segunda-feira, 29 de abril de 2013

Vale do Capão- Parte II- O singletrack mais bonito da Chapada.

   Para o segundo dia de trilhas na Chapada Diamantina, um roteiro mais “hard” de mountain bike. No mapa parecia bem tranquilo, com trilhas bem marcadas... Uma programação de 20km até o Pai Inácio, sempre por dentro de vales, passando entre o Morrão e um pedaço da Serra do Sobradinho, Águas Claras, Pai Inácio... Do Pai Inácio, mais 15km até Lencóis. Depois, bastava voltar pelo mesmo caminho, completando 70km de puro mountain bike, repleto de estradinhas, trilhas, areia, buracos, pedras, subidas, mato e muito mais. Só alegria e emoção!
   Ninguém no Vale do Capão aconselha um turista ir à qualquer trilha sem guia, muito menos a do Pai Inácio por Águas Claras. Isso lembra aquela propaganda da FORD em que os bichinhos falavam: “A gente é bicho, baby”!
   Tralhas arrumadas na noite anterior... Na mochila, comida para um dia inteiro no mato, incluindo a boa e velha lata de sardinha, caso não rolasse almoço de verdade pelo caminho. Canivete, kit de ferramentas para bike, bússola e faróis. Muita água e isotônico, além de suco, chocolate e mucilon em caixinha também. Um peso danado nas costas de Vitor- meu fiel escudeiro e amado namorado-, que acabou levando peso o tempo todo, apesar de termos combinado um revezamento.
   Como navegar era preciso, namorei o mapa por um bom tempo antes de dormir para entender nosso roteiro e suas bifurcações.
   Depois do café da manhã e dos últimos ajustes, avisamos na Pousada do nosso destino, caso algo fora do planejado acontecesse... E saímos pedalando por aí afora.
   Dois quilômetros e meio de estradão no sentido de Palmeiras, entramos à direita na estradinha para Águas Claras, já medindo as distâncias para ter certeza de que o mapa estava bem calibrado. Por ali ainda tinha umas casas para nos despedirmos dos últimos sinais de civilização. Lugar bonitinho, com sombras de árvores refrescando o ambiente. Atravessamos o riacho e zeramos o odômetro para contar mais uns 2km até a entrada da trilha para a direita.
   A recepcionista da pousada tinha avisado que a entrada da trilha ficava antes do fim da estrada... Até contou que já se perdeu por lá. E quem não se perdeu? Soubemos de vários casos. A estrada acabou, apareceu uma cerca. Ficamos ali, “tateando” uma passagem. Da cerca havia um riacho, do outro lado uma casinha fechada. (Cá pra nós, que lugar que tem riacho!) Não lembrava daquele lugar na minha última passagem por lá em 2011. Algo estava errado e meu instinto feminino, afirmava isso veementemente. Então decidimos voltar um pouco para conferir as distâncias e achar o caminho certo.
   Para se perder na Chapada basta estar lá... Se a pessoa se desesperar fica por lá mesmo, morando perto de um riacho, rs! Como a gente nem chega perto do desespero, foi só voltar uns 500 metros para notar uma trilha tão discreta que dava a impressão de que caía de volta na estrada. Tímida, que se revelou num lindo singletrack com árvores pequenas que cobriam nossas cabeças.
   Apesar do fogo ter destruído grande parte da vegetação, o melhor singletrack da Chapada Diamantina, segundo ciclistas dali, de lá, de cá e de acolá, continua lindo. O verde estava voltando. A natureza é incrível! Basta uma chuvinha para começar a trabalhar para o nosso bem. O incêndio de um mês atrás não chegou até o Morrão. Então a gente já começava a desfrutar de uma paisagem cada vez mais bela.
   Sempre atentos aos detalhes do mapa, passamos entre um riacho e uma serra. Pedalando mais um pouquinho,  apareceu uma bifurcação. Conferido azimute, pegamos a trilha para esquerda. O tempo passava, a navegação realmente não era tão simples e começamos a pensar no plano B. Voltaríamos de onde estivéssemos ao meio dia. Depois de mais um riacho, entramos no vale entre o Morrão e uma parte da Serra do Sobradinho, sempre atentos às bifurcações e traçando azimute.
   Em Águas Claras, lavamos o rosto e seguimos sem demora pela trilha na beira do rio. O tempo estava muito bom, algumas nuvens nos protegiam do sol, além do ventinho.
 
   Curtimos tanto que não percebemos o passar do tempo. Deixamos o Morrão pra trás, beirando a Serra do Sobradinho. Atravessamos outro rio, num singletrack dentro da mata e pedalamos mais e mais. Dessa vez beirando outra Serra e chegando a outro rio. Quantos rios!!
   Já dava ouvir o barulho dos carros da BR 242, pertinho do Morro do Pai Inácio. Encontramos a ponte e a casa que estavam no mapa e seguimos na direção de Lençóis por aquela trilha pedregosa, super técnica e travada. Vitor até pedalou um pouco, mas sentiu-se desencorajado porque algumas pedras estavam bem pontiagudas. Na verdade, ele pedala muito bem, mas seu pneu dianteiro começara a apresentar uns furos daqueles de espirrar o líquido do notubes na cara da pessoa... rs! Corríamos o risco de dormir no mato, caso sua coragem fosse tão grande, rs! Foi ali, depois de andar pouco mais de 1km, que resolvemos voltar. Já passava de uma da tarde. Não daria tempo de chegar a Lençóis e voltar pelo mesmo caminho. Ou seja, plano “C” em ação, que era pegar a BR 242, entrar para Palmeiras e seguir para o Capão pela estrada de barro. O caminho que todo mundo faz. O detalhe é que tínhamos pedalado 29km. E, daquele ponto da 242 até Capão pelo “caminho que todo mundo faz” dava 50km. Mesmo assim, era mais seguro do que pegar a trilha de volta.
   Pausa na beira do rio, na ponte da casinha, para almoçar a bendita sardinha. Tomamos um banho pra refrescar e partimos pela estrada afora. E que estrada! A 242 é perigosíssima! Os caminhões gigantes descem as ladeiras embalados. Vinte quilômetros divididos em duas descidas e duas subidas, cada uma de mais ou menos 5km. Estávamos cansados! As duas descidas foram alucinantes a mais de 50km/h. De vez em quando, tocava no freio só pra ver se funcionava mesmo, rs! Já as subidas não foram assim tão interessantes, embora não fossem ladeiras tão íngremes, só longas. Bom... Ao menos não eram tão íngremes, só longas, rs!
   Comemoramos por chegar à entrada para Palmeiras. Os perigos por lá são outros. Não há acostamento... Bicicleta não tem vez! Oito quilômetros sofridos contra o vento. Vitor já estava com fome e seu rendimento caiu um pouco. Eu também estava exausta... Pensando bem, até que não estávamos tão mal assim. Eram quase 4h da tarde a 19km/h contra o vento, depois de mais de 6 horas pedalando. Precisávamos com urgência de uma coca-cola bem gelada e um sanduíche bem gostoso.
   Cá pra nós, Palmeiras não tem um lugar que preste pra lanchar. Melhor você não pensar em parar por lá, caso resolva se aventurar pela Chapada. Em plena quinta à tarde, rodamos a cidade toda em busca de uma lanchonete. Até que encontramos uma mercearia inesquecível! Foi lá que comi o pior sanduíche da minha vida! O pão estava tão duro que não teve chapa que resolvesse o problema. A carne do hambúrguer, a salada... Meu Deus! Ainda tentamos chupar um geladinho com gosto de água suja misturada com sabão. Ah! Não quero falar mais sobre esse assunto, rs! Aventureiro que se preza, come o que tem. Aventureiro que se preza sabe valorizar as coisas boas da vida e reclama pouquíssimo nos momentos da adversidade. No fechar da conta, consegui comer a metade e Vitor devorou o sanduíche dele. E louvada seja a coca-cola gelada! Ela sim, salvou o dia!
   Só faltavam os 20km de Palmeiras até Capão. Só! As ladeiras sem fim nos aguardavam. A noite estava chegando... Pegamos a estrada mais animados, depois de reabastecidos. Nada melhor do que comer, fazer um xixi e descansar um pouco para restabelecer a coragem! Mesmo que a comida seja ruim... rs! A paisagem também ajuda muito. A estrada é linda, tem morro pra todo lado, subidas desafiadoras e descidas alucinantes para compensar. Também há pontes e trechos beirando rio com muitas pedras...
   Chegamos exatamente às 18h no Capão, depois de 79km de pedal. 
   De tudo que vivemos naquele dia, teria mil melhores partes pra contar. Sempre, porque todas as partes são boas. Curto tanto que não há reclamações, rs! Mas, a melhor parte de tudo isso é ter um namorado mais doido do que eu, rs! O criaturo sugeriu essa aventura, confiando em minha navegação. A "doidice"já começa em achar que tenho algum juízo, rs! Ajudou em tudo, pedalou o tempo todo sem reclamar, mesmo quando tinha que me esperar chegar já que, além de ser mais lenta, acabava parando pra navegar. Curtimos tudo, desde o vento no rosto até as montanhas verdejantes. Curtimos a dor na perna na subida da ladeira, a adrenalina da descida, tudo, tudo, tudo. Tenho muita sorte mesmo!
   E para comemorar o dia cheio de aventuras, só nos restou ir até a Pizzaria do Tomaz comer a pizza Integral do Capão! Delícia!

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Vale do Capão- Parte I- Cachoeira da Fumaça


   
   Nunca será demais ir à Chapada Diamantina umas trezentas vezes. Dá para unir treino a passeio, curtir a natureza, andar por aí de bicicleta ou à pé, tomar banho de cachoeira, respirar ar puro, conversar com as pessoas da Vila, conhecer seus costumes. Por tudo isso e muito mais, eu e Vitor decidimos passar uma semana de férias no Vale do Capão. E, como adoro compartilhar aventuras, vou postar três passeios/ treinos que fizemos por lá. Quem sabe, algum leitor não se anima, larga tudo e sai por aí...
   Cachoeira da Fumaça foi a escolhida para o nosso primeiro dia de trilha. Depois de um bom café da manhã, arrumamos umas comidinhas (leia-se barras de cereal, castanhas e coisas de gente doida que faz trilha), compramos água no mercadinho da esquina e partimos para o mato. 
   O tempo estava ótimo para uma caminhada! Poucas nuvens depois de uma noite de chuva que serviu para deixar a paisagem mais verde e baixar a poeira da estrada.
   Para chegar à trilha da Fumaça, a gente tem que subir uma ladeira de uns 2km. Melhor ir andando a pegar o carro naquele paraíso. Em meio aos carros e motos que derrapavam na lama magnética, comentávamos sobre a trilha do dia seguinte. Nossos tênis ficaram com solados grossos de lama, pesados e escorregadios. Ficou difícil de subir até andando, imaginem de bicicleta...
   Todo mundo que vai pra Fumaça tem que escrever o nome no livro da Associação de Condutores da Chapada, que fica na entrada da trilha, para o caso desaparecimento. Registramos nossa passagem e seguimos num ritmo de trekking constante pra ver quanto tempo dava de um ponto ao outro. Animados com a paisagem, a cada olhadinha pra trás (Na verdade a gente fingia que parava para olhar mas, era para tomar fôlego, rs!) o vale ficava mais fundo e longínquo. As casinhas diminuíam de tamanho, os morros apareciam lá longe, inclusive o Morrão, que fazia parte do nosso roteiro do dia seguinte.
   Lindo de viver! Ofegante também... Aquilo tudo é muito alto, bem acima do nível do mar. E a pessoa tem que se acostumar a respirar, convocar as hemácias pra levar oxigênio pro cérebro pra evitar um custipio. Até chegar ao topo a pessoa acaba se acostumando e pegando fôlego. No platô volta tudo ao normal, a natureza devolve o sacrifício com beleza e ar puro da melhor qualidade. É como uma visita ao céu, um silêncio que lhe convida a calar, que amansa o corpo inteiro, até a respiração.
   Optamos por fotografar só na volta. O percurso de ida durou uma hora e quinze minutos. Não tem dificuldade de navegação para chegar à Fumaça! Sobe, sobe, sobe, anda pelo platô, passa por três riachos, depois pelo rio da própria cachoeira e lá está ela... Imponente, suntuosa, elegante, assustadora... Sempre tenho a mesma sensação: Sou tão pequena diante daquilo tudo! A cachoeira estava entre nuvens.
   É preciso ter coragem pra chegar rastejando até a beira para admirar o que tem lá embaixo. São quase 400m até um lago que, visto de cima, parece uma pocinha. A água não tem força para chegar até o lago como água. Vira fumaça. As nuvens saíram de cena um pouquinho, só pra gente admirar o vale, depois voltaram novamente. À propósito, as nuvens deram um charme especial à Cachoeira da Fumaça! Pareceu outro lugar, conseguiu ficar ainda mais linda, como se isso fosse possível. As fotos ficaram lindas demais!
   Lanche, fotos, contemplação... Aquela imensidão insiste em lembrar do quanto somos pequenos. Uma imensidão que nos convida a meditar, a agradecer por estarmos ali. Deu até saudade agora...
   Pena que não dá pra morar na Cachoeira da Fumaça, rs! Fizemos todo o percurso de volta com paradas para fotografar e contemplar. Escrevemos nossos nomes naquele caderninho outra vez, sinalizando que voltamos do passeio no mato e quase rolamos ladeira abaixo pra Vila, rs! Dessa vez a lama estava secando e nenhum veículo automotor escorregava loucamente. Mesmo assim, não dava pra esquecer de que passaríamos por ali de bicicleta no outro dia... Aliás, aquilo nos deu uma ideia melhor: Decidimos pegar as bicicletas e “provar” a ladeira naquela hora mesmo, já pra desmistificar o problema.
   Mas, e a fome?? Tudo bem então! Fizemos o sacrifício de almoçar aquele PF delicioso da Dona Belí, pegamos as bicicletas e voltamos na ladeira íngreme e escorregadia. Que já não estava tão escorregadia mesmo. E nem era essa dificuldade toda, bastava respirar direitinho e ir devagar. Além disso, aproveitamos para ir um pouco mais longe e observar a entrada para a trilha do Morrão...
   Uma voltinha de bicicleta só pra refresco... O dia seguinte nos esperava! Nossos planos estavam traçados. O “A”, o “B” e o “C”, rsrsrs! Porque quem planeja pedalar 80km precisa de planos em vários níveis...

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Release da Prova do CT 2013


   Todo mundo ansioso com a chegada da prova do CT Gantuá no domingo, 14 de abril. Diana e Alan, atletas da Gantuá, são tão craques em fazer provas de alto nível que ninguém quer perder. Se eles fizerem batizado de boneca, o povo vai! Com o pessoal do Mural de Aventuras, então, é que a coisa ficou melhor ainda. 
    Por causa do Desafio dos Sertões, há 15 dias atrás, e de nossas atividades com trabalho e família, não sobrou tempo para treinar no próprio circuito. Na verdade, fizemos duas tentativas. A primeira numa sexta-feira, quando só pedalamos os primeiros 15 km porque a bicicleta de Vitor empenou a jante... Na boa... Naquele dia pensei em não correr. Adoro fazer trilha, mas não tenho hábito com corridas de mountain bike.  Acho muito ofegante, sabe como é?! Fiquei imaginando aquele cenário lindo, entupido de ciclistas se cotovelando. Na Corrida de Aventura a gente se desgarra da galera, anda no ritmo que quer, se perde, se acha... A coisa pode ser mais light se a gente precisar ou quiser que seja. No mountain bike é coração na boca o tempo todo. Fico meio afobada. Falta de costume mesmo.
   A outra tentativa de reconhecer aquelas trilhas foi na terça-feira antes da prova. Mesmo com os treinos oficiais encerrados, fomos à Praia do Forte bem cedinho, paramos o carro perto do CT Gantuá, nos arrumamos na ponta dos pés pra não acordar ninguém e partimos para o pedal de 30km, já demarcado. Dessa vez, sim, quase conseguimos. Quase! Não é que erramos o caminho no finalzinho e perdemos uns 4km, voltando pelo asfalto!
   Então vamos ao que interessa...
   Dia de festa na Reserva da Sapiranga! Todos alinhados no portal de largada... Vários casais de amigos competiam em nossa categoria. (Tá todo mundo namoraaando, rsrs! Nem conta pras amiguetes, heim Marcela??) Fooooonnnn... E a galera saiu afoita, com os rapazes empurrando as moças no afã de ganhar distância já nos primeiros 300 metros de prova. A gente não faz isso pra não correr risco, rs! Tenho um medo de cair da zorra e ainda fico preocupada em desgastar meu parceiro pelo resto da prova.
   Seguimos pelo único trecho de asfalto da prova (uns 2km) naquela adrenalina de começo. Dali em diante começava a brincadeira de pedalar na trilha. Estava me sentindo a própria ciclista, naquele singletrack irado. Minha bicicleta, Filomena, parecia mais leve e ágil. Ou será que eu estava mais vitaminada e energética!!?? Numa velocidade acima dos treinos, dava pra perceber a cara de surpresa de Vitor ao olhar pra trás e me ver ali colada. Dos obstáculos que havia memorizado no dia do reconhecimento do percurso, nem lembrava. Foi me dando aquela coragem que conheci, fazendo Corrida de Aventura. A de sempre mas, talvez, meio adormecida! Sou uma pessoa no treino e outra na competição... Assim dizia meu amigo Aluino, quando competia com a gente.
   Não perdoava areia, pedra, descida. Ops! Perdoei uma subida... Sim, aquela era muito íngreme e, cá pra nós, poderia ter empurrado minha bicicleta um pouco mais rápido, não fosse pelo leve congestionamento, rs! Quem faz Corrida de Aventura tem também essa vantagem: Sabe empurrar bike que é uma beleza! Ah! Teve mais umas ribanceiras que Deus me livre de descer pedalando!
   Ainda bem que não teve tanta fila! A largada por categoria aliviou o trânsito na trilha. Tudo bem organizado mesmo! Claro que tinha uns atletas que largaram na categoria light e passavam tirando onda de gatinhos, rs! Deveriam fazer o percurso Pró, tavam no lugar errado! Poderiam até passar mas, sem soltar piadinhas sem graça, rs!
   Pôxa, a Sapiranga é linda demais! As trilhas mais fechadas são tão cobertas de vegetação que fica mais escuro e úmido, com cheiro de terra molhada o tempo todo. Lembrei do Running Daventura que teve lá. Tive a mesma sensação de força. A força da natureza, a força do meu anjo da guarda, minha força de guerreira. Uma sensação deliciosa!
   Quando terminamos o singletrack do trecho light, tínhamos deixado pra trás umas três duplas mistas. Subimos os três ladeirões no maior pique. Vi uma dupla à nossa frente com uma atleta sendo empurrada e comecei a pedalar com mais força. Passei por Vitor e falei: “Ali está o nosso gás.” Nem sabia quem era mas, a brincadeira funcionou. Vitor veio atrás mas, percebi que estava um pouco cansado. Bom é que, mesmo cansado, ele consegue pedalar melhor do que eu. (Também, com aquela bicicleta leve retada, até eu, rs!.. Será  que ele vai ler esse release?) Então, poderemos concluir que, se eu pedalar bem, ficaremos bem sem que precise me empurrar. Pelo menos o raciocínio é válido e ninguém quebra ninguém, rs!
   Dali em diante, veio mais força. O gel de carboidrato fez um efeito danado! Pena que a água de Vitor voou pelos ares, aliás, pelas trilhas. Mesmo assim, ele administrou certinho. Subimos, passando por algumas duplas masculinas que largaram um pouco antes de nós. Descemos uma rampa onde estavam "indivíduos do público"(Rsrsrs!!) de plantão, assistindo aos tombos e fazendo barulho à nossa passagem. A galera foi ao delírio quando Vitor pulou um obstáculo, ultrapassando um atleta que freou à sua frente. Atravessando o portal, já iniciando a segunda parte dos 30km, Vitor percebeu que seu pneu furou e nossa prova acabou bem ali. Snif!
   Que balde de água fria! Tentamos encher por 3 vezes. Na terceira, nossos amigos da mesma categoria já passavam perguntando o que aconteceu e seguindo, óbvio... Nossa prova acabou!
   Mas, acho que a gente já conseguiu entender um pouco nosso ritmo de prova com essa experiência. Infelizmente, não dava tempo de fazer uma troca de pneu e seguir adiante. Talvez o tempo de prova já tivesse se esgotado, não sabemos ao certo. Talvez a gente ficasse com bom resultado, talvez não, caso não tivesse furado o pneu. Paciência... Prova é assim mesmo. Não dá pra cantar vitória antes do tempo, menos ainda quando acaba o tempo.
   Sorte que o pneu furou pertinho do nosso carro, das frutas, da água, do suco, rsrsrs! Sorte que isso é importante pra gente mas, não tira o nosso sono! Sorte que pudemos cumprimentar os amigos, tirar umas fotos com Eudes e Maurício, nossos novos companheiros Aventureiros, e pegar uma praia para não perdermos o dia. Sorte que a gente não se machucou! Muita sorte! Da próxima vez, a gente enche o pneu direito pra não dar merda, confere tudo antes de sair! Tenta fazer melhor...
   E, por aí, seguimos treinando e em frente, porque atrás sempre vai ter gente, rs! Assim espero!
   Ah!! E se for para escolher ter sorte no jogo ou no amor, vou querer perder todas as provas, viu Zé?! Nada de brincar com isso!
   Tchau pessoal! Até breve!

sábado, 6 de abril de 2013

C I C A 2013- CAMPEONATO DO INTERIOR DE CORRIDAS DE AVENTURA


Que notícia boa! Vamos ter o Campeonato do Interior de Corridas de Aventura esse ano. Uma oportunidade excelente para quem quer começar a se aventurar pelos matos e para quem já corre e quer treinar, competir ou só se divertir. 
Ano passado foi muito legal! A turma que está organizando é super competente e cuidadosa... Diversão garantida!!!
Vejam o que vem por aí!
MODALIDADES:
Orientação, Mountain Biking, Trekking e/ou modalidade extra.

DATAS etapa
05 de maio CANGAÇO
02 de junho MANDACARU
07 de julho PELEJA

CATEGORIAS
DUPLA (formada apenas por homem)
DUPLA MISTA (presença feminina no conjunto)

PECULIARIDADES DO EVENTO:
As provas contemplarão um bom condicionamento físico e principalmente a técnica dos atletas em todas as categorias.
Os locais das provas terão terrenos variados e apresentarão todos os tipos de vegetações.
O percurso das provas serão no mínimo de 30 km e no máximo de 40 km.

PRAZOS, DATAS E TAXAS DE INSCRIÇÕES PARA COMPETIDORES:
1º PRAZO: R$ 50,00 por atleta.
O 1º prazo se encerra 30 dias antes de cada evento.
Até 05 de abril às 23h59min: ÚLTIMA DATA LIMITE

2º PRAZO: R$ 60,00 por atleta.
O 2º prazo se encerra na semana do evento.

O PACOTE PROMOCIONAL: R$ 120,00 por atleta todo o CICA.
Até 05 de abril às 23h59min: ÚLTIMA DATA LIMITE
O Pacote Promocional se encerra 30 dias antes da 1ª etapa, ou seja, até dia 4 de maio de 2013.

Dados para depósito da inscrição da 1ª etapa ou do Pacote Promocional:
Banco do Brasil, Ag.: 0041-8; C/C: 51945-6. Marcel Figueiredo Gama, CPF 017.215.396-65
Favor enviar e-mail para identificação da inscrição e depósito: eniopaulo@ig.com.br

PREMIAÇÕES:
Todos os atletas que participarem e completarem as provas receberão a parte do troféu do CICA daquela etapa, montando o seu troféu CICA ao final do campeonato, independente de sua colocação na etapa.
Cada etapa dará destaque até a sétima colocação: 1º lugar ao 7º lugar.
A base do troféu será entregue apenas na 1ª etapa – Cangaço – junto com a primeira parte do seu troféu CICA.
Os campeões do CICA receberão, na última etapa, o troféu único e exclusivo de CAMPEÃO CICA 2013. Isto será para as duas categorias.
Premiações em dinheiro, Flâmulas de Liderança e distribuição de brindes fica a critério de cada etapa.

PROGRAMAÇÃO BÁSICA DAS ETAPAS:

07h30 – Receptivo, início do check in e, após OK, entrega dos mapas.
08h30 – Cerimônia de abertura e briefing técnico;
08h50 – Alinhar para largada;
09h00 h – Largada;
15:00 h – Premiação da etapa (previsão);
15:30 h – Encerramento (previsão).

MAIORES INFORMAÇÕES: comissão organizadora do CICA,
ENIO PAULO – EDUARDO GÓES – LUIZ CÉLIO – ADAILTON – VALDEMAR CAUMO – NEVERTON JÚNIOR – MARCEL GAMA – GUSTAVO TORQUATO.
Os ocorridos durante todo o campeonato serão, rigorosamente, julgados dentro do regulamento de corridas de aventura e dentro da ética esportiva para que o resultado seja justo.

Desafio dos Sertões CBCA 2013 - por Vitor Hugo Moreau

A desistência tem sabor; e é amargo. Tão amargo que acho que não suportaria outra dose desse veneno. O sabor da desistência é mais amargo que a dor, que o cansaço, que a sede. Hoje sei que se gasta muito mais energia desistindo do que resistindo. Digo isso, assim de cara, não porque quero dar um caráter negativo a este release. Não. Quero contar tudo o que houve de bom no Desafio dos Sertões – e houve muita coisa. Digo isso porque não quero mais falar de desistência de agora em diante.
O tão esperado Desafio dos Sertões - 160 km entre Juazeiro e Sobradinho - se iniciaria com uma corrida de rua por Juazeiro de 5 km junto com uma galera que só correria esses 5 km. Logo de cara vi que era uma armadilha e tive várias discussões com Lu se valia a pena ou não correr. Minha resistência inicial foi minada pela conhecida empolgação da largada das corridas de aventura e corremos não somente os 5 que separavam a largada do PC01 mas também os 2,5 que levavam até o PC02, nas margens do Velho Chico. Fomos informados por Waltinho, durante o briefing, que somente um dos componentes cruzaria o rio a nado e seria resgatado pelos outros componentes que seguiriam pela ponte até a ilha de Marinha onde pegariam os barcos no PC03. Mauroba foi o escolhido; mais experiente, mais safo... Descansamos porque, até então, estávamos achando que todos teriam que fazer a travessia. Chegando ao PC02: surpresa! Fomos informados pela organização que a explicação teria sido mal compreendida. Um ou dois ou todos os componentes deveriam nadar até o PC03, pegar os barcos e voltar pra buscar os outros componentes no PC02. No calor da surpresa, me ofereci. Vestimos os coletes e subimos o rio para cruzá-lo na diagonal, informados de que vários nadadores estavam sendo arrastados pela correnteza e resgatados muito depois da ponte. Entramos uns 200 metros rio acima atrás de um bar cuja luz clareava as margens e nos dava segurança de não pisarmos em um caco de vidro ou espinho. Fomos.
Natação não é o meu forte e, mesmo com o colete, tive que fazer muito esforço pra me manter em movimento. Mauroba corrigia meu rumo de vez em quando com um grito: “Pra cá, Vitor!” Nadei crawl, depois peito, depois cachorrinho, depois costas – que a essa altura já era mais um nado estrela – boiava e dava pernadas e braçadas igual a uma rã que não se aguentava mais na superfície. Chegamos à ilha, pé no chão, graças a Deus! Não aguentava mais! Procuramos os barcos, cadê o PC? Andamos por baixo da ponte e nada. Daqui a pouco, uma luzinha de baixo da ponte e um grito: “PC!”. O PC03 não ficava na ilha mas ancorado embaixo da ponte, no meio do rio. Nadamos demais! Mauroba nem titubeou e começou a correr rio acima para planejar a nova travessia. Eu, exausto, ainda ensaiei um “Mauro, pega o barco que eu vou depois” mas foi sufocado por um “Bora!”, antes mesmo que eu terminasse a frase.
Entramos de volta no rio e cruzamos até os barcos, amarrados em um cabo de aço nos pilares da ponte. Chegando aos barcos, tive noção da força da correnteza do Velho Chico. Tive que fazer força pra me segurar no cabo de aço e com dificuldade subir no barco. Soltamos os mosquetões e saímos, cada um em um barco, contra a correnteza, em direção ao PC02 onde Lu e Gabi nos esperavam, lindas como pode ser visto na foto de Murilo Mattos. Chegamos ao PC02, nossa equipe embarcou, Lu comigo, Gabi com Mauro e saímos Chico acima rumo ao PC04. Correnteza forte, pedras... meus braços já não tinham força pra manter o leme naquela correnteza que insistia em nos tirar do prumo. Mauroba insistiu em por em prática uma estratégia que havíamos até então recusado: separar os casais e me botar pra remar com Gabi que, remadora mais experiente, poderia assumir o rojão nos momentos em que a dor me fizesse fraquejar no leme. Ótima estratégia. Gabi, com seus pouco mais de 1,50 m rema como um motor e duas remadas do mesmo lado eram suficientes pra corrigir o rumo quando eu desse o alerta. Algumas vezes, ela se empolgava e eu tinha que segurar o ímpeto dela: “Gabi, faz leme não!” E assim fomos, remamos rente à margem até a primeira ilha, onde Lu traçou o azimute em direção ao PC04 e, descontando o desvio da forte correnteza, iniciamos a travessia. Muita força pra nos mantermos em direção àquela luzinha amarela que parecia cada vez mais longe. Chegamos à ponta da ilha, começamos e rodeá-la e nada do PC. Outras equipes já estavam por ali perdidas e escutávamos as vozes até de dentro do mato, quando uma luzinha – de novo a luzinha – piscou de um banco de areia entre a ilha onde estávamos e a outra: “PC!”. O PC04 estava deslocado do lugar marcado no mapa e tivemos que fazer uma outra pequena travessia contra a correnteza pra chegar até ele. Gabi saiu do barco e foi assinar a lista e eu, zonzo pelo esforço, comecei a puxar o barco pra cima da areia como se fôssemos parar por ali. Mauroba, de novo, com seu senso de liderança: “Vitor! Tá fazendo o quê? Não acabou não!”. Voltei.
Batido o PC04, seguimos. Vi, então, que a corrida de aventura exige uma navegação um-nível-acima. Lu havia traçado um caminho pelo lado direito da ilha quando todas as equipes seguiram pelo lado esquerdo. Remaríamos até a ponta da ilha e, seguindo o azimute a 210o, bateríamos direto no PC05. Gabi, vendo que íamos para o lado contrário às outras equipes, insistiu várias vezes: “Lu, você tem certeza? É por aqui mesmo?” Fizemos uma portagem pelo banco de areia e remamos margeando a maior ilha no nosso caminho. Meu braço doía muito, depois minhas pernas, depois minha lombar e depois até meus intercostais, músculos que eu nem sabia que poderiam ser contraídos, doíam. Outra portagem num banco de areia. Essa portagem foi até benvinda; sair do barco e alongar os músculos numa posição diferente foi ótimo. Carreguei o barco com o maior prazer por aquele banco de areia. Alguns casais nus namoravam ali, o que me ajudou a distrair da dor e do cansaço e fazer umas piadinhas quando Lu jogou o farol de cabeça em um deles e disse: “Ops, desculpe aí, hein!”, ouvindo um “Opa, tudo bem...” como se nada demais estivesse acontecendo. Voltamos ao remo, azimute traçado, outra travessia contra uma forte correnteza até o PC05. Funcionou. Batemos o PC05 antes de todas as equipes que saíram conosco do PC04.
Daí em diante foi só sofrimento. Duas horas de remo forte com bombas de irrigação, pedras e estreitamentos nos obrigando a reforçar as remadas para não sermos levados pela correnteza. A cada esforço, minha lombar doía mais. A essa altura nem sentia mais os braços e as pernas, só a lombar. Senta em cima, senta em baixo, alonga as costas, nada. Nada aliviava aquela dor. Cheguei a ter alucinações com um cachorro preto correndo por cima da água ao lado do barco. Era a pá do remo! Em um dado momento minhas forças já não eram suficientes para manter o leme e resolvemos amarrar um barco no outro para dividir a tarefa. Manter o leme, mesmo com os barcos amarrados já era uma tarefa hercúlea para mim naquele momento. Então, nos últimos 15 minutos, tive que fazer um leme submerso pois remar estava atrapalhando mais do que ajudando minha equipe. Enfim, o PC06 e fim do remo – pelo menos da primeira parte. Mesmo com toda a sede que sentia, andar foi mais gratificante do que beber água. Meu corpo ansiava por andar.
Subimos o barranco e o frio começou a atacar. Lu e Gabi saíram à frente com nossos tênis e fiquei pisando em pedras e tremendo de frio. Mauroba – de novo a voz da experiência e liderança – me sugeriu pular, rodar os braços e se sacudir. Foi o que me sustentou até as margens do braço de rio, afluente o São Francisco, que precisávamos atravessar para chegar à AT04, onde pegaríamos as bicicletas. Travessia feita, frio rasgando a pele. Anoraque: palavra mágica! Vestimos os anoraques, calçamos as sapatilhas, comemos e nos hidratamos e pegamos as bikes.
Daí foi tudo lindo, bike é minha praia. Todas as dores sumiram e o cansaço foi embora como por milagre. Amanhecia e praticamente não usamos as luzes. Saímos pela estrada e, como várias equipes que ali estavam, pegamos o caminho errado pela esquerda. Antes de andarmos 200 metros, Mauroba parou: “Tá errado. É pro outro lado”. Voltamos e seguimos em direção ao caminho correto. Passando por um grupo de equipes perdidas, um dos perdidos perguntou: “Que foi? Tá indo pra onde?” e Mauroba, cínico: “Lugar nenhum, tô só passeando...”. Risos a parte saímos com o grupo vindo atrás na confiança da decisão do nosso navegador. Seguimos um retão lindo até a estrada de asfalto onde, levemente deslocada para a direita, seguia o estradão traçado no mapa. Estradão ou o que um dia foi um estradão pois hoje não passa de uma trilha. Porque alguém mapeia uma trilha como se fosse uma estrada? O único motivo que vejo foi o exposto por Lu: “Lenhar com a gente, rs” - os “rs” são dela. Navegação impecável, um papinho com um velhinho simpático e seus cachorros no caminho, seguimos de bike sem maiores ocorrências até o PC07 e depois, rumo ao PC08. Areia, areia, areia e o ritmo da equipe caiu. Empurrar as bicicletas em alguns momentos, algumas quedas. Gabi, novata nos clipes levou uns bons estabacos. Nada que rendesse algo além do que boas risadas.
Faltando cerca de 1 km para o PC08, nossa guerreira sucumbiu. Talvez exaurida pelo esforço extra pra me compensar no remo, Gabi passou mal e teve uma crise de dispneia. Nesse momento eu tive uma mostra do espírito Aventureiro do Agreste. O resgate tinha acabado de recolher uma competidora, gritei pra Lu: “Vai chamar o resgate!”. Lu olhou pra mim com um sorriso calmo e, como em câmera lenta, balançou a cabeça de um lado pro outro em negativa. Entendi que Gabi não desistiria. E não desistiu. Levei a bicicleta dela por alguns metros enquanto ela se recuperava e chegamos ao PC08 pedalando, os quatro.
O PC08 guardava nossa água e comida extra. Alívio! Comer e beber, esse foi o lema. Sardinhas em lata – maravilhosa ideia de Lu, pareceu uma refeição de verdade. Um banho refrescante na cisterna da casa em que o PC foi instalado e estávamos prontos para iniciar o trekking. Saímos cerca de meio dia. O primeiro desafio era atravessar uma pequena fenda entre dois picos de rocha. Chegamos à fenda e, depois de uma leve discussão sobre escalar ou não a pedra, achamos a trilha que levava em segurança até o outro lado, rumo ao PC09. O local era uma cachoeira seca que deveria ter sido linda antes de ser castigada pela estiagem do sertão.
Durante o trekking, pude perceber melhor as características do bioma. A Caatinga é dura, rude, quente. Seguimos pelo estradão até o sopé de um morro onde se ouviam vozes de equipes perdidas na Caatinga. Várias trilhas saíam de uma clareira onde as equipes se perderam. Soubemos de notícias de que algumas ficaram ali por horas por terem escolhido a trilha errada. Sondamos as entradas e foi a experiência do nosso navegador, de novo, que fez a diferença. Mauroba, depois de alguns exames e vai-e-vens nas bocas das trilhas, ratificou: “É essa. Concorda, Lu?” Sinceramente, com estas duas opiniões, fica difícil não concordar. Com o azimute confirmado e a concordância da nossa navegadora, seguimos. Como faz diferença contar com dois excelentes navegadores na mesma equipe. Chegamos ao PC10 – virtual – onde encontramos a faixa cuja frase precisávamos decorar. Representativa: “Preserve a Caatinga, patrimônio do povo nordestino”. Atravessamos a cerca e seguimos em busca do PC11.
Nesse momento, iniciou-se o ponto mais duro e crucial de toda a prova. O trecho entre o PC10 e a trilha que levaria ao PC11 não estava mapeada – segundo Waltinho, a bateria do GPS acabou naquele ponto – e o caminho não era tão simples. Nos embreamos na Caatinga seguindo supostas trilhas, cocô de cavalo, pedras, trilhas de bode, etc. Arranhões, topadas, cortes. Sobe e desce, perdidas, retornos, tudo. Ficamos mais de uma hora rasgando mato tentando recuperar a trilha que beiraria o morro e nos tiraria daquele inferno. Nada. Decidimos voltar pra última trilha mapeada e descer até a estrada que nos levaria ao PC11 por um caminho 10 km mais longo. Era isso ou morrer na Caatinga. Exageros a parte, descemos a trilha de pedra com a sugestão de Lu de irmos olhando pra esquerda na tentativa de achar a trilha perdida. Gabi, olhando a esquerda, achou. Clara e aberta. Somente deslocada morro abaixo. Um misto de alívio e ânimo quebrou o clima de derrota que havia se abatido sobre nós. Seguimos a trilha contando os passos para o PC11.
Contar passos é fácil. Marcar distância contando passos é fácil – é, estávamos contando passos e não me perguntem porque pois eu não vou falar sobre isso – mas o cansaço, a areia e, principalmente, as rochas dos leitos secos dos rios fazem os passos ficarem cada vez mais curtos. O principal golpe da Caatinga foi dado nesse trekking. Mauroba passou mal e isso abateu a moral da equipe – a minha pelo menos. Seguimos pelo duro caminho, eu carregando a mochila de Mauroba e a água era extinta. O sol, a areia e a Caatinga nos fizeram achar por vários momentos que estávamos perdidos mas o azimute e as marcas de tênis na trilha nos davam alguma esperança, apesar do cansaço extremo. Seguimos o leito do rio seco com os psiquês já abaladas e, ás vezes, achando que não havia um PC no fim da trilha. Meu joelho começou a doer e começou a doer muito. Isso fazia com que minha moral ficasse ainda mais em baixa enquanto saltava aquelas pedras.
Depois de caminhar muito, mas muito mais do que supúnhamos ser necessário, avistamos a tenda da Red Bull do PC11. Misto de alívio e desespero, porque Lu falou pra mim: “Apronte sua lanterna de cabeça porque vamos voltar por aqui de noite”. O PC11 parecia um campo de batalhas. Várias equipes largadas pelo chão. Desistentes e descansantes se preparando para voltar ao inferno e buscar o PC12. Mauroba e Gabi se acomodaram no chão enquanto eu e Lu fomos encher os camel backs para a saída.
Ali, aprendi uma importante lição da corrida de aventura – e da vida: não se deixe emprenhar pelos ouvidos. Os relatos, principalmente dos desistentes, diziam que a Quasar-Lontra havia passado por lá as 8:30 da manhã e que até então não voltara para bater o PC15 – no mesmo local; que as equipes estavam passando dez horas entre o PC11 e o PC13; que o trecho era dificílimo e ainda tinha o remo no lago de Sobradinho que seria mais pauleira que o do rio Chico. Nesse momento, o joelho dói mais, o cansaço bate mais forte, o psicológico se abate e até a estimativa de comida é falha. Nenhuma equipe voltou pra bater o PC15 porque todas tomaram corte e o remo de Sobradinho havia sido cancelado pelo mesmo motivo. A Caatinga cobrou seu preço e nenhuma voz se ergueu pra dizer “levanta galera! Somos Aventureiros e não vamos desistir!”. Tenho certeza de que qualquer um dos quatro teria prontamente se levantado ao som dessa voz.
Deitamos, dormimos e esperamos o resgate que nos levaria para o Clube Santana, base da corrida. Na chegada, ouvi a frase que iniciou minha ressaca da desistência, que duraria por mais três dias, vinda de um dos competidores que não me lembro mais o nome: “Aventureiros do Agreste desistiram? Não acredito!”.
A notícia boa ficou por conta da equipe Makaira que venceu o Campeonato Brasileiro. Parabéns aos conterrâneos pela conquista.
Após o descanso e muita reflexão, tenho muitas lições a tirar dos momentos que vivi no Desafio. Lições que certamente ainda serão muito úteis dentro e fora das corridas. Agradeço aos meus parceiros Mauro, Gabi e Lu, pela paciência e apoio e torço por estar com essa equipe em breve para lavar da goela o amargo que sobrou do doce sabor dessa aventura.