terça-feira, 12 de setembro de 2017

Desafio dos Sertões 2017: o dia em que o Sertão nos deixou ganhar.

POR VITOR HUGO MOREAU

O Desafio dos Sertões é uma das provas mais aguardadas do Campeonato Baiano de Corrida de Aventura, principalmente por não ter ocorrido no ano passado, por eu ter feito a proposta de casamento para Luciana no briefing da corrida em 2014 e, ainda mais, por eu não ter conseguido completar as edições de 2013 e 2015. Mesmo tendo ficado em 3º lugar entre os quartetos em 2014, não tive minha revanche porque neste ano, o Desafio não foi exatamente no sertão da região de Juazeiro, como de praxe. Minha vingança contra o Sertão ainda estava travada na boca, esperando para ser engolida.
Vínhamos, eu e Lu, fazendo um treinamento visando o Desafio dos Sertões. Pra isso, contamos com suporte da queridíssima e competentíssima Fernanda Piedade, treinadora cruel e divertida (sim, isso é possível!). Além disso, eu vinha há dois meses adaptando uma dieta cetogênica para suportar os 130 km da prova sem passar mal por falta de comida, o que vinha causando certo estresse na minha parceira e na minha treinadora. Nem o treino de corrida simulada que fizemos na semana anterior – 75 km em 7 horas – foi suficiente para garantir a confiança da Luciana. Era preciso mais, era preciso vencer o Sertão.
Saindo de casa.
Saímos de Lauro de Freitas com o carro carregado de coisas de aventura na quinta pela manhã. Com a corrida marcada para sexta a noite, seria ótimo chegar sem pressa, descansar, encontrar amigos e nos preparar com calma para a largada as 22:30. O preparativo é uma estória a parte e precisa ser contada. Chegamos a Petrolina de noite e fomos direto para a casa de Pezão e Malena, amigos queridíssimos que conhecemos nas corridas e que apelidamos carinhosamente de “casalzinho”. Quem os conhece, já pode imaginar o por que. Eles arrumaram um village para toda a nossa equipe no condomínio deles. Ficamos lá do jeito que gostamos, sem luxo, mas todo mundo junto: eu, Lu, Mauroba, Gabi e Scavuzzi.
Casalzinho, antes da largada. Thunder Adventure, depois... kkkk
 A maior farra... Ainda deu tempo de comermos um sensacional hambúrguer gourmet feito por Cássio Insanos – sem pão, no meu caso. Foi uma oportunidade de bons encontros e relax antes da prova. Na sexta, ainda almoçamos um bode na brasa com amigos queridos Gilson, Gaia, Arnaldo entre outros que já conhecíamos ou que conhecemos na hora. Corrida de Aventura é sempre isso, farra primeiro, competição depois e farra, de novo, por último.
Confraternização na Hamburgueria do Cássio.
Preparativos e estresses, como sempre, partimos para Petrolina após o almoço e chegamos a Piçarrão, local da largada. Deu tempo de cumprimentar todo o povo, vestir as roupas, comer, assistir ao briefing, aquecer. A largada atrasou um pouco e às 11:00, soltavam-se os fogos da partida. Finalmente, começava o Desafio dos Sertões. Nossa primeira perna seria uma corrida até o PC1, nas margens do lago de Sobradinho. Como já tínhamos deixado as bikes no PC5, que era no meio do caminho, já sabíamos pra onde ir, então guardamos o mapa e fomos correndo. 7 km até o PC1 com o vento empurrando, foi ótimo. Pegamos o PC1 e seguimos para o resto do trekking, já que o remo (PCs 2, 3 e 4) tinham sido adiados para o fim da prova.
video

 Batemos o azimute e seguimos no ritmo frenético de início de corrida. Daí o erro fatal – ou quase. Na pressa, não percebi que havia retirado a declinação da minha bússola para competir na Corrida de Orientação, onde o mapa já é declinado. Bati o azimute errado e acabamos cortando para o outro lado da estrada. Por azar, do lado errado tinha uma trilha com o mesmo azimute que a trilha certa (30º ). Não tivemos dúvida, entramos... e não saímos nunca mais. Ou melhor, saímos, mas duas horas depois. Foi um rasga mato, volta na trilha, tenta de novo, até decidirmos voltar tudo até a estrada e descobrir onde erramos. Percebemos que estávamos bem fora da estrada correta e tivemos que rodear o morro para procurar a trilha. No caminho, encontramos Gaia – que nessa prova era nosso concorrente com “A Menina de São Paulo” que ele trouxe pra puxar ele (rsrsrs), Gilson e Arnaldo. Eles já tinham pego o PCB, mas preferiram rodear de volta o morro para pegar o PCA e o PCC. Não havia trilha entre o PCB e o PCA, então quem quisesse cruzar sem rodear 7 km teria que rasgar mato morro acima. Decidimos rasgar. Entramos na trilha – a certa dessa vez – e pegamos o PCB. Encontramos a BB Brindes e as Penélopes do Agreste, que estavam batendo cabeça no PCB e seguimos juntos rumo ao rasga-mato-morro-acima para o PCA. Foi duro! Enxergávamos as luzes do povo perdido no alto do morro. Muito alto mesmo. Parecia que a gente nunca ia chegar lá. E a subida?! Toda de pedra solta! Em alguns momentos, tínhamos que andar engatinhando para subir. Revezei com Plínio o papel do rompe mato e seguimos. Quando estava na frente, era sofrido, mas quando estava atrás, tinha que tentar ignorar a bunda grande do Omar engatinhando na minha frente e continuar, achando graça daquilo tudo! Hehehehe.
PC C depois de rasgar mato e subir pedra.
Mantemos o azimute e saímos na trilha entre o PCA e o PCB. Decidimos subir primeiro e depois descer para o PCA. Que subida miserável! Só não tinha mato, mas pedra solta de montão. Muito íngreme. Chegamos ao PCC, numa antena no alto do morro. Como é bom ir chegando no cume e sentir a brisa. Que alívio! Sempre rola uma piadinha, tipo: “só o cume interessa” ou “sente a brisa que no cume bate”... Foto do PCC e descida escabrosa nas pedras soltas até o PCA, na virada da cerca. Não acabava aí. Continuamos descendo fortemente até a beira do lago. Já amanhecia quando chegamos ao PC5 para pegar as bikes.
Comer, beber, equipar e sair. Tudo muito objetivo. Saímos de bikes em direção ao Piçarrão para atravessar a pista e seguimos para o PC6, no povoado de Pau de Colher, depois, o PCD, na beira da estrada. Para chegar ao PC7, uma subida de 6 km. Concentração... o sol já estava forte no início da manhã e muitas equipes já ficavam pelo caminho, empurrando as bikes na subida. Passamos pelas turbinas eólicas e me impressionei com o tamanho. As hélices passam por nós a milhão, embora de longe pareça que elas rodam devagar, chega a dar medo daquele treco soltar e sair varrendo tudo igual filme de Transformers. Na decida, chegando ao PC7, que foi uma transição para o trekking no povoado de São Pedro, cruzamos com a Makaíra (quarteto) já voltando e um dos atletas gritou: “as duplas mistas acabaram de sair!” Achei legal a preocupação dele em nos avisar, mas depois daquela subida, confesso que tinha pouco fôlego pra correr atrás de alguém. Queria era fazer a minha prova e chegar bem.
Chegando ao PC7, deixamos as bikes e seguimos para o trekking pelo vale, morro acima, é claro. Subimos o leito seco do rio pegando o PCE, PCF e PCG sem dificuldade; todos nos locais exatos. Chegando ao PCH, encontramos Gaia, que nos olhou com visível espanto de quem não esperava nos encontrar ali. Confirmei sua surpresa quando ele perguntou: “tiveram dificuldade no PCE?” e eu com a cara mais lavada: “não, dificuldade nenhuma...” KKKKK. Só sei que quando virei para tirar a foto do PC, Gaia e “Menina de São Paulo” já tinham sumido... deixado Arnaldo e Gilson, até então companheiros de jornada, para trás. KKKK Eu acho isso uma sacanagem. O cara é amigo, sócio, sobrinho só até os adversários aparecerem... Quando o bicho pega, é “peraí tio, que eu tenho que dar um gás aqui pra esses caras não me passarem!” KKK Me senti elogiado. Gaia é um atleta experiente, campeão brasileiro e bruto, mesmo com pouco treino, tem lastro, e correr porque me viu me deixou de certa forma, orgulhoso. Continuamos o trekking sem comer a pilha de ir atrás deles, focados no objetivo de terminar bem a prova. Lu e eu nem cogitamos essa possibilidade, seria um desgaste desnecessário e não temos esse perfil. Sempre fazemos a nossa prova e o resto vem como consequência.
Voltando do PCH em direção ao PC7, que agora era PC8 para pegar as bikes de novo, passamos por um dos trechos mais difíceis da prova: um trekking de 6 km ladeira acima sob o sol de meio dia do sertão. A única coisa que me consolava era a vendinha em São Pedro que tinha água e coca-cola geladas. Andei o tempo todo pensando nisso... Decidimos pegar as bikes na escolinha de São Pedro e só depois irmos ao bar. Tomei um banho de bica na escolinha, equipamos e partimos. Cem metros até o bar, onde água e coca gelada nos esperavam. Eu estava quase botando os bofes pra fora quando tomei aquela coca super gelada. Que alívio! Parece que minhas forças voltaram. Lu tomou até um cafezinho oferecido pela dona do bar. Revigorados e reidratados, seguimos nosso caminho rumo ao PCI e o PCJ. Chegamos de volta ao PC6, que agora já era PC9, em Pau de Colher. Esse foi um “down hill” dos mais legais da prova. Uma trilhazinha bem pedregosa que testou um pouco das nossas técnicas de mountain bike. O sol já começava a abrandar e o ânimo voltou. Bem divertido!
Em compensação, um dos piores trechos estava por vir. De Pau de Colher até o PCL o caminho era cheio de areais. Um empurra bike chatíssimo! Toda hora tínhamos que parar pra empurrar um pouco. Quando achávamos que o terreno iria melhorar, começou uma subida insubível. Não sei como Walter e Daniel chegaram lá em cima... moto? 4x4? Helicóptero? Pedalando é que não foi, se não iam ter pena de mandar a gente praquele boqueirão, carregando as bicicletas no lombo! No alto do morro, pulando uma cancela, chegamos à entrada da trilha para o PCL. Embaixo do PC, um singelo bilhete: “Não usar a trilha para Arizona, ir pelo estradão”. Me esqueci de perguntar o porque, mas achamos prudente seguir o conselho e fazer a volta pelo estradão até Arizona, onde estava o PC10.
Não sei por que, mas criamos uma idéia de que em Arizona teria um barzinho para comprar outra coca-cola... Doce ilusão. O lugar parece mesmo com o nome; só tinha areia, vento e breu. Só faltou a bola de feno rolando e os pistoleiros fazendo duelo, o resto tudo era faroeste puro. Pedi 15 minutos pra minha parceira para tirar um cochilo – o que ela atendeu parcialmente, hehehe – dei umas lambidas em um doce que me deram que tinha uma textura péssima, acho que era biscoito com goiabada. Eu estava com tanto sono que nem consegui distinguir o que era... kkkkk. Mas o rapaz que me ofereceu o doce também me deu um Gatorade em pó que foi minha salvação. Encontramos novamente Gilson e Arnaldo e seguimos rumo ao trekking em parceria. O percurso era até bonito, apesar da noite e do vento frio. Subimos uma serrinha, descemos do outro lado e encontramos o olho d´água onde ficava o PCK. O lugar parecia lindo, mesmo sendo noite. Fiquei com vontade de voltar lá de dia, era um oásis no meio do sertão. Uma nascente saindo de duas pedras enormes e formando um lago que parecia ser cristalino. Só deu tempo de fotografar o PC e sair em direção ao PCM.
Seguimos a trilha meio plana, já apresentando sinais de cansaço. Já estávamos em quase 24 horas de prova. Nessas alturas, o pessoal viu onça, saci, caapora e tudo mais que o povo sempre vê na mata a noite. Demoramos um pouco a achar o PCM, mas encontramos a trilha e batemos. Seguindo uma ravina na rocha, descemos até a lagoa, de volta ao PC11, o mesmo local que o PC10 em Arizona. Nesse momento, já estávamos mirando o fim da prova. Faltavam só 25 km de bike e dois PCs, já que a canoagem tinha sido cancelada por má condição do tempo no lago de Sabradinho. Saímos junto com Arnaldo e Gilson que logo se destacaram e seguiram em frente. Eu e Lu estávamos com muito sono e seguimos um pouco mais devagar. Eram 10 km até o PCP e passamos por Arnaldo e Gilson dormindo. Não resistiram e resolveram dar uma parada. A gente não podia se dar a esse luxo, Thunder Adventure – a do casalzinho, Pezão e Malena, que a essa altura já tinham deixado de ser amigos pra se tornar adversários (kkkk) - estavam atrás, ou pelo menos assim achávamos. Pegamos o PCP. O PCN, que era opcional, tinha sido cancelado. Arnaldo e Gilson passaram de novo por nós no PCP e se foram novamente. Faltando 3 km para o PCO, nossas lanternas começaram a se apagar progressivamente. O pedal que já estava difícil por conta da areia, do sono e do cansaço de 27 horas de prova, se tornou um suplício. Ficamos entre dormir até de manhã – e correr o risco de tomarmos um balão da Thunder – ou empurrar as bikes até o dia amanhecer. Preferimos pedalar à luz da Lua mesmo. Seguimos pela estrada sem iluminação, tendo que tatear o caminho com a roda da bike para não perder tempo. Encontramos a entrada do PCO na estrada, a 1 km do PC. Na cancela, encontramos de novo Gilson e Arnaldo que já voltavam e assim como vieram, partiram, com suas lanternas fortes iluminando o caminho e nos deixando mortos de inveja. Hehehe...
Fomos pedalando no escuro mesmo até a casa onde estava o PCO. Era só 1 km, pensamos. Eu já estava alucinando direto a essa altura. Já tinha visto cachorro, saci, cobra, jacaré, casa, tudo na beira da estrada. Ao chegar na casa abandonada, como estávamos sem luz, bati umas fotos com flash para ver se achava a placa do PC. Achamos. Na casa, tinha umas pessoas andando de um lado pro outro, outras debruçadas na janela me olhando e umas andando no quintal do fundo. Nem entrei, tirei nossa foto de fora mesmo e falei: “Vamos, Lu, porque tem gente demais nessa casa!” Até hoje não sei se foi alucinação ou um “I see dead people” mesmo! KKKKKK
Casa abandonada cheia de gente.
Agora só faltavam 5 km até a chegada. Mortos, cansados e cegos pela escuridão, além do cisco que entrou no olhos da Lu no Arizona, fomos. O ritmo foi aquele... 28 horas de prova, no escuro e acabados. Tartaruga brocando em baixa! Entramos em Piçarrão com a alegria de quem terminava a prova, mas não qualquer prova, o Desafio dos Sertões. Quatro anos depois, o Sertão recebia a minha revanche, o Sertão estava domado... ou não. Com o Sertão, convém não brincar. O lugar é inóspito, é seco, é brutal. Agradeço novamente a Waltinho, Daniel e toda a equipe pela oportunidade. Agradeço aos amigos de dor e sofrimento. Agradeço à minha mulher, meu amor e companheira de aventuras, venturas e desventuras.
Premiação da Dupla Mista - 3o Lugar - com o quarteto. Lu, Waltinho, Mauro, Gabi, Scavuzzi e Eu. Faltou Vande.
Aprendi a respeitar o Sertão e talvez por isso, Ele tenha me deixado chegar até o fim. Cruzamos o pórtico sem testemunhas, sem fotos, sem cornetas ou fogos. Só nós e o Sertão, carregando além das mochilas e a experiência ímpar, a certeza de que essa é a vida que eu quero pra mim.


sábado, 8 de julho de 2017

Trilha Salkantay- Dia 3- Chaullay a Águas Calientes- Muitos Km!


   Café robusto com mingau de aveia, ovos revueltos sem tempero, café com leite e pão! Maravilha pra começar um trekking de 35km. Com planos de surpreender as expectativas locais, certos de que não teríamos dificuldade com altitude nesse trecho, queríamos chegar em Águas Calientes ainda de dia. Na pior das hipóteses, chegar na Hidroelétrica de dia, já que o caminho dali em diante era pela linha do trem.
   Às 5:50h a gente já estava com o pé na estrada fazendo o vídeo inicial da trilha. Sempre sozinhos nessa parte da viagem, seguimos pelo estradão até uma ponte, onde uma trilha atravessava para o lado esquerdo do rio Urubamba. Trilha linda que contornava um paredão do vale, enquanto do outro lado do rio a estrada contornava o outro, até se encontrarem outra vez em La Playa, em outra ponte.   Poucas subidas, mata verde escura, pontes de madeira que nos ajudavam a transpor as cachoeiras que desciam das montanhas. Caminhávamos animadíssimos, curtindo a paisagem, os bichos e o barulho do rio. Encontramos plantações, um pequeno camping e uma vendinha de bebidas e frutas pelo caminho. Sempre tem um lugar pra comprar água e comida, mesmo que seja só salgadinho industrializado.




   Em La Playa (2350m de altitude), depois de uns 15km de Chaullay, rolou uma paradinha rápida pra tirar o peso da mochila das costas, beber algo e comprar umas frutas. E seguimos em conversa tão animada que aumentamos a velocidade. Descendo uma ladeira, fizemos um vídeo para os nossos amigos que não puderam ir, Mauro e Gabi... Com 16km, percebemos que a ponte que esperávamos não tinha passado e que, talvez, estivéssemos no caminho errado. Mas como que só tinha aquela estrada no mapa?... Perguntamos... Então?! Aquela estrada não estava no mapa.
   Voltamos para a ponte, subindo a ladeira de volta, respirando ofegantes e tentando recuperar o tempo perdido. Esses 3 km a mais poderiam fazer diferença lá na frente mas a gente só queria achar a ponte e seguir pra Hidroelétrica. Pronto, a ponte!
   Continuamos pela estrada até Lucmabamba, onde ficava a bifurcação pra Llactapata... cada nome de vilarejo, que só Jesus Cristo na causa!... Na bifurcação, uma entrada para a direita com placa enorme, informando “Hidroelétrica 11,9km”
   Sabe aquela história de que não tinha mais subidas? Tudo mentira! Morri de subir ladeira! Mais de 5km, parando só pra fingir que estava contemplando a natureza. Quase no fim da subida, as vozes de crianças nos animaram muito. Mais uma vendinha de frutas, salgadinhos, doces e bebidas, e coca-cola. A menina disse que a gente subia só mais um pouco e encontrava os pampas. É isso aí, animação!! Daqui em diante tem pampas, eu pensava. Oba!


   Continuamos a subir a morrer até os pampas. Lá em cima, muito em cima mesmo, tinha outra vendinha com uma senhora muito simpática que deixou a gente usar a mangueira para lavar as mãos e o rosto. Vitor se deliciou com um abacate com açúcar, eu comi banana e continuamos. Mas a senhora quis nos mostrar uma coisa, pedindo que a seguíssemos pela trilha. Abandonou sua vendinha e foi com a gente até uma bifurcação. Pra frente seguiríamos pelo nosso caminho e pra esquerda, ela retirou umas barreiras e nos levou até um barranco descampado de onde dava pra ver Machu Picchu inteirinha, lá embaixo, e a Hidroelétrica, mais lá embaixo ainda.
   Perplexa, várias frases viam à cabeça ao mesmo tempo:
  •         Meu Deus, como subimos!!!
  •         Jesus Maria José, como está longe!
  •         Putz! A hidroelétrica é mais longe ainda!
  •         Uau, que lindo!
  •         Por quanto tempo mesmo vamos andar por esses pampas?

   Gente, a conta dos 34, 35km não estava fechando. Nos despedimos da senhora simpática e começamos a descer. E os pampas? Os meus pés começavam a dar sinais de cansaço, uma unha começou a avisar que sairia do dedos, o quadríceps disse que estava presente e a cabeça informava pra todo mundo que o trabalho em equipe era super importante naquele momento. Não aguentava mais descer em zigue-zague. Um penhasco escorregadio, uma descida muito mais cruel do que todas ficou ali, reservada para o último dia. Escondida, minha gente!! Ninguém avisou desse suplício. Não dava pra enxergar o fim do buraco, não dava pra ver o rio, mesmo quando a vegetação abria.
   Uns 5km descendo a floresta, até que encontramos uma ponte para atravessar o rio e chegar na estrada. Daquelas pontes que balançam tanto que a gente tem que segurar nas laterais e, se cair, morre. Vitor morreu de medo e nem quis tirar uma fotinha pra registrar, rs! E a estrada ainda seguia por uns 2km infinitos.


   Na entrada da hidroelétrica, registramos nossos passaportes, seguindo para a linha do trem exatamente às 16:10h. Olha só que delícia! Andamos horrores e ainda chegamos de dia pra o trekking da linha do trem.


   Foi a hora da caminhada que tivemos companhia de outras pessoas por perto. Vários mochileiros faziam o mesmo. Ao invés de pegar o trem, iam caminhando. Como seriam duas horas de trekking, nos animamos, acelerando o passo pra chegar o mais rápido possível. Deu duas horas de caminhada, escureceu e nada de Águas Calientes. O peso da mochila, os calos nos pés, a unha solta... Tudo incomodava nas pedras soltas da linha do trem. Ligamos as lanternas e continuamos nosso suplício, que até ali contava mais 45km. Passamos pela entrada de Machu Picchu, por dois túneis e avistamos as luzes.
   Veio um sentimento de gratidão, misturado com a serenidade da certeza de que conseguiríamos.  Uma alegria boa. Mas, sofrimento pouco é bobagem! Depois de entrar na vila pela linha do trem, descobrimos que o hostel ficava na parte mais alta da vila. Rimos das nossas próprias caras!! KKK! Os dois fedorentos, tipo bicho-grilo, subindo a ladeira, acabados, enquanto um monte de gente descia de bota com salto, casacos arrumados... Piada pronta que a gente se acaba na resenha. Afinal, nosso quarto ainda ficava no terceiro andar.
   Pois é! Conseguimos fazer a trilha Salkantay em três dias. O argentino da Peru Goyo Expedition precisava saber do nosso feito! A gente riu na cara do desafio. A gente jogou duro! Sem mula, sem carregador, sem carro, mochila no lombo e pé na trilha!
   Enfim, mandamos as roupas pra lavanderia porque o fedor estava horrível, tomamos um banho e descemos de sandália havaiana pra o restaurante Índio Feliz pra comer comida de verdade e tomar um porre de Pisco Sour. Viva nóis!!
   Ah! Eu quero fazer um agradecimento muito especial ao meu marido. Ele quis casar comigo mesmo sabendo que eu fazia essas coisas doidas, mesmo sabendo que invento muita arte. Das nossas melhores aventuras, essa foi a mais incrível! E mesmo com todo perrengue da caminhada, do frio, altitude, cheguei ao final com aquela velha certeza de que esse é o cara com quem quero passar o resto da vida. Gratidão!




Trilha Salkantay- Dia 2- Soraypampa a Chaullay- 20km

   Noite fria e chão duro! O saco de dormir não deu conta na categoria conforto. Os ossos do quadril não encontraram posição sem doer naquele chão de madeira. As meias não deram conta do frio em sua totalidade. Dormia apenas o tempo de doer muito o quadril para mudar de posição por causa da dor. Pensava o tempo inteiro no Humantay, na dor no quadril e no frio nos pés. Reflexão demais da conta!
   O acampamento estava muito cheio. Perto das 5h da manhã, os guias começavam a acordar seus pupilos e a nós, por tabela. Decidimos esquecer o Humantay, tomar café em D. Andrea e seguir nosso caminho rumo à Chaullay. Até então não tínhamos certeza de que o hostel reservado existia mas, no ruim de tudo, acamparíamos outra vez. Ninguém sabia informar sobre o Salkantay Hostel. Paciência!

O amanhecer.


   Realmente, a subida do Salkantay é indócil! A passos de tartaruga, dividindo a trilha com mulas mancas, guias apressados e alguns trilheiros. A sensação de lentidão era sentida até na hora de tirar uma foto. Cada passo uma vitória, e a cada olhada pra trás a paisagem incrível no vale. Aliás, qualquer lado era cenário de cinema. Então, o que fizemos foi dosar o ritmo e aproveitar o visual.
   A subida de 7km do Salkantay (4625m) durou cinco horas. Seguramente, um dos lugares mais lindos que meus olhos puderam ver a partir de todos os ângulos. A respiração voltou ao normal. Contemplamos, refletimos, fotografamos...






   Do outro lado, outro vale com um rio margeando o lado direito da trilha. Bem lá longe, avistávamos umas casinhas. Descemos a passos rápidos, felizes com a conquista do Salkantay e dando graças por não termos tentado subir o Humantay pela manhã. Realmente não seria bom.


   A paisagem deslumbrante nos acompanhava, junto com o barulho do rio. Uma descida deslumbrante  rumo ao vale que mergulhava na floresta. Chegando nas casinhas, qualquer lugar onde servia refeição estava destinado aos grupos guiados. O chão parecia um campo de guerra, de tanta gente sequelada, com pés machucados e caras vermelhas.
   Encontramos uma vendinha com bebidas e salgadinhos. A coca-cola geladinha ao ar livre caiu muito bem com nosso atum enlatado. Quem precisa de geladeira naquela temperatura? Rs!


   A partir dali, faltavam uns 9km descendo até Chaullay a 2900m de altitude. Tome-lhe quadríceps e joelhos! Como deixamos a turma do campo de guerra descansando, acabamos fazendo o trekking sentindo aquela solidão aliviada, interrompida pela passagem das mulas de carga, visivelmente cansadas, e pelos cozinheiros e guias, sempre apressados. Situação que nos causou um desconforto muito grande.
   A vegetação mudou completamente para o verde escuro de floresta amazônica, onde mergulhamos. O Salkantay ficava pra trás, enquanto Vitor tagarelava. Disparou a refletir sobre o contexto social do Peru, desigualdades sociais, exploração do povo daquela região com o turismo, sofrimento dos animais. Depois começou a falar sobre as experiências que a gente leva dessa vida, todas as informações que a gente guarda, o valor do dinheiro, sobre comprar um carro caro ou viajar.. Então veio o papo sobre a dimensão espaço-tempo, a dobra do universo... Ãh?! KKKK! Àquela altura eu estava viajando no espaço e no tempo. Gente, ele fala muito! E eu ali, toda trabalhada na reflexão.


   Enquanto isso, as mulas desciam levando utensílios, mochilas e barracas. Morri de pena! Muita descida! As perninhas delas chegavam a tremer com o peso.


   Conversa vai, conversa vem... Fechando um total de 9 horas de trekking, finalmente, chegamos em Chaullay! E não é que o nosso hostel existia! O único problema foi que o dono não estava lá e lugar não era exatamente como pensávamos. Mas a mãe do rapaz, que falava o dialeto Quechua, conseguiu arrumar a acomodação pra gente, com a ajuda de um “translater”, irmão do Manoel, que chegaria no fim da tarde.
   Enquanto eu acomodava as coisas no quarto, Vitor saiu à procura de um lugar pra comermos algo que não fosse os lanches de trilha. Voltou com uma notícia maravilhosa! D. Guillermina faria truta com arroz e salada, pescada do seu próprio criadouro. Enquanto isso, um banho seria uma ótima pedida, depois de dois dias inteiros de corpitcho sujo.
   O hostel que reservamos pelo Booking ficava dentro do acampamento, numa estrutura de madeira e madeitite, sendo que algumas paredes eram de papelão. Acho que faltou madeirite, rs! No quarto tinha duas camas meio-casal, tomadas com fiação improvisada dentro de tubos de PVC. A porta só fechava de dentro pra fora. De fora pra dentro, só teria chave quando Manoel chegasse. Praticamente, o paraíso dentro do paraíso! Banheiro compartilhado com água quente, toalha limpa, cama com colchão fofo e quentinho. Tudo dentro de um vale que só cabia umas casinhas, o camping, o rio e a estradinha.
   Limpos e cheirosos, atravessamos um córrego e tangemos umas mulas pra chegar no bar de D. Guillermina. Ao som de despacito, aguardávamos nosso jantar com ansiedade. Que delícia de jantar!!!
   O irmão de Manoel, intérprete da “mama”, ficou assustado com nossos planos do dia seguinte. De Chaullay até Águas Calientes (Machu Picchu Pueblo) era uma caminhada muito longa, dizia ele, oferecendo condução até La playa, pra aliviar o percurso. Sugeriu que dormíssemos em algum lugar porque, direto por Llactapata seriam mais de 13 horas... Pessoalzinho baixo astral, querendo estragar nossos planos. Rs!
   Quando Manoel chegou, pediu mil desculpas por não ter nos recebido. Embora igualmente assustado com nossos planos, deu várias dicas para o trekking até Águas Calientes. Avaliou que chegaríamos em, no mínimo, 13 horas e combinou nosso café da manhã às 5h.
   Nem preciso contar que dormi como um anjo...






sexta-feira, 7 de julho de 2017

Trilha Sankantay- Dia 1- Mollepata a Soraypampa- 20km

   Logo cedo, às 4:20h, seguíamos para rua Arcopata. Nass mochilas, o necessário para sobreviver por 3 dias de trilha e a muda de roupa para Machu Picchu. Num frio de doer, em meio à escuridão, um táxi apareceu do além, cobrando apenas 7 soles para nos levar até o ponto de vans. Um achado!
   A van até Mollepata saiu exatamente às 5 da manhã de Cusco. Enquanto não estava enxergando, tudo certo, mas o dia amanheceu e tudo mudou em minha vida. O motorista buzinava para avisar a quem estava vindo na direção contrária. Algo do tipo "Tô passando!". Fiz uma breve oração de precaução e mantive os olhos fechados. Quando a pista de asfalto acabou, a coisa ficou feia! A van serpenteava loucamente pela estrada de barro estreita, como se não houvesse amanhã. Ainda bem que o movimento para a Mollepata naquele horário era mais de ida do que de vinda. Dava um certo alívio mas cair daqueles penhascos seria mesmo o fim de todos nós.


   Mollepata tem pedágio de 10 soles para gringos. A van parou na entrada do vilarejo, eu e meu querido marido, com cara pescador norueguês (naquela barba enorme que ele decidiu criar), descemos, pagamos o pedágio e entramos novamente para seguir por 5 minutos a mais.
   O motorista tentou nos convencer a ir até Soraypampa de van. E tivemos que negar ajuda por várias vezes, minha gente! Resistindo ao apoio externo a todo momento. Pessoalzinho estraga prazeres!!
   Na praça de Mollepata, o motô indicou o lugar pra tomarmos um café da manhã. Vale ressaltar que muita coisa por aquelas bandas está arrumada para grupos guiados. Então você precisa, algumas vezes, procurar alguém ou algo que não seja “exclusivo”.  
   Não gostei de ovos “revueltos” com tempero mas comi sem reclamar.
   Começamos a caminhada de Mollepata até Soraypampa às 7:30h, com um dia lindo de céu azul. No frio da manhã, a subida começava a partir do primeiro passo e a cada passo a paisagem ficava mais bonita. Não conseguia ficar de boca fechada de tanta ofegância... Pensei que ia morrer umas 5 vezes. Subiríamos mais de 1000m. Na paisagem de tirar o fôlego, as trilhas sinalizadas com plaquinhas azuis eram íngremes e sinuosas. A estrada, os penhascos e vales apareciam através da vegetação, que começou a ficar rasteira à medida que avançávamos.
   Com uns 6km de subida, apareceu um desvio para um mirante que dava pra ver o vale e ter noção do quanto tínhamos subido. Paramos para contemplar, registrar o momento e fazer um xixi.


   No mirante seguinte, km 10 de subida, uma família super simpática conversava animadamente. De lá já dava pra ver o vale até Soraypampa, que ficava lá bem longe, bem pequenininha, com a pontinha do Salkantay ao fundo. Conversamos um pouco com a turma e seguimos por uma trilha que seguia por um canal, aproveitando a dica do guia que acompanhava a família. A água limpíssima descia ao contrário do nosso caminho mas eu tinha a estranha sensação de que nós que estávamos descendo... Uma coisa muito doida!! Olhava pra frente e via descida, mas a água vinha em nossa direção.


   Do lado direito, o vale com a estrada (carretera) serpenteando pra lá e pra cá. Do lado esquerdo o canal e o paredão da montanha.
   Enfim, chegamos em Soraypampa, um lindo vale na Cordilheira dos Andes.
   Por lá tem dois hotéis bem caros que só oferecem hospedagem para pacotes completos. Não atendem ninguém de fora e podem cuspir em você, caso tente aproximação, rs!!! Melhor não ir perguntar onde fica o camping. O pescador norueguês saiu de lá achando graça da pose do recepcionista.
   O vale tem uns três campings bem próximos. Um deles é um barracão azul grande que aparece em várias postagens que encontrei na internet. Como o dono estava completamente bêbado e sua esposa  super envergonhada, passamos reto até um outro barracão onde ficavam as mesas já prontas para a galera dos pacotes, que estava pra chegar. Tudo bonitinho mas... Passei os olhos de Fiscal de Vigilância Sanitária no lugar onde os cozinheiros estavam preparando o jantar e comecei a rezar para Nossa Senhora da Caganeira Profunda. Ali não dava nem pra Notificar, era Interdição Total em nome da Saúde Pública. Mas li em alguns blogs que a comida é muito gostosa. Deve ser!!
   Enfim, um cozinheiro nos orientou a procurar D. Andrea, no fundo do barracão, onde tinha uma vendinha e uma casa. Conseguimos uma Tchoza, lugar que parece uma casinha de índio com chão de madeira, onde se monta a barraca dentro. Fica protegido do vento, da chuva e do frio. Do frio, mais ou menos, rs!
   D. Andrea ficou de preparar um jantar pra nós, enquanto subíamos pra ver a Laguna Humantay, que ficava a 1,2 km do acampamento, perto do céu. Sim! Estávamos tão bem depois de mais de 7 horas de trekking, que montamos a barraca e iniciamos a subida. Entretanto, faltava fôlego, o coração batia no pescoço, perto da língua, e as nossas forças se esvaiam a cada passo. As pessoas lá em cima pareciam muito longe, e as de baixo, idem. Devemos ter subido 1/3 do caminho, nem sei ao certo. Um desgaste enorme! Vitor reclamava, falava em descer pra comer e voltar a subir. Eu achava que, se descêssemos não subiríamos mais. Embora insistisse em continuar, já sentia dor de cabeça e tontura. Nós dois estávamos na mesma situação. Batia um sentimento de frustração enorme, como o de desistir de uma corrida. Voltamos arrasados! Queria muito ver a Laguna mas não deu mesmo.
   Pior é que o jantar de Dona Andrea não desceu de jeito nenhum. Um desconforto que a gente não sabia nem explicar como era. Então resolvemos levar o prato pra barraca pra comer depois de descansar um pouco. Como a sensação desagradável aliviava muito lentamente, tomamos apenas um café com leite e fomos dormir para enfrentar o segundo dia de caminhada.
   Mesmo felizes em termos conseguido fazer os 20km do primeiro dia, refletimos muito naquela noite. Vitor falava em usar o serviço de mula para carregar nossas mochilas mas não dei muita atenção porque sabia que mudaria de ideia quando amanhecesse. De vez em quando ele fala umas bobagens dessas nos momentos de aperto... basta descansar um pouco que isso passa. Corrida de Aventura também tem dessas coisas... A gente fala umas bobagens mas nada como um breve descanso pra mudar de ideia e seguir em frente com o objetivo.