quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Desafio dos Sertões 2015- NINGUÉM TEM CULPA SOZINHO

   Frase que vale pra tudo na vida! Precisamos dividir nossas culpas.

   Tudo certo na Bahia! Um ano de casados no Desafio dos Sertões, comemorando no Desafio dos Sertões. Cachorro e crianças guardados em segurança e tudo fluindo tranquilamente, exceto o trânsito em Feira de Santana, é claro. Ninguém entra ou sai de maneira que dure menos de 40 minutos pra atravessar a cidade. Sem contar com a destreza dos motoristas a jogar seus veículos de lá pra cá, como se fossem de papel e não houvesse amanhã.
   Chegamos umas dez horas no alojamento da polícia de Juazeiro, nossa dormida antes da prova. Comemos uma pizza deliciosa no Armazém Café, onde não tem café em lugar nenhum, mas a pizza vale muito a pena. Meninos pra um lado, meninas pra o outro e muriçocas pra todo lado. Enrolada na coberta, virei um charuto como nos meus velhos tempos de Catu, onde as muriçocas só faltavam nos carregar. Com a diferença de ter um ar condicionado massa pra facilitar as coisas no quartel.
   As meninas simpáticas e educadas, fizeram pouco barulho quando chegaram. Os meninos que ficaram com Vitor eram bem animados e pareciam adolescentes, também educados, mas adolescentes. Dormiram tarde e acordaram cedo. Então, lá pelas 6 da matina, meu chicletinho já rondava as proximidades do alojamento das meninas, pedindo pra eu sair.
   Depois de um café bem gostoso na padaria da esquina, seguimos pro briefing no Vaporzinho. De lá fomos comer churrasco de bode às 10 da manhã. Em Juazeiro você pode comer carne de bode a qualquer hora do dia ou da noite...
   Com uma só caneta, o mapa de Vitor ficou do jeito que deu, sem muito tracejado.
Foto de Arsênio Marcos

   Povoado de Junco, 13h. A largada de bicicleta levantou poeira pra todo lado. Nossas roupas e mochilas coloriram aquela vegetação cor de barro do sertão. Por ali só tem verde quando se está bem pertinho do Velho Chico ou em locais irrigados. A segunda opção de cor de vegetação é a cor de barro mesmo.
Foto de Arsênio Marcos


   Aquela primeira parte da prova, até o PC 1, lembrou os canaviais de Alagoas. Ainda bem que não nos perdemos como nos canaviais de Alagoas. Num instante alcançamos o PC e seguimos por trilha plana, mas não menos cruel. Trilha plana é uma beleza! Se não pedalar, para. Muita pedra, espinho, toco, poeira, areia. Em alguns momentos parecia que passava sobre pisos quebrados.
   Apesar de termos entrado uma trilha antes, não demoramos de alcançar o PC2, saindo do outro lado da pista pra encontrar o PC pelo lado contrário. Voltar seria pior.
   Seis quilômetros até o PC 3, mais um pouco até o PC 4. De cara toda vermelha, sentia calafrios. O sol inclemente do início da tarde, queimava tudo, ardia a boca, acabava comigo. Vitor perguntava se estava tudo bem, optei por dizer que estava.
   Na estrada, até o cachorro levantava poeira em sua caminhada. Chegamos ao PC 5 ainda de dia. Aproveitamos pra molhar a cabeça e recuperar as forças. O trekking daria uma trégua pra o bumbum, que muito sofreu com tanta trepidação.

   Naquela trilha errada, nunca chegaríamos à cachoeira. Começou a fechar, ficar espinhenta, esquisita. Recomeçamos. E, antes mesmo de chegar ao ponto inicial, a trilha, bem ali, onde deveria estar. Ufa! Azimute certo, tudo nos conformes. Descemos pelos pedregulhos afora, seguindo para o rapel. Dava uns 7 km até lá. Acabamos dando umas puladas de cerca numa tentativa frustrada de seguir pelo curso do rio. Deu pra lavar a cabeça mas seguimos mesmo foi a estradinha que estava bem ali à nossa frente. Então caímos no estradão, depois descemos pra cachoeira já no escuro da noite, com o céu recheado de estrelas.
   Pena que o rapel foi cancelado por questões de segurança. Então Waltinho nos deixou de castigo no PC 6, pagando tempo. Vitor deitou pra descansar enquanto eu comia um salaminho e a galera do PC saboreava um churrasco com um cheiro delicioso. Em Juazeiro tem bode assado nos PCs. Também tem melância, Gatorade e água mineral. Mas o bode não era pra nós não, viu?
   No caminho de volta, um atleta perguntou se éramos casados. Desejava que sua esposa viesse com ele... Ainda não conseguiu mas, quem sabe um dia ela não viria? Esqueci de dizer que, no nosso caso, ele quem veio.
   As bicicletas! Apesar da dor nos ossinhos do bumbum, esse trecho de bike foi muito bom! A noite fresquinha toda estrelada mandou todo desconforto, outrora sentido, embora. Meu desempenho melhorou muito! E, com nossa iluminação, as coisas ficaram bem mais tranquilas. Ano passado, embora tenhamos tido resultado melhor, a iluminação precária nos deixou em maus bocados. Agora parecia dia!
   O corte no PC 8 era 1h da manhã. Chegamos mais de três horas antes, felizes com nosso desempenho. Era a transição para a parte mais pesada da prova. O trekking da serra! Em torno de 15km, boa parte dele sobre um platô voltado pra um precipício. Subimos muito bem, sem nenhuma intercorrência! Quando alcançamos a área do PC virtual A, o do objeto especial, tirei foto da torre, toda segura de mim. Encontramos duas bases de sustentação da torre, sem placa. Tiramos fotos por ali e fomos embora...
   Ali mesmo, marido deu sua primeira vomitada. Foi quando comecei a perder meu co-navegador. O trekking lindo, o vento uivava, a vila brilhava lá embaixo, o precipício sempre do nosso lado esquerdo. Não perdemos o ritmo mas... Meu marido só pensava em beber uma coca-cola. Saiu da prova naquele momento. Agora me pergunte o que fiz pra trazê-lo de volta?...
   Um quilometro depois, lá estávamos nós na clareira do PCV F. Dá pra acreditar que olhamos em volta, não vimos placa e acreditamos que tínhamos que tirar foto do lugar e ir embora? Pois é! Tiramos foto de mandacarus e pedras. Só Jesus Cristo na causa com tamanha arrogância da minha parte. Dei um nome pra essa atitude: Arrogância de Nevegador. É quando a gente se acha tão bom que pensa que o organizador que fez besteira. Não foi Vitor, fui eu.
   Cheia de argumentos e fotos de pedras e mandacarus, descemos a serra. Perdi as contas de quantas vezes torci o pé, escorreguei nas pedras, levei furada de espinhos... Andei quilômetros com um espinho enorme preso no tênis, sem entender o que estava acontecendo. Por ali, era melhor cair do que apoiar as mãos em árvore de mandacaru. Em algum momento, Vitor chegou a dizer que a trilha tinha acabado por medo de altura. O precipício ficava bem do ladinho. Também perdi a conta de quantos sequelados encontramos pelo caminho. O povo passava mal a três por quatro.
   O final da descida foi bem íngreme até o PC 9. Então formou-se uma fila pra mostrar as fotos dos PCs Virtuais. Oh, meu Deus! Quando vi as fotos na câmera de Gilson, quase caí pra trás. Até hoje me pergunto que merda eu fui fazer lá em cima. Tomar fresca? Enquanto Vitor tentava se recuperar da caruara, eu tentava me recuperar da idiotice. Xinguei até a minha alma. Só parei quando ouvi uma equipe contar que gastou mais de quatro horas pra fazer o percurso do PC 8 até o 9 por baixo. Acordei dos meus devaneios mais íntimos pra fazer as contas... Eram 3:50h, o PC 8 seria agora o nosso 10, então tínhamos pouco mais de 3 horas pra chegar lá, já que o corte era às 7 da manhã. Fiz tanta merda que queria me redimir não pegando o último corte da prova.

- Vitor, vamos embora pra não pegar o corte!
Resposta:
- Amor, eu não consigo correr 10km sem parar, imagine 20!? Acho que não vai dar.
   Fomos embora. Tentamos a trilha pelo rio seco, junto com nossos amigos Arnaldo e Davi. Voltamos pra não perder tempo porque a trilha fechava. Corremos, caminhamos bem rápido, muito mesmo! Encontramos uma trilha bem aberta, um corte de caminho que eu pensei que fosse maior mas, ainda assim, valeu a pena. O dia amanheceu, chegamos na estrada principal. Revezando trekking forte com trote, Vitor, pensando na Coca-Cola, segurava na minha mochila pra andar mais rápido. Na corrida, ele conseguia acompanhar direitinho, no trekking não. Ultrapassamos várias equipes nesse ritmo, chegando ao PC10 vinte minutos antes do corte em oitavo lugar no geral. Sim! Acho que foi isso... E comemoramos o feito como se não houvesse amanhã.
   Problema foi que marido deu uma caruara ainda maior do que a anterior. Teve calafrios, precisou tirar a roupa pra ficar no sol, não conseguia comer nada... Eu consolava dizendo que, dali em diante, a situação era confortável, o tempo era nosso amigo. Passamos do corte, a Coca-Cola ia aparecer, rs! Podíamos ir em nosso ritmo, pegar os PCs de bike e seguir pra o remo. Os PCs da serra seriam esquecidos porque não pegamos o corte. Poucos não pegaram o corte.
   Vitor melhorou um pouco, conseguiu trocar meu pneu furado, enquanto eu arrumava uma caneta pra marcar tudo no mapa dele, já que achava que tinha perdido o meu. Parece que a noite perdida e os PCs perdidos me deixaram mais doida. Encontrei a porra do mapa dentro da minha mochila muitos PCs depois.

- Vamos, então? PC 11.
   Beleza! Trilha certinha, entra aqui, sai ali, segue rastro, azimute certo. Nada de PC 11. Vitor passava mal, enjoava, reclamava, queria Coca-Cola. Deixei-o embaixo de um arbusto seco, voltei sozinha ao ponto de partida, refiz o percurso. Tinha uma casa... Nada de PC. Fiz azimute, localizei morro, orientei mapa. Nada de PC. Outra equipe perdida, nada de PC. Convidei Vitor a me acompanhar pra recomeçarmos ou tentarmos outro caminho. Cansado, sugeriu que fôssemos pra o 12.
   No caminho pro 12, encontramos o caminhão da organização com as pessoas dos PCs 11 e 12 dentro do carro. O motorista disse que já estava indo recolher o 13, que fôssemos direto pra o 14.
Enquanto conversava com o rapaz, Vitor estava pongado no fundo do caminhão pegando toda água que podia carregar.  
   Eram 10 da manhã do domingo quando seguimos para o PC 14 debaixo do sol que rachava o chão da barro. Vitor só falava na Coca-Cola que beberia no PC 15, enquanto eu pensava nos PCs sendo recolhidos e nossa prova indo pelo ralo.
   Fomos para o PC 14 pela trilha de baixo, a trilha dos espinhos. Com poucos metros, estava com outro pneu furado. Como não achamos o PC 14 por baixo, sugeri que tentássemos pela trilha de cima para não perdermos mais tempo. Meu marido querido, disperso da prova desde o primeiro vômito, preferiu ir tomar a Coca-Cola no PC 15 e depois voltar pro 14. Oh céus! Como ninguém tem culpa sozinho, divido tudo isso com ele desde o começo, nem preciso explicar o porquê.
   Lá fomos nós para o PC 15 tomar o diacho da Coca-Cola. Nem cri quando Daniel pediu que não voltássemos para o 14 porque tiraria a menina que estava no PC naquele momento. Fomos mandados direto pra o 17, no remo. Nisso, já era mais de meio dia. Depois de mais um tempo de descanso e de pegar toda comida possível, seguimos para os 13 km finais de bicicleta pelo asfalto.
   Pedalamos o mais rápido possível, mas a coisa estava tão feia que Vitor não conseguia acompanhar meu vácuo. Mesmo assim, não estava preocupada porque só faltariam 25 km de remo até a chegada. No nosso ritmo. Na minha cabeça, era isso que passava. Faltava pouco pra acabar e não pegamos o corte, mesmo com tantos problemas.
   Chegando ao PC 17, já fui organizando as coisas e negociando o barco quando marido pediu PPU. Ele já estava no chão outra vez e acho mesmo que foi até onde aguentou. Desde a subida da serra que a coisa estava complicada, vomitou outra vez, já não conseguia comer nada. Paciência... Paramos no PC 17 sem estresse, eu com minhas ressacas morais, ele com as dele. 
   Aproveitamos a carona de Cléo e Manoela, sempre tão gentis e queridas, e nos mandamos pra Juazeiro.
   Sabem de uma coisa? Ainda assim, mesmo com o tanto de coisas que deu errado, curti cada minuto da prova. O céu estreladíssimo de cima da serra, a vista pra cidade naquele breu, o abismo, os pneus furados, o perrengue, a sede, a corrida pra não pegar o corte, o encontro com os amigos. Sei bem do  desconforto de desistir de uma prova e divido a culpa com meu marido sem nenhum problema. Nesse um ano de casados passamos por tantas provas da vida, que poder participar da corrida foi o marco para nossos dias de glória. Muitas vitórias virão, na vida e nas corridas, tenho certeza! Agora uma música pra comemorar nosso casamento, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, nos Desafios dos Sertões e da Vida...



   Até a próxima!

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Desafio Ladeira de Pedra

   Sou de Catu. Morei na rua atrás da igreja, no pé da Ladeira de Pedra. Todo mundo sabia qual era a igreja e onde ficava a Ladeira de Pedra. Hoje em dia não tem pedra e tem igreja pra todo lado.
   Subir a Ladeira de Pedra era uma coisa incrível! Só chegávamos até o comecinho e só subíamos de carro ou ônibus com nossos pais. Depois dos 10 anos, nossa família mudou pra parte de cima da cidade. Como a escola era na parte de baixo, subir e descer a Ladeira de Pedra virou rotina. Depois da escola, o ônibus subia tão cheio que até parava no meio do caminho... Já teve situação do ônibus voltar de ré com o povo gritando. Entretanto, minha cidade natal não tem só a Ladeira de Pedra, tem muitas outras. E no Desafio Ladeira de Pedra, ao invés da dita cuja, subimos a Ladeira do Gogó da Ema. 
   Aproveitamos pra ir pra roça logo de manhã pra dar tempo de almoçar com Conça, minha mamãe. Seguimos pra cidade só no fim da tarde. Comemos um acarajé na Aruanha, visitamos Norminha, pegamos meu kit de corrida cheio de brindes no coreto da praça da igreja e deixamos Conça num local estratégico de passagem da corrida, a casa de tia Dirce.
   Então vamos à corrida...

   Feliz por ver aquela turma toda na largada, mesmo com o tempo frio e chuvoso, convidando pra ficar em casa debaixo dos lençóis. Eu estava comprometida a correr tranquila, sem botar os bofes pra fora, despretensiosamente. Difícil é correr cinco quilômetros sem botar os bofes pra fora, principalmente quando o primeiro trecho da prova já é a subida mais íngreme e longa, a do Gogó. Todo mundo parecia comprometido em não lesionar, inclusive dava pra ver todos à minha frente. Tem umas corridas em que a gente não vê o rastro dos que vão na frente. Vi uma menina ao meu lado e duas cabeleiras esvoaçantes na frente. Deixei a menina e fui atrás da primeira cabeleira. Ela dosava, eu também. Passei, ela passou, passei de novo... Pareceu interessante mas eu bem sei que a prova estava no começo. Sem querer me gabar, subo bem!

   A chuva já caia pelas ruas da Aruanha. Vitor, que pedalava pra me acompanhar, passou por mim quando liderava a prova, que eu não sabia que estava liderando. Então a menina da cabeleira bonita (bonita mesmo!) me ultrapassou e nunca mais olhou pra trás. Na verdade, ela quem liderava, rs! Ainda assim, consegui manter uma distância controlada. Quando chegamos perto da rodoviária fui saber que a cabeleira mais esvoaçante era de um rapaz que corria loucamente. 
   Na volta pela ladeira do Gogó, fiquei preocupada em levar um tombo porque meus tênis escorregavam bastante. Foi ali que perdi a menina do cabelo bonito de vista. Sem querer me esculhambar, desço muito mal! Sou péssima! É segredo... Mesmo assim não desisti de fazer o melhor que pudesse. Afinal, tinha muita gente atrás de mim e não desisto jamais. 

   Assim, descemos em direção à antiga estação de trem, onde agora é museu. Bonitinho! Catu tem até museu. Passei em frente à casa da tia Dirce, gritei a mãe desnaturada, que nem estava na porta esperando a filha passar. 
   Seguimos em direção ao comércio, viramos na garagem da Catuense e subimos na rua onde tinha o bar do meu Tio Vadu, onde comia o melhor pãozinho delícia quando era pequena. Deu até água na boca só de falar!
   Finalmente, a igreja matriz. Linda, iluminada... e distante. O paralelepípedo escorregava como quiabo. Subi tentando manter o ritmo mais forte que podia e até ultrapassei um cansadinho. Minha amiga Andréa estava na chegada no "bora Lu!", numa animação danada.

   Cheguei em segundo lugar com gostinho de hemácias na boca, toda feliz por fazer essa prova, correndo pelas ruas da minha cidade! Ruas tão conhecidas na minha infância e adolescência, que o tanto de estórias não cabe aqui. Amei, embora tenha cada vez mais certeza de que meu negócio é longa distância. Cinco quilômetros é coração na boca o tempo todo. Isso mata, minha gente! Prefiro resistência à velocidade. E, do jeito que sou louca, pra não ter um custipio, melhor fazer provas longas. Vou viver mais!

   Depois da premiação pegamos Conça pra comer na pizzaria da minha amiga Rosana, a Dagas.  Outro reencontro delicioso, caloroso, amoroso! 
   Não vi várias amigas queridas que achei que estariam lá. Deixo aqui um abraço especial pra cada uma.

   Agradeço muito a Show por me proporcionar o grande prazer de correr em minha cidade natal. Uma prova super bacana, bem organizada e acolhedora! Vou sempre que puder.
   Gratidão também a marido lindo pelo apoio de primeira qualidade e à minha mamãe que, pela primeira vez, teve a intenção de assistir a uma corrida minha.. KKKK! Intenção já conta!
   Até breve!





segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Marathon Bike Alagoinhas

   Vixe! Tanto tempo sem escrever! Também, sem resenha de corrida fica difícil. Na boa, as resenhas da vida não estão merecendo registro. Quem sabe um livro...
   Formamos a duplinha e fomos pedalar no Marathon Bike Alagoinhas. Pena que o percurso é menor para duplas! Porém, não menos lindo! Até melhor pra essa dupla sem tanto treino e sem peso na consciência, porque a dedicação à família tem sido nossa prioridade. Como não dá pra ser super, e ainda bem que ninguém é, temos treinado menos, até que nossos pequenos problemas sejam ajustados e se possa caminhar com mais tranquilidade.
   Adoro ir pra o Marathon Bike porque vejo uma parte muito querida da minha família. Vamos sempre um dia antes pra aproveitar a companhia dos nossos, que acabo só vendo de Marathon Bike em Marathon Bike. Taí um grande motivo pra eu não faltar. O detalhe é que a família sempre acha que somos mais do que somos como atletas, e pensam que somos super modestos. Rs!


   A largada foi pertíssimo da casa da minha prima, Silvana, então acordamos, tomamos um café reforçado e fomos... O outro detalhe engraçado é o que o pessoal acha que a gente só come comida integral, barras de cereal, carnes grelhadas, energéticos e ovos. Minha tia fritou quatro ovos pra gente. Como eu comi um e caí fora, Vitor foi intimado a comer os três.. KKKK! Claro que ele não comeu mas achei uma graça danada nessa história.
   A largada oficial, como sempre, foi do outro lado da cidade, depois de um pedal em comboio. Primeiro saiu a Elite, depois nós mortais, que fomos chamados de cicloturistas pelo presidente da Federação Baiana de Ciclismo. O que não acho nada demais, mas tinha um monte de gente com a faca entre os dentes ali, rs!


   Na largada a gente já pega um estradão muito legal, só pra aquecer. Uns dois quilômetros depois aparece uma curva acentuada pra começar as trilhas dentro dos eucaliptos. Uma maravilha! Cada paisagem de tirar o fôlego, sem contar com o cheiro! Os singletracks nos eucaliptos eram até fáceis de percorrer, outros nem tanto. Dei caruara numas duas ribanceiras, dessas curtas. Como cagona que sou, parei e desci segurando a bicicleta, sem vergonha nenhuma nessa minha cara descarada. Rs! 
   Também tive meus momentos de glória... Sei que a gente estava na vibe de pedalar o que pudesse. Descemos os downhills a todo vapor, sem triscar nos freios, fizemos os estradões com velocidade. Encontramos uma dupla no caminho. Até tentamos ficar perto deles mas penso que ganhar de alguém é merecimento. Quem treina mais pedala mais, não há dúvida. Nesse momento, pedalamos o que pudemos, estávamos bem perto quando meu odômetro caiu. Bastou parar pra pegar pra dupla desaparecer. Talvez nem precisasse o odômetro cair. Até que apareceu novamente, mas foi por pouco tempo. Meu odômetro não caiu de novo. Rs!
   Vitor nunca tinha corrido essa prova. Senti-me como uma anfitriã, mostrando aquela beleza toda. Ele parecia vibrar por estar ali, eu ainda mais. É um momento de conexão com Deus sem interferências externas. 


   Faltando uns quinze quilômetros pra chegada, apareceu um rio pra gente atravessar. Quando subi de volta na bicicleta, senti dor na lombar. Coisa rara na minha vida. A dor era forte, acabei reduzindo um pouco o ritmo. Escolhi não comentar e procurei me equilibrar pra dor passar. Passou quando entramos em Alagoinhas pedalando já num ritmo bacana. Subimos a ladeira até o Carneirão e comemoramos nossa chegada com minha prima linda, que nos esperava com ar de paparazzi, toda animada. 
Foi massa! 


   Com nossa cara de pau, fomos comer um churrasquinho em casa e voltamos pra ver se tinha rolado um pódio. Não rolou, não. Ficamos em sétimo lugar. Do quarto pra baixo, a diferença de tempo foi bem pequena mas, quem treina pouco tem menos chances. É isso aí!
   Terminamos essa prova super satisfeitos, animados, felizes e com a mente arejada. Esporte, amor e família dão uma combinação perfeita!
   Beijo pra todo mundo e até a próxima resenha!





quinta-feira, 23 de abril de 2015

Mandacaru 2015

    Sair de casa 3:20h da manhã pra passar o dia todo correndo pelos matos é coisa de maluco mesmo! São escolhas feitas pra deixar a vida mais fácil de viver. E, cá pra nós, embora nada disso seja muito fácil, desenrolar as aventuras da corrida está mais fácil do que desenrolar as aventuras da vida. Muito mais!
    A Aventureiros montou um quarteto e uma dupla. Ficamos nas duplas, principalmente, por conta das nossas demandas pessoais. Pena que concorremos com as masculinas, por não ter categoria mista, mas também não sei o que seria de nós se fosse de outro jeito.
  Aquelas curvas de nível confirmavam que Mandacaru sem morro não é a prova, é a planta. Navegação que parece tranquila pode desconfiar, meu amigo! Prova no sertão é bagaceira garantida! Sol da zorra, água acaba rápido, quentura dos infernos que parece vir de baixo pra cima, cansanção pra lapiar até a alma... Além disso, embora o mapa seja feito pra gente acertar, a gente ainda se acha no direito de errar! Ainda bem que foi pouco dessa vez, Rs!
   Largar descendo ladeira é massa! Corremos 800m até a beira da barragem e lá entramos pro refrescante trechinho de natação. Pensei que seria ruim mas foi bom!
   Transição no PC1, pedal até o 2. Passamos direto pela entrada da trilha mas logo voltamos, pedalando por um bom trecho pela beira do rio.
   As trilhas de bike não estavam complicadas, não. Até o PC3 foi tranquilo e Vitor me deu uns empurrõezinhos providenciais nas subidas, porque não tô nada boa de pedal. Agora que me assaltaram no calçadão de Vilas, e agradeço do fundo do coração ao ladrão por não ter levado minha bicicleta, a coragem de treinar sozinha diminuiu consideravelmente.
   Bonitinha a mãe de Manoela no PC3, toda metida com a prancheta na mão. Acho lindinho isso! Lembrei do pai de Fernando Severino que aparecia em todas as provas da Paletada como apoio da Espírito Selvagem. Aliás, essa prova me lembrou muita coisa boa! Foi massa ver um monte de gente das antigas competindo. O povo tá voltando mesmo! Todo mundo com a faca entre os dentes. Ainda tem a galera que está levando a filharada. Arnaldo com o filho, Hugo, foi a sensação. Gal, coitada, que quase pariu outro filho mas tudo bem, isso é só um detalhe, rs!
   Vitor fez o bike and run do PC3 ao PC5. Como sentiu uma dor inexplicável na lombar no primeiro trecho de bike, preferiu correr pra aliviar.
   Quando passamos no PC4, assinei na posição 25 do geral. Achei longe pra caramba porque não parecia que estávamos tão mal. Prefiro não saber da posição, mas a folha quase toda preenchida me chamou atenção. Não compartilhei essa informação com Vitor pra não desanimar e pensei que logo encontraríamos equipes pela frente. Afinal, somos resistentes até a morte e sabemos que o povo vai cansando no meio do caminho. Hum!
   Depois dali, tentei fazer com que Vitor pedalasse minha bicicleta, como um revezamento, mas ele quase me engoliu quando insisti pra correr. Fui convencida a pegar a minha porra da minha bicicleta do chão e sair pedalando com a maior cara de jegue. Que se desfez no terceiro cruzamento, porque mulher tem que demonstrar insatisfação por, no mínimo, dois cruzamentos pra não dar o braço a torcer assim de bandeja. Afinal, ele falou assim:
   -NÃÃÃÃOOOOOOOOOOOOO QUEROOOOOOOO!
         Quando olhei pra trás vi algo parecido com o Sullivan, de Monstros SA, assustando a Buh em câmara lenta. A língua balançava na boca e os dentes pulavam pra fora, enquanto pronunciava a frase acima... Parece legal mas diz “não quero” bem alto, a ponto de causar revoada de pássaros, carreira de boiada, cabras e de criancinhas inocentes. Kkkkk!
   Minha bicicleta ficou no PC5, quando começamos o trekking pra subir no primeiro morro, o do cruzeiro. Dava pra ver a quantidade de gente que desbravava aquelas curvas de nível. Subida da zorra! Como meu marido parava (pra apreciar a vista, rs!) e eu me distanciava um pouco (bem pouco, rs!), resolvemos caminhar no meio termo. Acabamos subindo melhor, sem parar. Maravilha! E a figura, enquanto ultrapassávamos algumas pessoas, incluindo nosso quarteto Agreste, foi orientando o pessoal a treinar mais pra subir rápido como nós, e também explicava que ele estava me empurrando, ao contrário que podiam pensar, rsrs!
   Já perto do destino, vozes vinham das pedras. Não era o PC, eram os BBs, Plínio e Omar, que apareciam do desconhecido. Encontramos o PC6 juntos e seguimos pra o 7, que também foi tranquilo, Graças a Deus!
   Treva foi o percurso pro 8! Descendo pela ravina, ouvimos gritos desesperados de socorro. Parecia sacanagem mas logo deu pra perceber que ninguém gritaria daquele jeito numa corrida sem um bom motivo. Eram abelhas... Os atletas se comunicavam gritando e pedindo socorro. Um garoto, o filho de Marcinha, foi picado e tinha alergia. Fiquei muito preocupada, pensei logo em meu filho! Wlad e Capu subiram pra ajudar, enquanto nós fomos tentar um caminho que desviasse das abelhas pra avisar à organização a situação lá no morro.
   Descemos em silêncio, passando por algumas colmeias. Sofremos um primeiro ataque sem picadas. As abelhas se aproximaram, foram encostando mas conseguimos afastá-las com todo carinho.. sem sacanagem!! Kkkk! Eu falava “sai abelhinha” bem baixinho, rs! No segundo ataque a porra pegou pro nosso lado! Sorte que a mata abriu um pouco e deu pra correr. Providência Divina! Tomei ferroadas na bochecha e na mão, por cima da luva mesmo. Vitor ficou encurralado mas não foi picado. Só depois de muito caminharmos demos falta do boné e dos óculos dele. Quem volta pra procurar?
   Encontramos então o amigo de Bruno... Tadinho! Na verdade, ele quem teve o azar de nos encontrar, rs! Demoramos uma hora pra chegar até a fazenda depois daquela confusão. Sabe quando a casa está ali, naquele azimute, e você não segue? Fizemos uma volta da zorra, rasgamos mato, pulamos cerca, encontramos a estrada... Ôxe, que coisa!
   No PC8 percebemos que ninguém cansou, muito menos se intimidou com as abelhas. Manoela tirou uns ferrões da minha cara. Dali, eu corria e Vitor pedalava até o PC9. Pegamos a trilha por trás da casa. Aquela pela qual deveríamos ter chegado na vinda do 7. Nem acreditei que chegamos até quase no fundo da casa e demos aquela volta toda. Que chato! Então pulamos a cerca, fizemos um azimute pra catar a trilha certa até encontrar o PC. Ali estávamos mais uma vez com nosso quarteto preferido. O sol, àquela altura, ia alto e quente, lascando o cano! Chegando ao PC 10, ainda rolava água e Guaramix bem gelados, pra nossa alegria!
   Fiz a transição e seguimos pedalando até o PC11, onde teríamos que fazer outro trekking subindo morro. Que subida miserável e que vista linda lá de cima! Um cara da Giramundo do nosso lado se perguntava em voz alta o que foi fazer ali. Provavelmente vamos nos encontrar em outras provas porque, pela cara dele na chegada, descobriu e gostou.
   Lá em cima, no PC12, andamos um pouco pra ver se dava pra rasgar aqueles 500m de mato num azimute básico mas, na boa véi!, tava muito fechado. Depois das abelhas, pensamos no custo/benefício, decidimos descer pela trilha mesmo.
   Poxa, Vitor conta passo e conversa ao mesmo tempo sem se atrapalhar! Dá tão certo a conta que fico a pensar que, se fosse eu, seria a maior confusão. Teria que ficar muda.
   Encontramos o PC 13 no curral. E, juntos outra vez com os meninos da BB Adventure, encontramos no PC14 uma pista escrita no chão com pedaços de madeira e fizemos um corte de caminho pro 15. Daqueles que, provavelmente, todo mundo fez. Aliás, queria saber onde esse povo achou perna pra correr tanto naquele sol quente. Ninguém cansou, gente! Estava me achando tão rápida, rs! Mas, meu-Deus-do-Céu!, levei o maior susto quando vi a planilha de tempo. A distância entre nós e a primeira equipe de todas foi de quase 4 horas no final da prova. Que coisa chata!
   Sei que cheguei no PC15 com muito calor e calafrios. Vitor parecia um camarão, já que perdeu boné e óculos pras abelhas. Nossa água fervia no squeeze da bicicleta e na mochila não tinha mais nada. Pedi ao morador da casinha água pra beber e pra jogar na cabeça. Também tive que tomar um remédio, caso contrário, acho que terminaria a prova rastejando. Dizem que picada de abelha dá fraqueza. Desculpa boa, eu tinha, rs! E depois vou ter que tomar um remédio de verme porque o que tinha de cabeça de prego naquela água não estava no gibi!
   Ali, assinamos o PC na posição 15 do geral. Recompostos, saímos para o trecho final da prova, pedalando. Com poucos minutos o Tandrilax fez efeito e já me sentia bem melhor. Além disso, o vento do sertão fica mais fresco pela tarde e a brisa leve já ajudava bastante. O medo era de anoitecer porque sem luz o negócio ficaria feio pro nosso lado. Eram PCs distantes mas com percursos mais fluidos, de estradão, exceto por umas pegadinhas rápidas.
   Vitor recitava dois palavrões por cada porteira e três por cada mata-burro longitudinal... Parece legal mas fala cada palavrão pior do que o outro, rs!
   Um bom exemplo de pegadinha foi um corte de caminho bem pertinho do PC17. Vitor estava na frente e desceu na maior velô por aquele singletrack que parecia delicioso de percorrer! Uma estrada aberta, lisa, sombreada, a coisa mais fofa do mundo! Não deu 50 metros pra ficar impraticável de tanta pedra. Sacanagem retada!
   Ainda bem que do 17 pro 18 era só estradão! E pra chegada também. O medo de escurecer nos fez pedalar com mais ânimo. Os empurrões de Vitor também. Sei que depois de pouco mais de 10 horas de prova, nós chegamos comemorando por terminar mais essa prova, e ainda pontuar no RBCA (Ranking Brasileiro de Corrida de Aventura). Ficamos em décimo primeiro entre as duplas.
   Esse negócio de RBCA é bem bacana! Esperamos ficar entre os dez por algum tempo, já que sabemos que a coisa é bem dinâmica e temos que participar sempre de umas provinhas pra colher pontos por aí afora.
   Foi uma prova massa! Que dia! Como valeu a pena acordar 2h da manhã! Curtimos tanto, que esquecemos da vida completamente. Voltamos pra casa resenhando horrores! Podres de sujos, arrumamos um posto de gasolina na estrada pra comer alguma coisa e, como duas crianças que brincaram o dia inteiro, dormimos exaustos depois de um bom banho.
   As unhas?? Ah, tive que ir no salão pra tirar o resto do barro que não saiu de jeito nenhum.
   Esperamos participar da próxima etapa do CICA, minha gente. Pena que não dá pra correr tudo. Estaremos viajando na Casco de Peba mas o Desafio dos Sertões nos levará até nossos amigos de Juazeiro, com certeza. Mucugê nos espera, com fé em Deus! E vamos em frente que a vida passa e o tempo urge. Não tem terapia mais bacana do que Corrida de Aventura! A vitória já começa na linha de largada.
   Vida longa pra nossa Corrida de Aventura e aos organizadores dessas provas que têm um trabalhão pra fazer nossa terapia ficar mais intensa!
   Até breve!



terça-feira, 24 de março de 2015

Resenha da NP3

Foto de Claudia Tedesco

   A Noite do Perrengue estava cheia de Aventureiros do Agreste! Se não me perdi nas contas, seis duplas, além do nosso Aventureiro “Solo”, Fábio. Deixe eu lembrar... Marcelo Amorim e Maurício, Claudio e Marcelo Azoubel, Lucy e Vande, Gabi e Mauro, Tadeu e Laísa com um convidado, mais eu e Vitor de Targa Náutica Aventureiros do Agreste
   Fábio estava tão pilhado pra fazer a prova que resolveu ir de qualquer jeito. Foi lá pra casa com a bicicleta no carro e ainda fez uns sanduíches deliciosos pra nós.
   Coisa mais linda ver nossas camisas desfilando no Quintas Private. E que lugar delicioso de fazer largada de corrida!! O problema é que dá vontade de ficar rolando naqueles sofás a noite toda...

Foto de Fábio Linhares

   Nosso treinador, no pórtico de largada, disse que ficaríamos numa das três posições do pódio, profetizando. Pressão pura! Nas duas primeiras versões não tivemos pódio. Pequenos erros de navegação no trekking nos tiravam das primeiras posições. E quem não tem um preparo físico de atleta de ponta, meu amigo, não pode se dar ao luxo de fazer merda na navegação. Tava repreendido!! Precisávamos tirar o ranço da Noite do Perrengue, fazendo uma prova com foco na navegação sem erros. Por isso, fiquei namorando o mapa até quase meia-noite, hora de largar.

Foto de Claudia Tedesco

   Sem participar de competições desde o ano passado, a ferrugem corroía até a alma, rs! Sei que a gente deu nossos pulos, treinou o que pôde e foi pra corrida.
   Depois de todas as explicações, avisos, apresentação das equipes, rasgação de seda, recebemos o mapa da prova, todo trabalhado na cor e na curva de nível. Aliás, os mapas. Um de trekking outro de bike, com escalas diferentes. Fique esperto navegador!

Foto de Fábio Linhares

   Entre os mais de 120 atletas, largamos correndo e, logo na primeira referência, o fluxo de gente entrando na trilha errada nos induziu a um erro. Voltamos sem demora pra recomeçar da referência correta. E talvez esse tenha sido o primeiro passo para fazermos uma boa prova. Sem preocupação com as outras equipes...
   Essa contaminação faz bem pra todo mundo, menos pra mim... Acho que já conversamos sobre isso, rs!... Preocupação excessiva com os outros, com tempo de prova e outras coisas me desestabilizam. Sou toda errada! A psicologia do esporte teria um trabalhão comigo. O primeiro motivo é que não sou uma atleta de “ponta”, por diversos motivos não consigo treinar tudo que Tadeu orienta, e o segundo é complemento do primeiro: preciso focar no mapa. Tico e Teco se distraem com facilidade, rs!
   Pelo menos a metade das duplas achou o PC1 na mesma hora. Formou-se uma fila enorme de atletas afundando os pés na lama do mangue, já sentindo o gosto da grande aventura que nos esperava pela noite afora. Os tênis tinham que ser firmes nos pés pra não ficarem num buraco daqueles... Lembrei de uma prova em que Mauro perdeu o tênis num buraco de caranguejo, rsrs! Deu um trabalho danado pra catar de volta e nos rendeu tantas risadas que nem brigamos com ele pelo atraso.
   Resolvemos dar a volta maior pela trilha até o PC2, do que arriscar entrar no mangue pelo caminho mais curto. Foi bem rapidinho! Eu, especialmente, cheguei em grande estilo. A fila já se formara... No afã de chegar brocando em alta e não perder o lugar, corri feito louca, tropecei num tronco e voei baixo até os pés do último da fila. Tá vendo que essas coisas de competitividade não funcionam comigo? Pago mico demais! Como uma jaca cai do pé, caí na fila. Sorte que a areia fofa da praia amorteceu a queda e pude gargalhar de mim mesma, sem um arranhão. Foi ridículo!
   No quilômetro e meio até o PC3, pela areia da praia, pensava na quantidade de prismas de trekking que ainda tinha pela frente. Lembrava das versões anteriores da prova, onde os erros no trekking nos levaram aos cortes. Queria acabar o mais cedo que pudesse pra não perder nada da brincadeira. Quando você vai a um parque de montanhas russas não quer ir em todas? Cheia de justificativa, peguei a mochila das costas de Vitor (só levamos uma nesse trecho), pedi pra ele segurar na fita das minhas costas e botei minhas pernocas pra fazer o que mais gostam: correr. Correr como se tudo que estivesse atrás de nós fosse explodir naquele momento e só nos restasse salvar nossas vidas. Foi muito legal, rsrs! Meu amor sofreu um pouco, mas depois agradeceu. Ele curtiu!
   Levaram o picotador do PC3. A fita zebrada estava lá. Procuramos bastante para evitar problemas e nos pirulitamos. Não satisfeitos com toda lama e areia, era hora dos nossos organizadores perrenguísticos nos colocarem na água. A estrada acabava. Parece que desistiram de construir a ponte de última hora, como nas histórias em quadrinhos, e começava lá do outro lado. E nós, como estávamos, pulamos na água, ora pisando no chão ora nadando, até o outro lado na pista... E tomamos fôlego pra correr novamente. Vixe! A mochila ficou uns quilos mais pesada de tanta água que acumulou.
   Nossa, que felicidade por estar ali! Até combinei com meus filhos que se subisse no pódio a vitória seria deles. Eu me sentia um pinto no lixo!! Antes, toda suja de lama, naquele momento, ensopada de água.

Foto de Fábio Linhares

   Saímos na pista de asfalto do condomínio mas, com poucos metros, nos metemos pelos matos outra vez. E na água de novo! O fundo do charco era junco ou lama ou nada. Numa noite tão quente, um banho de rio revigora completamente. E rima!

Foto de Claudia Tedesco

   Subimos uma trilha íngreme até a estrada de barro, seguindo o plano de pegar os prismas no sentido contrário, do 7 ao 4. Aquele trekking foi um exercício bem gostoso! A mata ficava mais fechada em alguns momentos mas a trilha nunca desaparecia. Areia de duna, terra batida, trilha estreita, trilha larga, trilha coberta de árvores, trilha descoberta... E ainda passamos na casa do Zé, que só depois que descobri que era o crânio engraçadinho que Gaia colocou nos seus vídeos/briefings, rs! Lerdeza da zorra, a minha! Bem que achei a casa do Zé bem derrubadinha pra morar uma pessoa de verdade.
   Nós que não estivéssemos com os canivetes CIMO em mãos pra separar as bicicletas presas umas às outras com amarra gatos grossíssimos no PC8. Só aqueles canivetes pra cortar aquele troço. Brinde que vai nos acompanhar em muitas trilhas, sem dúvida.


Foto de Fábio Linhares

   Era pouco mais de 3 km até o PC9. O descidão pareceu mais irado de carro do que de bike mas não perdeu a graça de forma alguma. Minha bicicleta, mesmo revisada, saiu sequelada do 8, como se tivesse chovido. Descemos o downhill com Mauro e Gabi, passamos pelo portão de serviço do Complexo Sauípe, atravessamos o asfalto, a vila e seguimos sem demora para o PC 9. Aquele ventinho no rosto lembrava minhas crianças de um jeito tão gostoso que pedalei com a sensação de que eles me acompanhavam em sonho. Meu anjo da guarda, o Zé, com certeza foi. Convidei pessoalmente na noite anterior.

Foto de Fábio Linhares

   O PC10 já era dentro do eucaliptal. A agradável noite tinha cheiro familiar de provas das antigas. Cheiro que desentope nariz. Uma delícia de trilha capaz de fazer qualquer um perder o controle... Estou falando do controle do mapa, rs! Gente, era tanta trilha secundária que precisava ficar atento às bifurcações! Tinha trilha principal que parecia secundária, trilha secundária com jeito de principal. E cruzamento de trilha em forma de "Y", de "T", de "+", de estrela do mar, de asterisco. Coisa doida mesmo! E meu marido estava animado que só! Toda vez que os outros Aventureiros passavam, ele saía conversando e pedalando sem perceber que se afastava. Enquanto minhas pernas ardiam, marido bonito não mais ofegava e nem parecia que tinha sido rebocado e botado os bofes pra fora poucas horas antes.
   Entre o 10 e o 11, tinha o complexo PCX. Na encruzilhada, tipo estrela do mar, estavam várias equipes fazendo conjecturas. Conferi uns azimutes básicos para subir a trilha por alguns metros. Várias equipes tiveram a mesma ideia no mesmo lugar. Batemos o azimute e descemos uma ribanceira retada, que nos levou direto até a trilha do PC. Deu trabalho pra voltar mas nada que não já tenhamos sofrido dobrado em provas de aventura. Sofrimento pouco era bobagem! Era tudo o que precisava pra relaxar.
   Achamos o PC 11 um pouco depois do plotado no mapa, como Gaiamum tinha avisado. Dali, enfrentamos o singletrack irado para o PC 12, que no começo até achei que os alertas tinham sido exagerados, rs! Depois que vi a porra pegando, me arrependi de ter pensado qualquer coisa do povo... Desci da minha magrela e andei pela trilha sem vergonha de ser feliz. Além disso, os mosquitos gostaram tanto das minhas lanternas que penetravam por todos os buracos do meu rosto.
   No final do singletrack a trilha virava um cotovelo para esquerda. Chegamos até a subir uma ladeira depois do rio por pura falta de atenção mas logo voltamos para encontrar a trilha perdida. Que trilha! Acho que passamos por uns dois riachos carregando a bicicleta e enchendo as sapatilhas de lama. E a subida até o PC 12 foi cruel. Ainda bem que tinha Guaramix ultra-mega-gelado no final da ladeira. Puxa, como eles conseguiram deixar aquele Guaramix com tantas pedrinhas de gelo? As pernas até pararam de doer, não sei se foi o Guaramix ou se foram as descidas que apareceram aos montes. Tudo fluiu agradavelmente! Passamos longe do corte. O dia amanhecia e eu AMO amanhecer o dia pedalando por esses matos afora!
   Pra variar, lá estavam nossos amigos Agrestes. Perseguição... A gente passava deles, eles passavam da gente.. E isso se repetiu várias vezes.
   Assim que chegamos no retão que nos levaria ao PC 13 apareceram vários atletas dizendo que o bar não era ali, que era mais atrás, que isso, que aquilo. Oh, Jesus!! Eu estava contando cada milímetro daquele percurso. Como essas coisas influenciam! O detalhe é que a gente perde tempo e acaba fazendo besteira mesmo. Entrei numa rua, o bar não estava. Fui na outra... Meu marido abaixou a cabeça pra consertar “não sei o quê” e não me viu entrar na rua do bar/PC. Passou direto e, se não desse falta do indivíduo, ia embora a viagem dele até desembocar no mar. Sem a navegadora, sem mapa, seguindo carreira solo! Rs! Todo serelepe, se achando! Ainda bem que voltou.
   Dali foi só pedalar mais 7km até a boca da barra do rio pra fazer o remo. Parece pouco pra quem está com a bunda intacta mas pra mim era mais um pedal agonizante. O trechinho de asfalto aliviou, o paralelepípedo estropiou, o barro amaciou, a costela de vaca desfacelou. Enfim, o rio, o PC 14! Carol e Tiago esperavam para nos colocar na fila para remar. Tinha uma turma na água, outra na terra, aguardando a vez.

Foto de Fábio Linhares

   Deu tempo de descansar, trocar tênis, comer e beber água até chegar nossa vez. Nem dava pra acreditar que o povo tinha que trazer o barco por um trecho de areia e nós teríamos de levar tudo outra vez. Castigo da zorra! Remamos contra a correnteza por pouco mais de 20 minutos. Paramos na frente da referência pra procurar o tal PC 15. Ave Maria! Ele estava super escondido na trilha do mangue. Mas pra chegar até lá, tinha que passa por trilha, apicum com a água pouco acima do tornozelo, outra trilha no meio do mangue até o PC. Só Jesus Cristo na causa! Que bom que era dia!

Foto de Fábio Linhares

   O remo de volta foi refrescante! Os braços nem precisavam ter muito trabalho com a correnteza nossa amiga. Em pouco tempo completamos o percurso e a prova.
   ...
   Então tá, a prova acabou ali! Mas teríamos que escolher entre atravessar de caiaque, deixar as bicicletas do outro lado do rio, voltar pra devolver o caiaque e atravessar nadando, ou então voltar pela estrada de bicicleta por mentirosos 8 km. Acharam confuso? Pensamos bem, vimos a maré vazante, percebemos a fila de atletas para a travessia e resolvemos pedalar.
   Mas quem foi mesmo que disse que eram 8km? Sem sacanagem, eram 16km, por baixo. “Oh, céus! Oh, dia! Oh, noite! Oh, azar!” Eu parecia o ranzinza fazendo a corrida maluca. Reclamei, rs! Mas como não tinha preocupação com hora pra chegar, fui devagar.
   Perrengue concluído! Dessa vez com pódio pra Targa Náutica Aventureiros do Agreste em terceiro lugar.
   Sofrimento recompensado com um café da manhã no estilo hotel cinco estrelas com ovo, pão, frutas, sucos, frios, mingau, café, leite e um catatau de itens, servidos na maior fartura, repostos até a chegada do último atleta. Só faltou massagem pra ficar perfeito, rs!

Foto de Fábio Linhares

   E dedico meu troféu aos meus filhos lindos, Tiago e Tila, que ficaram em casa me esperando e sempre torcem pra gente mandar bem nas provas! Sou grata demais por vocês em minha vida!
   Marido lindo, obrigada pela companhia mais uma vez! 
   Ao nosso treinador querido, sempre otimista com nossos resultados, muita gratidão!
   À Targa Náutica, pelo patrocínio e incentivo, gratidão muita!
   Ah, que Noite do Perrengue! Obrigada Gaia, Arnaldo e família do Perrengue, por terem nos proporcionado uma noite de amor com a natureza! Que relacionamento intenso!
   Aventureiros do Agreste, eu amo vocês! Quantas vezes preciso dizer? 
   As fotos apresentadas aqui no blog são de Fábio Linhares e Claudia Tedesco. Todas são identificadas mas você também pode clicar nos nomes deles e ver os álbuns completos com cada foto mais linda que a outra! 
   Beijos e até breve!