segunda-feira, 1 de maio de 2017

Pelejar é preciso...

Peleja, 125 km. Por Vitor Hugo Moreau

    Pela primeira vez fui correr uma prova sem fazer absolutamente nada. Por conta da rotina de trabalho, Luciana teve que preparar todo o material. Nem na minha mochila, eu sabia o que tinha. A sorte é que nossa sintonia já é tanta que ela sabe exatamente do que eu gosto e do que eu não gosto. Quais comidas vão na bike, quais na barrigueira da mochila. Tudo. Eu ainda só ia poder chegar em Cachoeira depois de 14:00, quando o briefing já teria terminado. Sem marcação de mapa, sem ouvir o briefing. Ficaria tudo por conta da Lu. Eu ia ser atleta de percurso.
    Saímos, de Salvador 12:30, eu e Mauroba – outro que iria cair de paraquedas em cima do trem andando. Lu, Gabi, Scavuzzi e Vande – nosso estreante no quarteto – seriam responsáveis pelo planejamento da prova. Cheguei em Cachoeira uma hora antes da largada. Ainda tinha que me arrumar e terminar de preparar tudo, mas o desafio maior foi estacionar o carro perto da pousada para tirar o equipamento. Ôh cidadezinha complicada que é Cachoeira, pra não dizer caótica. Lu, já azuada, berrou meio dúzia de “vamos lás” nos meus ouvidos para apressar as coisas e fomos para a praça do coreto, onde não tive tempo nem de cumprimentar os amigos. Foi só cinco minutos para relaxar a mente e partir.
     A corrida começou como uma natação no rio Paraguaçu. Um rio lindo e gracioso na Chapada, mas que chega podre à sua foz. É uma pena que ainda sejamos responsáveis por uma degradação desse tamanho aos nossos rios. Enfim, atravessamos os 400 m do Paraguaçu tentando não abrir a boca para não entrar água. Foi um alívio quando pisei na lama do outro lado do rio. Ainda voltei para ajudar Lu no fim da travessia. Chegamos a São Félix, do outro lado e voltamos para o ponto de largada correndo pela ponte, onde pegamos as bikes, mochilas, capacete e partirmos após a primeira transição.
    Saímos da cidade pela orla do rio até o PC1 sem muita dificuldade. Do PC1 para o PC2 a primeira ladeira. Aquela região é famosa pelas ladeiras. Cachoeira fica num buraco e pra sair de lá pra qualquer lado, toma-lhe ladeira! Pegamos o PC2 e seguimos para a primeira transição, no PC3, onde haveria um rogaining. Encontramos o quarteto Aventureiros do Agreste – Scavuzzi, Mauro, Gabi e Vande – e seguimos juntos. Pegamos os PCVs 1 e 2 sem dificuldades. Indo pro 3, encontramos uma galera fazendo o percurso ao contrário. Com eles, Marcelo e Cláudio que fazia a dupla masculina de Aventureiros do Agreste. Estavam voltando pensando que já tinham passado do PCV 3, mas não. Então seguimos juntos, em octeto. Pegamos os PCVs 3, 4 e 5 também muito rápido e, quando chegamos de volta à transição, tínhamos deixado algumas equipes para trás.
    Pegamos as bikes novamente e seguimos para subir mais ladeiras. Pegamos o PCs 5 e 6, após o qual haveria a cabulosa ladeira de pedra. O pessoal tinha alertado para uma ladeira muito íngreme, com paralelepípedo que teríamos que ter cuidado para descer. E realmente, que ladeira miserável! Ainda bem que era descida e pra descer, todo santo ajuda. Ao pé da ladeira, o grupo parou para descançar e Eu e Lu abrimos uma distância do grupo, aproveitamos o pedal mais fluido para ganhar tempo. Após o ladeirão, um retão. A essa hora, o sono começa a bater mas os caramujos na estrada nos ajudavam a ficar alertas. Lu preocupada em desviar dos bichinhos e eu em mirar neles, kkkk. Lu me repreendeu, mas ouvir o ploft me ajudava a ficar acordado. Principalmente depois que me disseram que esses bichos são praga nessa região. Aí, era sem dó (risos). Pensávamos que o quarteto e a dupla tinham ficado para trás, mas eles estavam na nossa cola. Foi só darmos um vacilo no bate-e-volta do PC7 que nos alcançaram. Pegamos o 7 em uma igrejinha linda no meio do pasto e fomos por dez quilômetros de asfalto até o PC8. O asfalto dá um alívio, mas as ladeiras não deixam nada a dever pro barro. Que miséria era aquela!

PCV C
    Chegamos no PC8 – que também seria a transição de volta do rogaining para o remo (PC 9) na sexta posição geral. Como haviam oito barcos, se ninguém nos ultrapassasse, ainda poderíamos remar. Melhor ainda, poderíamos todos remar, pois éramos sexta, sétimo e oitavos gerais.
    Saímos em octeto do PC8 para outro rogaining, o que seria o trecho mais miserável da corrida. “Os PCs todos juntinho, ta mole!”. Sabe de nada, inocente! Subimos para pegar o PCV C. Achamos a boca da trilha, em um barranco. Mauro e Vande subiram para checar. Não acharam. Eu e Sacavuzzi subimos. Nada... Resolvemos atacar o PCV pelo outro lado. Talvez aquela não fosse a entrada correta. Subimos mais para pegar o PCV B – tranquilo. Entramos pela trilha ao lado para atacar o PCV C por trás. Aí começou a nossa odisséia. Distância marcada, azimute milimetricamente ajustado. Era só rasgar 30 metros de mato. Ficamos duas horas rodando até batermos em um matagal da altura de Mauroba – e olha que ele tem 1,90 m de altura! Ameaça de abelha, rasga mato, lama, tiririca e tudo que um bom e velho corredor de aventura tem direito – não tão velho, no meu caso, hehehe. Foi muito bater de cabeça para tirar a gente de lá. Olha que a Aventureiros do Agreste tem mais navegador do que gente, a essa altura éramos Eu, Mauro, Lu, Marcelo, Vande e Cláudio navegando e Scavuzzi e Gabi dando pitacos. Graças a esse Conselho Superior de Navegação, sob a batuta de Mauroba, conseguimos achar a trilha principal. Alguém ainda verbalizou: “mas a essa altura, vamos desistir”, mas foi rapidamente abafado pelos protestos do grupo.

PC I
    Resolvemos medir a entrada da trilha de cima pra baixo. Medimos cuidadosamente a distância do PCV B para trás e chegamos à mesma entrada da trilha para o PCV C. Entramos e achamos o PCV. O diabo estava fora do local indicado no mapa, mas estava tão perto que se tivéssemos varrido a região, teríamos achado. A essa altura, o cansaço começava a dar seus ares e o grupo teve uma queda de motivação. Aí surgiu a liderança da Lu. Assumiu a navegação e o comando do grupo, dando, inclusive uns berros malucos, daqueles que quem a conhece sabe bem como é. Berro de meio de mato! Aquelas maluquices que a gente faz pra se divertir na Peleja da corrida. Pra se motivar quando a merda toda estanca! KKKKK Sob a liderança da nossa Penélope, pegamos rapidamente os PCVs D, E, F, G, H e I. O PCV J era no alto do morro, uma ladeira miserável – como aliás, é o que mais tem na região. Para os PCVs K e L foi só uma questão de distância. Andamos até o pé cortar, mas pegamos todos os PCVs. Só que ainda não tinha acabado. Para voltar para a transição ainda tinha uma ladeira – já estou até cansado de falar isso – miserável! Kkkkk.
     Chegamos acabados na cidadezinha onde estava o PC 9. Depois de uma Schin limão – é ruim mas é bão – verificamos, felizes que ainda havia um barco. Uma de nossas equipes ainda poderia remar. Mesmo depois de tudo, de estrupiados e acabados, todos nós queríamos remar. Êta gente masoquista esse povo da corrida de aventura! Decidimos no zerinho-ou-um quem iria e Scavuzzi ganhou. Seguimos de bike mesmo. A essa altura, o quarteto já não tinha nada a perder. Qualquer quarteto depois deles pegaria o corte e a dupla masculina já não pegaria pódio. Eu e Lu, não: se houvesse alguma dupla mista atrás da gente, poderia nos pegar nos 30 km de bike que ainda havia até a chegada. Por isso, fomos rápido para que ninguém nos alcançasse, o que não seria difícil, pois já estávamos totalmente acabados pelas ladeiras, e ainda havia um obstáculo pela frente: lembram daquela ladeira de pedra miserável de descer que eu falei? Imagina subir! Imaginou? Então foi isso, tivemos que subir aquela ladeira de volta. O único consolo foi uma água gelada num bar no pé da ladeira e um banho de bica no meio. Devemos ter demorado uma meia hora para vencer o 1,5 km da ladeira. Ôh, miséria que foi aquela ladeira... Quando finalmente acabou, não acabou, porque tinha outra, mas vou resumir porque já estou ficando cansado de novo.
    Seguimos o mais rápido que pudemos de volta a Cachoeira, onde, depois de descer outra ladeira miserável – afinal lembram que cidade fica no buraco? Chegamos. Recebemos a feliz notícia – pra gente, claro, não pra eles – de que a BB Brindes tinha furado o caiaque e optou por sacrificar a dupla mista em prol da dupla masculina, e que, por isso, nós terminamos em primeiro lugar. A cena mais inusitada que vi em corridas nos últimos tempos foi Mauro e Scavuzzi chegando do remo, ou melhor, da vela. Mauro fez uma vela com plástico e gravetos que pegaram na beira do rio e os dois vieram trazidos pelo vento Paraguaçu acima, economizando as remadas. Sensacional!

Chegada de Mauro e Scavuzzi do remo (vela)
    Foi uma corrida ótima! Corremos como uma família de oito Aventureiros do Agreste. Ficam os meus parabéns a todos: Mauro pela última palavra em navegação, Lu, pela liderança, Gabi, pela força, apoio e estímulo nos momentos difíceis, Marcelo, pela serenidade e decisão, Cláudio, pela perspicácia e resiliência, Scavuzzi pela assertividade e bom senso e, finalmente, Vande – estreante no quarteto e em corridas longas - pela coragem, serenidade e resistência. Parabéns a Bruno, Luiz Célio e Down pela prova. Corrida de aventura de raiz, pra quem gosta de perrengue, mato, perdida e ladeira. Tudo que o esporte pode propiciar. Valeu a frase que disse pra Down quando chegamos do segundo rogaining e estendo aqui a Bruno e Luiz Célio: “você é o organizador de provas mais escroto da Bahia, e o melhor de todos também!”.

Nós no primeiro lugar!
Pódio da Peleja






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