC. Na cancela, encontramos de novo Gilson e Arnaldo que já voltavam e assim como vieram, partiram, com suas lanternas fortes iluminando o caminho e nos deixando mortos de inveja. Hehehe...
Fomos pedalando no escuro mesmo até a casa onde estava o PCO. Era só 1 km, pensamos. Eu já estava alucinando direto a essa altura. Já tinha visto cachorro, saci, cobra, jacaré, casa, tudo na beira da estrada. Ao chegar na casa abandonada, como estávamos sem luz, bati umas fotos com flash para ver se achava a placa do PC. Achamos. Na casa, tinha umas pessoas andando de um lado pro outro, outras debruçadas na janela me olhando e umas andando no quintal do fundo. Nem entrei, tirei nossa foto de fora mesmo e falei: “Vamos, Lu, porque tem gente demais nessa casa!” Até hoje não sei se foi alucinação ou um “I see dead people” mesmo! KKKKKK
Casa abandonada cheia de gente.
Agora só faltavam 5 km até a chegada. Mortos, cansados e cegos pela escuridão, além do cisco que entrou no olhos da Lu no Arizona, fomos. O ritmo foi aquele... 28 horas de prova, no escuro e acabados. Tartaruga brocando em baixa! Entramos em Piçarrão com a alegria de quem terminava a prova, mas não qualquer prova, o Desafio dos Sertões. Quatro anos depois, o Sertão recebia a minha revanche, o Sertão estava domado... ou não. Com o Sertão, convém não brincar. O lugar é inóspito, é seco, é brutal. Agradeço novamente a Waltinho, Daniel e toda a equipe pela oportunidade. Agradeço aos amigos de dor e sofrimento. Agradeço à minha mulher, meu amor e companheira de aventuras, venturas e desventuras.
Premiação da Dupla Mista - 3o Lugar - com o quarteto. Lu, Waltinho, Mauro, Gabi, Scavuzzi e Eu. Faltou Vande.
Aprendi a respeitar o Sertão e talvez por isso, Ele tenha me deixado chegar até o fim. Cruzamos o pórtico sem testemunhas, sem fotos, sem cornetas ou fogos. Só nós e o Sertão, carregando além das mochilas e a experiência ímpar, a certeza de que essa é a vida que eu quero pra mim.


sábado, 8 de julho de 2017

Trilha Salkantay- Dia 3- Chaullay a Águas Calientes- Muitos Km!


   Café robusto com mingau de aveia, ovos revueltos sem tempero, café com leite e pão! Maravilha pra começar um trekking de 35km. Com planos de surpreender as expectativas locais, certos de que não teríamos dificuldade com altitude nesse trecho, queríamos chegar em Águas Calientes ainda de dia. Na pior das hipóteses, chegar na Hidroelétrica de dia, já que o caminho dali em diante era pela linha do trem.
   Às 5:50h a gente já estava com o pé na estrada fazendo o vídeo inicial da trilha. Sempre sozinhos nessa parte da viagem, seguimos pelo estradão até uma ponte, onde uma trilha atravessava para o lado esquerdo do rio Urubamba. Trilha linda que contornava um paredão do vale, enquanto do outro lado do rio a estrada contornava o outro, até se encontrarem outra vez em La Playa, em outra ponte.   Poucas subidas, mata verde escura, pontes de madeira que nos ajudavam a transpor as cachoeiras que desciam das montanhas. Caminhávamos animadíssimos, curtindo a paisagem, os bichos e o barulho do rio. Encontramos plantações, um pequeno camping e uma vendinha de bebidas e frutas pelo caminho. Sempre tem um lugar pra comprar água e comida, mesmo que seja só salgadinho industrializado.




   Em La Playa (2350m de altitude), depois de uns 15km de Chaullay, rolou uma paradinha rápida pra tirar o peso da mochila das costas, beber algo e comprar umas frutas. E seguimos em conversa tão animada que aumentamos a velocidade. Descendo uma ladeira, fizemos um vídeo para os nossos amigos que não puderam ir, Mauro e Gabi... Com 16km, percebemos que a ponte que esperávamos não tinha passado e que, talvez, estivéssemos no caminho errado. Mas como que só tinha aquela estrada no mapa?... Perguntamos... Então?! Aquela estrada não estava no mapa.
   Voltamos para a ponte, subindo a ladeira de volta, respirando ofegantes e tentando recuperar o tempo perdido. Esses 3 km a mais poderiam fazer diferença lá na frente mas a gente só queria achar a ponte e seguir pra Hidroelétrica. Pronto, a ponte!
   Continuamos pela estrada até Lucmabamba, onde ficava a bifurcação pra Llactapata... cada nome de vilarejo, que só Jesus Cristo na causa!... Na bifurcação, uma entrada para a direita com placa enorme, informando “Hidroelétrica 11,9km”
   Sabe aquela história de que não tinha mais subidas? Tudo mentira! Morri de subir ladeira! Mais de 5km, parando só pra fingir que estava contemplando a natureza. Quase no fim da subida, as vozes de crianças nos animaram muito. Mais uma vendinha de frutas, salgadinhos, doces e bebidas, e coca-cola. A menina disse que a gente subia só mais um pouco e encontrava os pampas. É isso aí, animação!! Daqui em diante tem pampas, eu pensava. Oba!


   Continuamos a subir a morrer até os pampas. Lá em cima, muito em cima mesmo, tinha outra vendinha com uma senhora muito simpática que deixou a gente usar a mangueira para lavar as mãos e o rosto. Vitor se deliciou com um abacate com açúcar, eu comi banana e continuamos. Mas a senhora quis nos mostrar uma coisa, pedindo que a seguíssemos pela trilha. Abandonou sua vendinha e foi com a gente até uma bifurcação. Pra frente seguiríamos pelo nosso caminho e pra esquerda, ela retirou umas barreiras e nos levou até um barranco descampado de onde dava pra ver Machu Picchu inteirinha, lá embaixo, e a Hidroelétrica, mais lá embaixo ainda.
   Perplexa, várias frases viam à cabeça ao mesmo tempo:
  •         Meu Deus, como subimos!!!
  •         Jesus Maria José, como está longe!
  •         Putz! A hidroelétrica é mais longe ainda!
  •         Uau, que lindo!
  •         Por quanto tempo mesmo vamos andar por esses pampas?

   Gente, a conta dos 34, 35km não estava fechando. Nos despedimos da senhora simpática e começamos a descer. E os pampas? Os meus pés começavam a dar sinais de cansaço, uma unha começou a avisar que sairia do dedos, o quadríceps disse que estava presente e a cabeça informava pra todo mundo que o trabalho em equipe era super importante naquele momento. Não aguentava mais descer em zigue-zague. Um penhasco escorregadio, uma descida muito mais cruel do que todas ficou ali, reservada para o último dia. Escondida, minha gente!! Ninguém avisou desse suplício. Não dava pra enxergar o fim do buraco, não dava pra ver o rio, mesmo quando a vegetação abria.
   Uns 5km descendo a floresta, até que encontramos uma ponte para atravessar o rio e chegar na estrada. Daquelas pontes que balançam tanto que a gente tem que segurar nas laterais e, se cair, morre. Vitor morreu de medo e nem quis tirar uma fotinha pra registrar, rs! E a estrada ainda seguia por uns 2km infinitos.


   Na entrada da hidroelétrica, registramos nossos passaportes, seguindo para a linha do trem exatamente às 16:10h. Olha só que delícia! Andamos horrores e ainda chegamos de dia pra o trekking da linha do trem.


   Foi a hora da caminhada que tivemos companhia de outras pessoas por perto. Vários mochileiros faziam o mesmo. Ao invés de pegar o trem, iam caminhando. Como seriam duas horas de trekking, nos animamos, acelerando o passo pra chegar o mais rápido possível. Deu duas horas de caminhada, escureceu e nada de Águas Calientes. O peso da mochila, os calos nos pés, a unha solta... Tudo incomodava nas pedras soltas da linha do trem. Ligamos as lanternas e continuamos nosso suplício, que até ali contava mais 45km. Passamos pela entrada de Machu Picchu, por dois túneis e avistamos as luzes.
   Veio um sentimento de gratidão, misturado com a serenidade da certeza de que conseguiríamos.  Uma alegria boa. Mas, sofrimento pouco é bobagem! Depois de entrar na vila pela linha do trem, descobrimos que o hostel ficava na parte mais alta da vila. Rimos das nossas próprias caras!! KKK! Os dois fedorentos, tipo bicho-grilo, subindo a ladeira, acabados, enquanto um monte de gente descia de bota com salto, casacos arrumados... Piada pronta que a gente se acaba na resenha. Afinal, nosso quarto ainda ficava no terceiro andar.
   Pois é! Conseguimos fazer a trilha Salkantay em três dias. O argentino da Peru Goyo Expedition precisava saber do nosso feito! A gente riu na cara do desafio. A gente jogou duro! Sem mula, sem carregador, sem carro, mochila no lombo e pé na trilha!
   Enfim, mandamos as roupas pra lavanderia porque o fedor estava horrível, tomamos um banho e descemos de sandália havaiana pra o restaurante Índio Feliz pra comer comida de verdade e tomar um porre de Pisco Sour. Viva nóis!!
   Ah! Eu quero fazer um agradecimento muito especial ao meu marido. Ele quis casar comigo mesmo sabendo que eu fazia essas coisas doidas, mesmo sabendo que invento muita arte. Das nossas melhores aventuras, essa foi a mais incrível! E mesmo com todo perrengue da caminhada, do frio, altitude, cheguei ao final com aquela velha certeza de que esse é o cara com quem quero passar o resto da vida. Gratidão!




Trilha Salkantay- Dia 2- Soraypampa a Chaullay- 20km

   Noite fria e chão duro! O saco de dormir não deu conta na categoria conforto. Os ossos do quadril não encontraram posição sem doer naquele chão de madeira. As meias não deram conta do frio em sua totalidade. Dormia apenas o tempo de doer muito o quadril para mudar de posição por causa da dor. Pensava o tempo inteiro no Humantay, na dor no quadril e no frio nos pés. Reflexão demais da conta!
   O acampamento estava muito cheio. Perto das 5h da manhã, os guias começavam a acordar seus pupilos e a nós, por tabela. Decidimos esquecer o Humantay, tomar café em D. Andrea e seguir nosso caminho rumo à Chaullay. Até então não tínhamos certeza de que o hostel reservado existia mas, no ruim de tudo, acamparíamos outra vez. Ninguém sabia informar sobre o Salkantay Hostel. Paciência!

O amanhecer.


   Realmente, a subida do Salkantay é indócil! A passos de tartaruga, dividindo a trilha com mulas mancas, guias apressados e alguns trilheiros. A sensação de lentidão era sentida até na hora de tirar uma foto. Cada passo uma vitória, e a cada olhada pra trás a paisagem incrível no vale. Aliás, qualquer lado era cenário de cinema. Então, o que fizemos foi dosar o ritmo e aproveitar o visual.
   A subida de 7km do Salkantay (4625m) durou cinco horas. Seguramente, um dos lugares mais lindos que meus olhos puderam ver a partir de todos os ângulos. A respiração voltou ao normal. Contemplamos, refletimos, fotografamos...






   Do outro lado, outro vale com um rio margeando o lado direito da trilha. Bem lá longe, avistávamos umas casinhas. Descemos a passos rápidos, felizes com a conquista do Salkantay e dando graças por não termos tentado subir o Humantay pela manhã. Realmente não seria bom.


   A paisagem deslumbrante nos acompanhava, junto com o barulho do rio. Uma descida deslumbrante  rumo ao vale que mergulhava na floresta. Chegando nas casinhas, qualquer lugar onde servia refeição estava destinado aos grupos guiados. O chão parecia um campo de guerra, de tanta gente sequelada, com pés machucados e caras vermelhas.
   Encontramos uma vendinha com bebidas e salgadinhos. A coca-cola geladinha ao ar livre caiu muito bem com nosso atum enlatado. Quem precisa de geladeira naquela temperatura? Rs!


   A partir dali, faltavam uns 9km descendo até Chaullay a 2900m de altitude. Tome-lhe quadríceps e joelhos! Como deixamos a turma do campo de guerra descansando, acabamos fazendo o trekking sentindo aquela solidão aliviada, interrompida pela passagem das mulas de carga, visivelmente cansadas, e pelos cozinheiros e guias, sempre apressados. Situação que nos causou um desconforto muito grande.
   A vegetação mudou completamente para o verde escuro de floresta amazônica, onde mergulhamos. O Salkantay ficava pra trás, enquanto Vitor tagarelava. Disparou a refletir sobre o contexto social do Peru, desigualdades sociais, exploração do povo daquela região com o turismo, sofrimento dos animais. Depois começou a falar sobre as experiências que a gente leva dessa vida, todas as informações que a gente guarda, o valor do dinheiro, sobre comprar um carro caro ou viajar.. Então veio o papo sobre a dimensão espaço-tempo, a dobra do universo... Ãh?! KKKK! Àquela altura eu estava viajando no espaço e no tempo. Gente, ele fala muito! E eu ali, toda trabalhada na reflexão.


   Enquanto isso, as mulas desciam levando utensílios, mochilas e barracas. Morri de pena! Muita descida! As perninhas delas chegavam a tremer com o peso.


   Conversa vai, conversa vem... Fechando um total de 9 horas de trekking, finalmente, chegamos em Chaullay! E não é que o nosso hostel existia! O único problema foi que o dono não estava lá e lugar não era exatamente como pensávamos. Mas a mãe do rapaz, que falava o dialeto Quechua, conseguiu arrumar a acomodação pra gente, com a ajuda de um “translater”, irmão do Manoel, que chegaria no fim da tarde.
   Enquanto eu acomodava as coisas no quarto, Vitor saiu à procura de um lugar pra comermos algo que não fosse os lanches de trilha. Voltou com uma notícia maravilhosa! D. Guillermina faria truta com arroz e salada, pescada do seu próprio criadouro. Enquanto isso, um banho seria uma ótima pedida, depois de dois dias inteiros de corpitcho sujo.
   O hostel que reservamos pelo Booking ficava dentro do acampamento, numa estrutura de madeira e madeitite, sendo que algumas paredes eram de papelão. Acho que faltou madeirite, rs! No quarto tinha duas camas meio-casal, tomadas com fiação improvisada dentro de tubos de PVC. A porta só fechava de dentro pra fora. De fora pra dentro, só teria chave quando Manoel chegasse. Praticamente, o paraíso dentro do paraíso! Banheiro compartilhado com água quente, toalha limpa, cama com colchão fofo e quentinho. Tudo dentro de um vale que só cabia umas casinhas, o camping, o rio e a estradinha.
   Limpos e cheirosos, atravessamos um córrego e tangemos umas mulas pra chegar no bar de D. Guillermina. Ao som de despacito, aguardávamos nosso jantar com ansiedade. Que delícia de jantar!!!
   O irmão de Manoel, intérprete da “mama”, ficou assustado com nossos planos do dia seguinte. De Chaullay até Águas Calientes (Machu Picchu Pueblo) era uma caminhada muito longa, dizia ele, oferecendo condução até La playa, pra aliviar o percurso. Sugeriu que dormíssemos em algum lugar porque, direto por Llactapata seriam mais de 13 horas... Pessoalzinho baixo astral, querendo estragar nossos planos. Rs!
   Quando Manoel chegou, pediu mil desculpas por não ter nos recebido. Embora igualmente assustado com nossos planos, deu várias dicas para o trekking até Águas Calientes. Avaliou que chegaríamos em, no mínimo, 13 horas e combinou nosso café da manhã às 5h.
   Nem preciso contar que dormi como um anjo...