quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Especial de Natal ou Natal Especial?


A vó mais linda do universo!

   Honestamente, não tava dando nada por esse Natal! Aliás, seria quase igual ao ano passado. As crianças ficariam com o papai Xuxu e eu iria pra casa dos meus pais ou da vovó, seguindo a sequência dos abraços de 'Feliz Natal', da ceia com a família, dos presentes até a despedida. Só que a viagem dos meus pais tirou um pouco meu rumo. Pôxa! Eles fazem falta! Sempre estão ali, na roça, de braços abertos para a nossa chegada a qualquer hora do dia ou da noite. Dessa vez seria diferente.
   De repente, Vó Sinhá, hoje com 97 anos, implicou em passar o Natal no Tabuleiro, sítio onde ela passou a infância que fica a 10km dos Varões (a casa dos meus pais). Acabou seguida pela tropa de filhos e netos. As filhas desgarradas (eu e minha irmã- Mone) também marcaram presença. Snif! Sem 'binha bãbãe' e o meu papai! Rs!...
   O caminho até os Varões é relativamente longo! Tenho que ir até Catu, a 90km de onde moro, depois pegar a estrada de barro de 20km por mais ou menos 1h. Resolvi mudar um pouco, parando na cidade para fazer uma visita ilustre à rua onde morei para rever amigas de infância e adolescência. Pessoas com as quais tive muitos dos momentos mais intensos e felizes da minha vida. Que até tenho contato por facebook, e-mail e outros meios de comunicação mas, nada é igual ao encontro. Nada substitui encostar o coração no outro na hora do abraço.
   A rua está quase igual, a casa que morei também, a casa da amiga também, a mãe das meninas igualzinha (Dona Joana), tudo quase igual! Saí do carro e gritei os apelidos como fazia há mais de 20 anos atrás, quando queria que elas fossem em minha casa. Foi massa, rs! Nos abraçamos, falamos de muitas estórias engraçadas, lembramos de nossa essência, das nossas 'artes', das viagens malucas. Precisava de uma pauta se fosse falar de tudo mesmo.. e de uns 4 dias falando sem parar. Cheguei cheia de fome, quase 2 da tarde. Comi o resto do cozido delicioso de Dona Joana. E, depois de muita conversa, ainda tive o prazer de encontrar a doidinha da rua... Gente! Até a doida está igual! Não envelheceu! Kekeu continua a mesma figura sorridente e engraçada de sempre. Ela me viu saindo da casa das meninas e gritou meu nome como fazia nos velhos tempos. Pensem na minha felicidade em ser reconhecida pela 'doida' da 'minha' rua! Rs! Alguém pode imaginar o que isso significa?? Nem eu entendo muito bem. Mas, tive a sensação de ter a minha essência de volta, minha infância, minha adolescência.
   De lá, peguei o resto da estrada até a roça, toda feliz e radiante! Aliás, pegamos! Totó estava comigo. Os cachorros lá da roça odeiam Totó com todas as suas forças. Os gatos também! Totó tem que ficar recolhido, confinado dentro de casa pra não ser detonado pelos outros bichos. Fazer o quê?? E ainda volta cheio de carrapatos. Mas, não tive escolha.
   Mesmo sem Conça e Freitas, a roça está linda, continua um paraíso. O verde, as montanhas, o gado, os sete cachorros, os gatos, os cavalos, as galinhas, o pomar entupido de frutas, o trator, a reforma do 'puxadinho'. Tava tudo lá!
   Então nos arrumamos para a noite de Natal e fomos pra casa da vovozinha, no Tabuleiro...
   Na minha opinião, a melhor coisa que poderia acontecer no Natal era faltar energia na roça! Eu e minha sobrinha ficamos no terreiro, vendo as estrelas naquele breu. Tio Antônio Macgyver fez uma pequena gambiarra, puxando uma luzinha direto do carro, só pra gente enxergar melhor a comida. De resto tivemos um jantar à luz de velas mesmo! Alguns vizinhos fizeram a oração conosco e participaram da ceia.
   A energia voltou depois da meia noite e eu nem imaginava o que mais aconteceria naquela noite... Meu primo Vinny levou seus equipamentos de música pra animar a festa. Então entendi o motivo da sua chateação pela falta de energia. Nós todos cantamos e dançamos horrores! Toda hora aparecia uma revelação musical para dar uma canja, rs! Também não faltou dançarino! Me acabei! Voltei pra casa rouca..
   Era madrugada quando chegamos nos Varões. Apenas para tirarmos o cochilo e voltarmos pra casa da vovó pro almoço... Mais festa! E o 'ponto alto' foi a mesa de 4 lugares ser ocupada por 12 pessoas. Não sei o que deu naquele povo! Deve ter sido o sentimento fraterno do Natal. E nem preciso dizer que amo essas maluquices! Pensei que aquele banco não aguentaria tantas bundas.. Mas, aguentou! E eu tive um dos Natais mais animados de todos os tempos!
   Hummm! Esse 2012 será, sem dúvida, surpreendente, como sempre foi a minha vida! Do jeito que gosto! Surpreendente!
  
  
  

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Nós 5 no Capão

    "Luciana adora inventar arte com esses meninos!" Todos da minha família dizem isso e eu não me conserto nunca, rs!
   Férias de verão... Uma viagem ao Capão seria um ótimo começo! Minhas crianças adoraram a idéia e resolvemos apimentar a festa convidando duas primas- Jamile, de 13 anos, e Shaina, de 11. As sobrinhas vibraram com o convite! Viajamos de galera!
   Ninguém conseguia conter a ansiedade até o grande dia. Na quarta-feira, resolvemos os últimos detalhes pré-viagem, deixamos totó no hotel, pegamos Shaina em casa e seguimos para Feira de Santana, onde mora a outra prima. A dormida por lá já encurtava caminho até o nosso destino na Chapada Diamantina.
   Já em Feira, lá pelas tantas da noite, as crianças resolveram pegar o biquini no carro para tomar banho de piscina. Parecia que eu estava advinhando que alguma coisa aconteceria. Inicialmente, disse que não, depois acabei liberando o tal banho de piscina. Vou contar, viu!! Não é que essas meninas fecharam o carro com a chave dentro. Putz! Pensem numa pessoa chateada e multipliquem por centos mil! No primeiro momento, já me imaginei voltando pra pegar a chave reserva em Salvador. Rs! Graça foi ligar pro ex-marido (o Xuxu), perguntando onde EU guardava as chaves reserva. E claro que ele, com a cabeça mais fria, lembrou  à jegulina aqui, que o seguro tinha serviço de chaveiro 24h. Rs! Com apenas um telefonema, o chaveiro apareceu, abriu o carro e tudo estava resolvido. Tudo bem! Isso só aconteceu pra deixar as coisas mais emocionantes antes de partirmos.
   A turma dormiu em boa parte da estrada e tagarelou sem parar na outra boa parte. Paramos em Itaberaba pra abastecer e comer alguma coisa. Na parada seguinte, subimos o Morro do Pai Inácio. As crianças, numa animação só, fotografavam tudo o que aparecia pela frente. A subida do Pai Inácio é bastante íngreme, embora tenha só um pouquinho do grau de dificuldade que se encontra pelas trilhas da Chapada. E a vista é muito linda!
   Chegamos ao Vale do Capão no começo da tarde. As crianças estavam felizes da vida e eu, mais ainda, por vê-los tão animados! A Pousada, a estrada barrenta, as montanhas imensas... tudo novidade! Então deixamos as bagagens no quarto, vestimos os trajes de banho de cachoeira, almoçamos feijão, arroz e carne. E seguimos de carro para a Cachoeira da Rodas por uma estrada bem acidentada, emocionante e muito empoeirada.
   O trecho de trilha à pé era leve, bem arborizado e cheio de pedras. As crianças, sempre muito animadas, observavam e fotografavam tudo. Os comentários eram os mais engraçados. A Cachoeira das Rodas tem um paredão de pedras bem íngreme. Precisa ter cuidado ao transitar. A água desce com mais força em alguns lugares do que em outros. Por causa da seca, característica da época, dava para caminhar em lugares onde, provavelmente, passa água. Toda hora eu dava um grito, com medo dessas crianças escorregarem. Contudo, elas transitavam pra lá e pra cá com uma habilidade surpreendente.
   Voltamos à Pousada para um banhinho gostoso e seguimos para a famosa Pizzaria Capão. Aquela que só tem dois sabores.. A de banana e a integral cheia de cenoura! Essas crianças comeram e ainda ficaram se gabando por comer pizza de cenoura. Ficava admirada com a fome da turma!
   Fazia tempo que dormira tão bem! De tão exausta da viagem de 500km, da subida do Pai Inácio, da trilha da Cachoeira das Rodas e de tudo o mais, não dormi, capotei! As crianças ficaram jogando baralho até tarde, fazendo barulho, todos no mesmo quarto.. Nem me incomodei com nada. Nada perturbou meu sono.  
   Pela manhã, as crianças, estavam animadíssimas e com um apetite absurdo. Decidimos, em comum acordo, fazer a trilha para Águas Claras acompanhados de uma guia chamada Raíssa e de dois casais.  Uma parte do percurso é feita de carro, a outra por quase 3h de trekking até um rio de águas transparentes com várias pequenas quedas d'água ao lado do Morrão. As crianças ficaram sempre perto da guia para saber todos os detalhes da região. Minha Tiloca ficou bem cansadinha com a caminhada mas, aguentou firme. Mas, valeu muito a caminhada! As crianças curtiram de uma maneira que ficava admirada, vendo a bagunça e ouvindo os gritos e risadas. Desciam e subiam pelas pedras, explorando tudo o que podiam alcançar.
   Teve um momento bem engraçado nesse sobe e desce todo. Tiloca ficou tão animada com sua liberdade de ir e vir, que atravessou um trecho do rio e não conseguiu voltar, por medo de umas aranhas que estavam quietinhas num cantinho, sem incomodar ninguém. Deu trabalho para a mocinha tomar coragem. Levou tempo, rs! Os outros três ficavam parados em cima de uma pedra, do outro lado do rio, tentando convencê-la a atravessar! A coisa durou um tempo e também fiquei parada, esperando o desenrolar da estória, até que ela respirou fundo e enfrentou o medo.
   Então voltamos naquele trekking de duas horas e 'cachorro lascou a boca'. Reboquei minha pequena por quase todo o caminho. Cheguei a carregá-la nas costas. Foi um retorno árduo! Mas, nada pior do que o dia seguinte, quando resolvemos subir a Cachoeira da Fumaça, mesmo sabendo que a seca tirara o brilho do lugar. Todos vestidos de Aventureiros do Agreste, providenciei camisas de mangas compridas e calças de Corrida de Aventura. Entupi suas respectivas caras 'de pau' de protetor solar, coloquei kit de primeiros socorros, lanterna, canivete, lanche e água em minha mochila e me transformei em guia da Chapada por um dia. 
   Muita pedra e sol quente. Uma hora só de subida pela trilha de pedras que mais parece uma escadaria. Mile e Tiago viram uma cobra logo no começo e já ficaram meio ressabiados em seguir. Tiloca sentia cansaço. Dona Shaina tagarelava sem parar nem por um segundo. (Nada faz essa menina parar de falar, meu Deus!) A água acabou na metade do percurso de ida. Tive que começar a administrar o cansaço das crianças, a falta de água, as mutucas, o sol quente. Jamile sentia falta de ar. Pior, que o rapaz que vende água no mirante da cachoeira não deu o ar da sua graça. Ou seja, voltaríamos por mais duas horas até a Vila, sem uma gota d'água...
   As crianças nem curtiram tanto o visual de tão cansadas. Curtiram mas, não curtiiiiiram! Também recusaram-se a beber aquela água ferruginosa do riachinho lá de cima. Acabei enchendo as garrafas assim mesmo e me preparei psicologicamente para as queixas durante a volta. Preferi não beber a água para sobrar pra eles. Foi um perrengue doido! Descemos administrando o cansaço, parando a cada sombra, respirando, jogando água no rosto e na cabeça, rebocando quando dava. Inventei umas brincadeiras para distrair, elas começaram a cantar e conversar. Parecia um caminho sem fim. Até eu cansei e pensei que morreria de sede umas duas vezes. Mas, no fim das contas, pensando agora, até que passou rápido. Se fosse muito fácil, nenhuma graça teria.
   Na Vila, a criançada comeu que dava gosto de ver! Demos em tempinho no quarto e fomos ao Mirante Café para comer uma torta de chocolate e ver o por do sol. Naquele dia, tinha um casal de malabares fazendo um show e cantando. Os colibris apareceram para enfeitar o ambiente. À noite, teve circo na pracinha e as crianças estavam encantadas com tanta festa. Embora a subida da Fumaça não tenha sido o melhor acontecimento do dia, não desistimos de colocar a cara na rua e vimos muita coisa legal. Foi um dia lindo!
   No outro dia, acordamos cedinho, tomamos um café da menhã bem gostoso e voltamos para casa devagarzinho. Cantando, tagarelando, gritando, fazendo mais farra ainda do que na ida e cheios de belas estórias pra contar. E isso foi só o começo das férias! Nem quero imaginar o que mais vamos inventar.. rs!

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Melhor a cada dia!

   Que bom que o tempo passa! Depois do meu aniversário, tive que parar tudo mesmo. Tinha mil planos de resolver mil coisas até o final do ano. Agora tenho mil planos de resolver o que der até o final do ano. Seria ótimo se tivesse uma secretária particular por uns 30 dias, só pra concluir as pendências que me acompanham, rs! Seria tão legal! Documentos, identidade das crianças, exames de sangue, raios x, dermatologista, tudo terceirizado. Coisas de quem tem filho, casa que precisa de manutenção, que quebra os eletrodomésticos, funcionária, cachorro que destrói o jardim e ninguém pra ajudar. Bom! Definitivamente, vida corrida não tem nada a ver comigo. Mesmo que esteja corrida, vou levando e resolvendo as coisas, como se não fosse comigo. Acho um saco viver correndo contra o tempo, fazer tudo cronometrado. Até escrevo as tarefas do dia numa agenda como uma alternativa para reduzir o estresse do "contra-relógio". No fim do dia, reprogramo o que não deu certo.
   Meus amigos me deram uma força danada quando estive impossibilitada, não posso reclamar. Mas, agora já ando e eles têm seus "quifazê". (Minha avó falava assim, rs!) Chega de exploração!
   Semana passada fui liberada pra nadar. E, diga-se de passagem, é a minha pior modalidade de todas as atividades esportivas que me atrevo a fazer. Sou péssima! Não é pouco péssima; é muito péssima! Sem habilidade. Bêbo uns três litros de água em cada aula e, muitas vezes, falta sintonia entre pernas e braços. Além de faltar fôlego, é claro! Mas, precisava mesmo fazer algo diferente. Tem sido bem divertido, admito. O treino dá o tom em tudo na vida para qualquer atividade que se faça. Basta a pessoa treinar que melhora. Bem sei disso! Há pouco mais de 5 anos, nem sabia passar marcha de biciccleta e quinhentos metros de corrida me deixavam com os bofes pra fora. Acho que melhorei daqueles dias pra cá.
   A fisioterapia continua. O tornozelo melhora a cada dia, embora esteja com limitação de movimento. Além da natação, começamos a remar. Eu e Gabi resolvemos nos inscrever na Brasilwild Maratona de Canoagem. Uma prova de 55km pelo Velho Chico. De Penélopes do Agreste. E isso é só o começo para as Penélopes em 2012. 

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Carrasco Cravo e Canela- Direto do Apoio

   Tarde de sexta-feira com previsão do tempo confirmada! Ilhéus não tinha "teto" para aterrissagem. O vôo da Avianca estava cancelado! Putz! Lá estávamos nós, no aeroporto, tentando decidir a melhor opção para chegar ao local da prova na sexta mesmo. Da Aventureiros, eu, Mauro, Gabi e Scavuzzi, além de Naru e Gaia da Makaíra, Diana Gomes da Gantuá e Raissa, para apoiar a Makaíra 2. Ou seja, caso não "voássemos" até Ilhéus, seria um desfalque de 3 equipes na Carrasco.
   Pegamos os carros, socamos os equipamentos e as bicicletas e partimos para mais de 6 horas de viagem até Ilheus. Meu carro com metade da turma e o de Mauro com a outra metade.
   Chegamos à Terra do Cacau quase onze na noite. Só deu tempo de instalar os equipamentos nas bicicletas para entregar à organização. Minha idéia de ir só pra dar uma força, virou uma programação de apoio. De carro em Ilhéus ficou mais fácil. Dava pra levar as caixas, arrumar a comida e chegar em todos as áreas de transição sem precisar de carona. Virei apoio em tempo integral.
   Apresentandooo! O quarteto: Ígor (tirando minha licença médica), Scavuzzi, Mauro e Gabi.
   Mesmo assim,  fiz tudo como se fosse largar junto com eles. Navegamos no mapa, marcamos distâncias, colocamos azimutes, discutimos os caminhos a percorrer. Tudo isso, regado a pizza, guaraná e gargalhadas. A gente ganha pouco (literalmente), mas se diverte horrores! Naquela noite, chorei de rir, como já fiz várias vezes com essa turma. Só nos separamos na hora de dormir, quase três da manhã para acordar às seis.
   O Hotel era mesmo bem gostoso! Café da manhã delicioso e farto, apropriado para aquela turma de famintos que só veria "comida de verdade" dali a umas 26 horas, no mínimo. A manhã tinha cara de aventura! O "cacau tava caindo" em Ilhéus! Pensem numa prova molhada e multipliquem por 200! Conforme prometido pela organização e pela previsão do tempo. 
   O pórtico da largada ficava a uns 300m do hotel. Fiquei na maior adrenalina, parecendo que ia correr também, embora soubesse que a hora do desgrude era aquela. Então fui pegar água de côco, que a barraca de praia estava servindo como cortesia (Muito chique!), e levei para a equipe. E senti muito por não ter conseguido correr para abraçá-los antes da largada, por causa do tornozelo machucado. Meu grito não fez diferença em meio àquele barulho todo. Tava chovendo muito! Saíram correndo pela praia e nosso próximo encontro era no PC3, onde pegariam os remos e as mochilas
   Pouco tempo depois que cheguei nessa área, as primeiras equipes já apareciam, fazendo a transição e indo embora. Fiquei impressionada com a rapidez do pelotão da frente! Como conheço bem minha turma, sabia que eles demorariam um pouco e, confesso, isso não me causou impaciência, nem angústia. A demora nem foi tanta assim. Outra coisa que não fiz, foi procurar saber a posição deles. Quem tá na "rabada" não gosta que ninguém fique passando na cara. Experiência própria, rs! Dei uma ajuda e os vi partir sem demora para o trecho de remo no mar. Nem sei o quanto eles estavam confiantes mas, eu estava o bastante por todos eles. Conheço cada um com a palma da mão e sei do que são capazes.
   No caminho para a AT (Área de Transição) seguinte, Glaucia (Apoio da Papaventuras), Raissa (Apoio da Makaíra 2) e Marcus (Apoio da dupla de Clóvis) e eu passamos em alguns lugares para comprar pão, queijo, água e gelo. Quando vi aqueles frangos de "televisão de cachorro" num mercadinho, lembrei do quanto é delicioso comer "comida de verdade" no encontro com o apoio. Todos aderiram ao meu apelo do frango assado e compraram para suas equipes também.
   A segunda área de transição, PC6, foi num vilarejo ribeirinho de casinhas pequenas, pracinha com banquinhos de cimento e música muito alta de gosto bastante duvidoso. Os atletas apareciam de uma trilha do outro lado do rio e atravessavam nadando até o píer de onde podíamos vê-los chegar. Organizei comida e água, enquanto esperava as bicicletas chegarem no caminhão. A chuva vinha e voltava, sem se decidir. Gal até tentou montar uma estrutura de apoio mais "profissional", colocando as coisas numa lona bonita ao ar livre mas, a chuva vinha e esculhambava tudo. Não deu certo de jeito nenhum!
   Tava gostoso ver as equipes chegando na briga pela liderança. As transições eram tão rápidas que nem parecia que eles comiam alguma coisa antes de sair. De vez em quando, ia até o píer pra ver se minha equipe dava o ar da graça. Nada de Aventureiros do Agreste! Mas acabava vendo outros amigos chegando, sempre fazendo a maior festa. Tiloca, outra grande amiga, fotografava cada mergulho da galera, sem perder nenhum detalhe.
   Finalmente, reconheci aquela pessoa com pernas de garça, saindo da trilha do outro lado do rio, preparando-se para a travessia. Confirmei que eram eles, quando todos afastaram-se mais do ponto de chegada para vencer a correnteza e cair no lugar certo. Isso é coisa de aventureiro experiente! Sem falar da inconfundível camisa rosa-penélope de Gabi! Uuui! Dei um pulo de alegria, seguido de um grito de dor. Esqueci do tornozelo machucado, rs!
   Chegaram, comeram, beberam, uns trocaram meias, outros colocaram as sapatilhas. O frango assado fez o maior sucesso, inclusive com o cachorro, que levou quase tudo na boca, enquanto estávamos entretidos nas arrumações. Não teve quem não risse da situação! Fiquei com cara de bocó, vendo o meu almoço indo embora. Planejava comer o que sobrasse quando liberasse meus atletas. Tudo bem! Nem tava com tanta fome mesmo! Acabei distribuindo as coxas que restaram para os outros cachorros que estavam por ali, morrendo de inveja. Não gosto de coxas de frango com baba de cachorro!
   "Pronto gente! Chega de conversa que tá na hora de ir embora!" Era assim que me despedia deles. Êta pessoalzinho folgado! Nem perguntava muita coisa da prova pra não aumentar conversa. Era um tal de pedir coisas, que não sei não! Na verdade, eles são tranquilos demais mesmo! A barulhenta e agoniada da equipe sou eu.
   Meus companheiros de comboio só esperavam por mim para seguirmos até a Lagoa Encantada, uma área de proteção ambiental cercada de Mata Atlântica, cheia de encanto mesmo, entre Ilhéus e Itacaré. A estrada de barro até lá é que não tinha nenhum encantamento, exceto para quem apareceu de carro 4x4. Com um Spacefox, cheguei a boiar numa poça d'água e nem sei se foi Zé (meu anjo da guarda) ou se foi Jesus mesmo quem resolveu intervir diretamente. O carro fez 'glub glub glub', diminuiu a velocidade e ensaiou ficar por ali mesmo. Pisei fundo no acelerador e nem sei como me salvei daquele riacho fundo. Além disso, as ladeiras eram impressionantemente íngremes, escorregadias e longas! Ficava imaginando como seria a volta naquela chuva.
   Não fosse pela música, a Lagoa Encantada realmente seria um paraíso. Linda! Linda! Linda! Linda de viver! Mas, gente, que som alto! Num bar tocava arrocha e no outro pagode. Muuuuito alto! Acho que chegamos pela hora do almoço do sábado e saímos ao amanhecer do domingo. O som deve ter parado umas 4 na manhã. Minha cabeça tava doendo, batucando, pulsando.
   Pra compensar o frango perdido, providenciamos logo uma moqueca de peixe com camarão que serviu a 3 pessoas, e para mais umas 3 que chegaram famintas.
   Depois começamos a organizar as coisas para a turma que chegaria em algumas horas! A chuva vinha, parava, vinha, parava. Nem arrisquei colocar nada do lado de fora. Ficou tudo arrumado dentro do carro mesmo. Os meninos chegariam de bicicleta, sairiam remando para o outro lado da Lagoa, onde alternariam modalidades de canoagem com trekking, voltando pro lugar onde estávamos. Ou seja, eram duas áreas de transição no mesmo lugar.
   A Aventureiros chegou na primeira vez (PC10) ainda de dia. As bicicletas estavam abarrotadas de lama. Soube que o trecho foi bastante travado e tiveram que empurrar bike muitas vezes. Comeram churrasquinho, repuseram a água e saíram para remar. Eu só faltava empurrá-los dentro do barco e dar impulso pra esse povo parar de conversar e levantar do chão.
   Como ali também era o PC16, ficamos por mais de 12 horas no mesmo lugar, esperando. O PC do rappel na cachoeira foi cancelado porque a chuva deixou as pedras escorregadias, ficando perigoso além da conta. Soubemos que percorrer os PCs até voltar para o 16 não estava nada fácil. Muitas equipes se perderam pela mata e já tínhamos notícias de desistentes.
   Aproveitei a "gentileza" de alguns moradores e paguei a faxina em todas as bikes. Infelizmente, não tive condições físicas de carregá-las e lavá-las. Então dei as coordenadas prévias, os rapazes seguiram direitinho e só precisei lubrificar a corrente no final.
   Ok! Devo ter dormido, no máximo 1 hora por todo esse tempo que estive por lá. Tomamos café com leite na lanchonete de Sr. Jairo e ficamos todos batendo papo pela madrugada afora. Minha equipe voltou quatro e tanta na madruga, quando tinha pregado os olhos pela primeira vez. Bateram no vidro do carro. Tava chovendo horrores e acabei fazendo a transição debaixo de chuva mesmo pra adiantar, com uma capa de chuva que Glaucia havia me emprestado. Ali, tive a curiosidade de saber a posição deles: 5º lugar.
   Mesmo prontos, queriam esperar o dia amanhecer para sair. Só que não deixei porque o ponto mais difícil de navegação era longe de onde estávamos. Então eles poderiam embarcar, seguir o azimute e chegariam à parte complicada, na entrada do rio com o dia claro, ganhando tempo em relação a quem viesse atrás. Nem preciso dizer que expulsei aqueles meninos de lá! Pô! Ficar parado esperando o dia amanhecer! Rs! Nada disso!
   Naquela hora, a chuva deu uma trégua... Subimos a ladeira em comboio para o PC20, na estrada entre Ilhéus e Uruçuca. O PC ficava numa fazenda de cacau, onde tive a cara de concreto de pedir pra tomar banho. Foi o banho de balde dos mais valiosos que já tomei. E olhe que estou super acostumada a tomar banho de fonte, de balde, essas coisas. Até lavei meus cabelos e sentei na mesa dos donos da casa para um cafezinho, só pra variar minha vida de artista. Não tem jeito, sempre acabo tomando um cafezinho e conversando muito, rs!
   Engraçado que a chuva brincava com o pessoal da fazenda. O sol aparecia, eles abriam o teto pra pisar no cacau. Não dava 10 minutos, vinha uma chuva danada e eles fechavam o teto. E isso se repetiu umas 4 vezes, rs! Quando estava me divertindo com a rotina da fazenda, meus amigos apareceram correndo pelo asfalto, pegaram o PC20 e vieram pegar as bikes na fazenda.
   Dali, era só bike até a chegada em Ilhéus, na Igreja Matriz. Lindos, maravilhosos, sujos e felizes! Chorei de felicidade ao ver a minha equipe no pórtico de chegada em 5º lugar. Orgulhosa deles e feliz por estar ali, compartilhando a felicidade da chegada. Mais ainda, por ter acompanhado tudo e contribuído para que as coisas ficassem mais confortáveis para eles. Se é que alguma coisa fica confortável em Corrida de Aventura.
   Queria mesmo era correr. Perder a Carrasco pra mim é como perder uma festa de arromba. Daquelas que só acontecem uma vez ao ano e todo mundo quer marcar presença. A organização mais uma vez se dedicou efetivamente para fazer uma prova carrasca, sofrida, dolorida, com leves toques de perversidade. Daquelas provas em que todas as gerações do organizador são xingadas pelos atletas e ele ainda fica muito contente com isso. Na próxima, com certeza, estarei lá, na festa, sofrendo!
   Parabéns, meus atletas preferidos! Tenho muito orgulho do meu sobrenome Agreste!