terça-feira, 9 de agosto de 2016

Resenha Mandacaru 2016


   Era exatamente disso que eu estava precisando para o fim de semana! Uma loucura, um rasga mato miserável, tudo que é bicho, incluindo cobra de todo tamanho (com veneno e sem veneno), mandacaru, cansanção, espinhos, superação, chegar no limite entre o senso de preservação e a coragem. Muita coisa nós vivemos na Mandacaru. Do tipo que dá resenha de umas seis folhas... Mas vou tentar resumir, rs!
   No começo eu passava uma semana me organizando pra corrida. Hoje em dia, quando é uma prova curta, tipo 90km na categoria Brutus, passo o zóio nos briefings eletrônicos, organizo as coisas na sexta-feira pra correr no sábado e está tudo certo. Claro que está quase tudo pronto ali no armário, a alimentação está planejada na cabeça e o parceiro cuida dos equipamentos... Não esqueço um detalhe e ainda levo artigos reserva pra emprestar aos meus amigos caras de pau.
   Anguera, Bahia, 06 de agosto de 2016. Os ex-alunos da nossa Escola de Aventura do Agreste marcaram presença na corrida. Contamos 19 presentes, logo de cara., e ficamos muito contentes com isso! São todos fofos, correram super bem e têm o nosso respeito e admiração.
   O quarteto Aventureiros foi composto por Mauro, Scavuzzi, Tadeu e Gabi. A história deles foi massa mas só eles pra contar. Claudio e Herbert formaram uma dupla masculina. Eu e Vitor ficamos na dupla mista, que não tem categoria no Campeonato Baiano. Compete com os meninos mesmo.


   Às 4 da manhã já estávamos na estrada. Deixamos as bicicletas no vilarejo indicado e seguimos para o local da largada e briefing. O mapa estava ótimo! Muita curva de nível, referências, trilhas, uma beleza!


   Largamos às 9h, descendo 1,5km de ladeira em direção à estrada de asfalto. Atravessamos a pista e começamos a subida íngreme de doer. Conseguimos ficar na trilha até quase no topo do morro, depois a coisa começou a fechar. E essa foi a subida mais leve de todos os morros que enfrentamos na Mandacaru. Perdemos um tempo para encontrar a trilha para o PC1 por pura falta de atenção às curvas de nível do mapa. Agora, olhando com calma, vejo que dava pra sermos mais objetivos no que fizemos. Não precisávamos andar muito, bastava atravessar para o outro lado do morro como fizemos e achar a trilha. O negócio não é só fazer a coisa certa, é fazer a coisa de forma mais rápida e objetiva. Deu certo! Um alívio danado encontrar o PC1! E aquele pouco de rasga mato tomou um tempo danado.
   Da casa até o PC2 tinha trilha bem marcada e até uns moradores transitando por ali. Ou seja, tinha trilha pra subir até o PC, sem dúvida. Aprendizados sempre! 
   De lá, descemos nossa primeira ribanceira do jeito que deu e chegamos no PC3 entre os últimos colocados. Começamos o Bike Run como combinamos: eu corri, Vitor pedalou. Quase voei! Parecia uma pipa, segurando na mochila de Vitor. A média de velocidade era 12km/h, fácil. Minha cara ficou toda vermelha. E pegamos os PCs 4 e 5 nessa “velô”. Do PC5 para o 6, experimentei a carona sentada no quadro mas a minha coluna doía tanto que não deu gostoso, aquele negócio. Então fizemos alguns trechos assim, outra maioria nas pernocas mesmo.
   No PC6, começamos o Mountain Bike à dois. Com o corte de prova no PC13 marcado para 17h e, mesmo com 4 horas para chegar até lá, tentamos pedalar o melhor possível para evitar surpresas. Estava quente! Precisei jogar água na cabeça algumas vezes. Depois de correr tanto, as pernas não estavam tão bem. E meu parceiro retribuiu a ajudinha que lhe dei pra subir o morro, me dando uns empurrõezinhos nas ladeiras. Todos os PCs até lá eram no pedal. Um pedal fluido, tranquilo, técnico apenas o necessário. Navegação com detalhes que requeriam atenção. Muito bom!


   Chegar ao PC13 mais de uma hora antes do corte foi um conforto e tanto! Tivemos o apoio moral das nossas queridas amigas, Ana Paula, Diana e Lene. Fofas! Ofereceram comida e água. Lene queria que a gente sentasse em cadeiras mas o chão estava ótimo mesmo. Nos aprontamos, comemos, bebemos e fomos encarar mais um morro de arrepiar os cabelos. Acho que começamos a trilha umas 16:10h. Uma unha minha já estava solta. Mas, a dor é passageira quando a estrada é longa e se tem foco. A navegação ajuda a esquecer, muda o rumo da prosa. Andar mais rápido também ajuda bastante!
   O PC 14 da ruina foi super tranquilo de achar. Nosso objetivo era encontrar o PC15 antes de anoitecer. Antes mesmo de achar a trilha para começar a subir, Vitor encontrou a primeira cobra da corrida. Uma cascavel enorme, passando, vendo seu mundo invadido por um monte de malucos! Ficamos assustados, quietos, esperando que ela fosse embora.
   Subimos com dois rapazes até uns 200m de trilha. Dali em diante, sumiram a trilha e os rapazes. E nós começamos nosso trabalho de rasgar mato. Todo mérito para meu companheiro de prova, Vitor! O cabra rasga mato como vi poucos fazendo. Não sei de alguém subiu por trilha mas estamos certos de que ali onde passamos, ninguém nunca passou. Nos embrenhamos ladeira acima, transpondo todas as barreiras que se puder imaginar. Só quem esteve na Mandacaru sabe do que estou falando. Uma subida íngreme, com uma plantação de mandacaru, cansanção, espinhos e bromélias só pra nós. Pedras enormes para apimentar a escalada, buracos. Os galhos que pareciam legais pra segurar, se soltavam como palhas. Os cipós e os espinhos insistiam em nos prender. Tinha horas em que olhávamos pra todos os lados e nem lembrávamos de onde tínhamos vindo, nem sabíamos como sair do buraco onde entramos. A única coisa que tínhamos certeza era de que o PCDudu estava no ponto mais alto do morro e era pra lá que tínhamos que ir. Rs! Isso bastava para nos impulsionar para o alto e avante, no azimute!


   Bem sabemos como demorou... De repente, sentimos aquela brisa de topo. O ventinho uivante que só se ouve quando se chega perto do céu. O chão ficou mais fácil de pisar e uma trilha apareceu bem debaixo dos nossos pés, no azimute certinho. E agora? Pra esquerda ou pra direita? Oh, dúvida cruel! Vitor decidiu que seguiríamos pra direita. Caso encontrássemos o 16, voltaríamos pra pegar o 15.
   Naquele breu, pelo barulho das folhas, um bicho grande caminhava por perto. Andamos mais rápido pra nos afastar. Quando o PC15 apareceu na trilha, a felicidade foi tanta que esquecemos as “folhas”. Como assim?? E o muro de pedra? Aquilo me fez até duvidar se pegamos o PC 15 ou 16...
   Ninguém sai da trilha!! Pela trilha, sempre pela trilha, encontramos o PC16. E, dali em diante, juramos caminhar sempre pela trilha. Descendo, todo santo ajuda, principalmente se tiver trilha. Pô velho, perdemos a trilha! Mas tateamos até achar um buraco na cerca que nos permitisse passar e continuar nossa descida. Encontramos uma passagem “segura” e descemos no azimute até chegar na estrada.
   Apesar das pilhas novas dos faróis, decidimos passar pelo PC13, que ficava ali perto, antes de subirmos o outro morro, pra pegar as lanternas de bike. Já pensou, ficar sem luz na mata? Teríamos que sentar na pedra até amanhecer o dia.
   Com certeza, a trilha pra subir para o 17 não era aquela. Mas as luzes que desciam de lá nos confundiram na contagem da distância. Algumas pessoas desistiam de subir o morro, alegando não ter encontrado o caminho. Subimos por ali mesmo! A cerca nos guiava. O caminho começou tranquilo, apesar de muitíssimo íngreme. Eu estava "Mortinha da Silva". Precisei parar pra “fingir que estava olhando a Vila do alto” várias vezes. Vitor, que estava mais adiante, só parou quando o caminho começou a ficar difícil de progredir.
   Nosso perrengue de rasgar mato recomeçou. Talvez esse tenha sido o pior! Encontramos de tudo que já escrevi e um pouco mais. Tinha horas em que parecia impossível passar. As cercas nos balizavam no azimute. Nosso destino, o topo! Ninguém desce, só sobe! Foi o que fizemos sem sair do foco. As cobras continuavam aparecendo. Dessa vez, Vitor quase se arrastou até uma delas. Demos meia volta e escolhemos outro caminho. De todas as cobras que encontramos, aquela acendeu forte o nosso instinto de preservação. Certamente, atravessamos a cerca por umas quatro vezes. Mas, teve uma última vez. Aquela que nos levou até um trecho de arbustos de galhos mais finos, sem pedras, com poucos espinhos. O vento que vinha do céu começou a uivar outra vez, os caminhos se abriram e o PC17 quase pulou em cima da gente, logo ali, no tanque. É certo que subimos pelo lugar errado mas nos batemos de cara no PC. Então seguimos para o 18, para depois nos embolar ribanceira abaixo. Talvez a parte mais íngreme do morro, a mais difícil de descer. Down poderia anunciar a modalidade "esquibunda", que cabia perfeitamente.
   As minhas unhas já saltavam dos dedos. Loucos para chegar ao final da corrida, fizemos uma transição rápida, até porque, nada mais entrava na garganta a não ser suco. Bebemos tudo que pudemos, nos aprontamos e fomos embora. Ainda bem que esse resto de prova não foi tão sacrificado. Embora cansados, cumprimos nossa proposta de prova. Relaxar, sumir pelos matos, esquecer o mundo lá fora e fazer a prova sem cortes. Já passava das dez da noite, quando pedalávamos pelas trilhas de Anguera, pelos PCs 20, 21 e 22, todos virtuais, rumo à chegada.
   Down, Manoela, Nevton e toda equipe da organização, vocês foram muito felizes na escolha do lugar, dos morros, dos matos, dos PCs. Uma prova simples, objetiva nas informações e muito bem organizada! Além de garantir a aventura “Brutalidade máxima” do nosso fim de semana, ainda agradecemos pela hospitalidade na pousada. Quando chegamos na praça da cidade, nos vimos ali, mais de meia-noite, sem lenço e sem documento, como na música de Caetano. Não tínhamos lugar pra dormir, nem toalha, nem forro de cama, nem nada.. RS!!! Dormir no sofá da sala da pousada foi um conforto e tanto! O banho quente no banheiro do quarto de Hugo e Gabriel, que luxo! Os amigos nos salvaram! Muita gratidão!



   E que bom encontrar tantos amigos queridos! Que bom encontrar a galera jurássica nas corridas! Estamos trilhando novos caminhos na Corrida de Aventura na Bahia, mas sempre lembrando da nossa essência e o melhor: Estamos todos juntos torcendo pelo crescimento do esporte que alimenta nossas histórias, nossos sorrisos, nossa vontade de expandir os limites.
   Resultado: Quinto entre as duplas no geral e segunda dupla mista. Quem sabe não ficamos entre os dez melhores do RBCA? Nosso treinador vai ficar contente!
   Parabéns a todos que participaram desse sofrimento coletivo que foi a Mandacaru. Amamos!
   Na prova do CT, o desafio pessoal será maior! Espero que minhas unhas resistam...
   Até lá!
   Luciana
   Aventureiros do Agreste
   Retroceder Nunca, Render-se Jamais e Divertir-se Sempre! Nunca mesmo... jamais... sempre!