terça-feira, 12 de setembro de 2017

Desafio dos Sertões 2017: o dia em que o Sertão nos deixou ganhar.

POR VITOR HUGO MOREAU

O Desafio dos Sertões é uma das provas mais aguardadas do Campeonato Baiano de Corrida de Aventura, principalmente por não ter ocorrido no ano passado, por eu ter feito a proposta de casamento para Luciana no briefing da corrida em 2014 e, ainda mais, por eu não ter conseguido completar as edições de 2013 e 2015. Mesmo tendo ficado em 3º lugar entre os quartetos em 2014, não tive minha revanche porque neste ano, o Desafio não foi exatamente no sertão da região de Juazeiro, como de praxe. Minha vingança contra o Sertão ainda estava travada na boca, esperando para ser engolida.
Vínhamos, eu e Lu, fazendo um treinamento visando o Desafio dos Sertões. Pra isso, contamos com suporte da queridíssima e competentíssima Fernanda Piedade, treinadora cruel e divertida (sim, isso é possível!). Além disso, eu vinha há dois meses adaptando uma dieta cetogênica para suportar os 130 km da prova sem passar mal por falta de comida, o que vinha causando certo estresse na minha parceira e na minha treinadora. Nem o treino de corrida simulada que fizemos na semana anterior – 75 km em 7 horas – foi suficiente para garantir a confiança da Luciana. Era preciso mais, era preciso vencer o Sertão.
Saindo de casa.
Saímos de Lauro de Freitas com o carro carregado de coisas de aventura na quinta pela manhã. Com a corrida marcada para sexta a noite, seria ótimo chegar sem pressa, descansar, encontrar amigos e nos preparar com calma para a largada as 22:30. O preparativo é uma estória a parte e precisa ser contada. Chegamos a Petrolina de noite e fomos direto para a casa de Pezão e Malena, amigos queridíssimos que conhecemos nas corridas e que apelidamos carinhosamente de “casalzinho”. Quem os conhece, já pode imaginar o por que. Eles arrumaram um village para toda a nossa equipe no condomínio deles. Ficamos lá do jeito que gostamos, sem luxo, mas todo mundo junto: eu, Lu, Mauroba, Gabi e Scavuzzi.
Casalzinho, antes da largada. Thunder Adventure, depois... kkkk
 A maior farra... Ainda deu tempo de comermos um sensacional hambúrguer gourmet feito por Cássio Insanos – sem pão, no meu caso. Foi uma oportunidade de bons encontros e relax antes da prova. Na sexta, ainda almoçamos um bode na brasa com amigos queridos Gilson, Gaia, Arnaldo entre outros que já conhecíamos ou que conhecemos na hora. Corrida de Aventura é sempre isso, farra primeiro, competição depois e farra, de novo, por último.
Confraternização na Hamburgueria do Cássio.
Preparativos e estresses, como sempre, partimos para Petrolina após o almoço e chegamos a Piçarrão, local da largada. Deu tempo de cumprimentar todo o povo, vestir as roupas, comer, assistir ao briefing, aquecer. A largada atrasou um pouco e às 11:00, soltavam-se os fogos da partida. Finalmente, começava o Desafio dos Sertões. Nossa primeira perna seria uma corrida até o PC1, nas margens do lago de Sobradinho. Como já tínhamos deixado as bikes no PC5, que era no meio do caminho, já sabíamos pra onde ir, então guardamos o mapa e fomos correndo. 7 km até o PC1 com o vento empurrando, foi ótimo. Pegamos o PC1 e seguimos para o resto do trekking, já que o remo (PCs 2, 3 e 4) tinham sido adiados para o fim da prova.

 Batemos o azimute e seguimos no ritmo frenético de início de corrida. Daí o erro fatal – ou quase. Na pressa, não percebi que havia retirado a declinação da minha bússola para competir na Corrida de Orientação, onde o mapa já é declinado. Bati o azimute errado e acabamos cortando para o outro lado da estrada. Por azar, do lado errado tinha uma trilha com o mesmo azimute que a trilha certa (30º ). Não tivemos dúvida, entramos... e não saímos nunca mais. Ou melhor, saímos, mas duas horas depois. Foi um rasga mato, volta na trilha, tenta de novo, até decidirmos voltar tudo até a estrada e descobrir onde erramos. Percebemos que estávamos bem fora da estrada correta e tivemos que rodear o morro para procurar a trilha. No caminho, encontramos Gaia – que nessa prova era nosso concorrente com “A Menina de São Paulo” que ele trouxe pra puxar ele (rsrsrs), Gilson e Arnaldo. Eles já tinham pego o PCB, mas preferiram rodear de volta o morro para pegar o PCA e o PCC. Não havia trilha entre o PCB e o PCA, então quem quisesse cruzar sem rodear 7 km teria que rasgar mato morro acima. Decidimos rasgar. Entramos na trilha – a certa dessa vez – e pegamos o PCB. Encontramos a BB Brindes e as Penélopes do Agreste, que estavam batendo cabeça no PCB e seguimos juntos rumo ao rasga-mato-morro-acima para o PCA. Foi duro! Enxergávamos as luzes do povo perdido no alto do morro. Muito alto mesmo. Parecia que a gente nunca ia chegar lá. E a subida?! Toda de pedra solta! Em alguns momentos, tínhamos que andar engatinhando para subir. Revezei com Plínio o papel do rompe mato e seguimos. Quando estava na frente, era sofrido, mas quando estava atrás, tinha que tentar ignorar a bunda grande do Omar engatinhando na minha frente e continuar, achando graça daquilo tudo! Hehehehe.
PC C depois de rasgar mato e subir pedra.
Mantemos o azimute e saímos na trilha entre o PCA e o PCB. Decidimos subir primeiro e depois descer para o PCA. Que subida miserável! Só não tinha mato, mas pedra solta de montão. Muito íngreme. Chegamos ao PCC, numa antena no alto do morro. Como é bom ir chegando no cume e sentir a brisa. Que alívio! Sempre rola uma piadinha, tipo: “só o cume interessa” ou “sente a brisa que no cume bate”... Foto do PCC e descida escabrosa nas pedras soltas até o PCA, na virada da cerca. Não acabava aí. Continuamos descendo fortemente até a beira do lago. Já amanhecia quando chegamos ao PC5 para pegar as bikes.
Comer, beber, equipar e sair. Tudo muito objetivo. Saímos de bikes em direção ao Piçarrão para atravessar a pista e seguimos para o PC6, no povoado de Pau de Colher, depois, o PCD, na beira da estrada. Para chegar ao PC7, uma subida de 6 km. Concentração... o sol já estava forte no início da manhã e muitas equipes já ficavam pelo caminho, empurrando as bikes na subida. Passamos pelas turbinas eólicas e me impressionei com o tamanho. As hélices passam por nós a milhão, embora de longe pareça que elas rodam devagar, chega a dar medo daquele treco soltar e sair varrendo tudo igual filme de Transformers. Na decida, chegando ao PC7, que foi uma transição para o trekking no povoado de São Pedro, cruzamos com a Makaíra (quarteto) já voltando e um dos atletas gritou: “as duplas mistas acabaram de sair!” Achei legal a preocupação dele em nos avisar, mas depois daquela subida, confesso que tinha pouco fôlego pra correr atrás de alguém. Queria era fazer a minha prova e chegar bem.
Chegando ao PC7, deixamos as bikes e seguimos para o trekking pelo vale, morro acima, é claro. Subimos o leito seco do rio pegando o PCE, PCF e PCG sem dificuldade; todos nos locais exatos. Chegando ao PCH, encontramos Gaia, que nos olhou com visível espanto de quem não esperava nos encontrar ali. Confirmei sua surpresa quando ele perguntou: “tiveram dificuldade no PCE?” e eu com a cara mais lavada: “não, dificuldade nenhuma...” KKKKK. Só sei que quando virei para tirar a foto do PC, Gaia e “Menina de São Paulo” já tinham sumido... deixado Arnaldo e Gilson, até então companheiros de jornada, para trás. KKKK Eu acho isso uma sacanagem. O cara é amigo, sócio, sobrinho só até os adversários aparecerem... Quando o bicho pega, é “peraí tio, que eu tenho que dar um gás aqui pra esses caras não me passarem!” KKK Me senti elogiado. Gaia é um atleta experiente, campeão brasileiro e bruto, mesmo com pouco treino, tem lastro, e correr porque me viu me deixou de certa forma, orgulhoso. Continuamos o trekking sem comer a pilha de ir atrás deles, focados no objetivo de terminar bem a prova. Lu e eu nem cogitamos essa possibilidade, seria um desgaste desnecessário e não temos esse perfil. Sempre fazemos a nossa prova e o resto vem como consequência.
Voltando do PCH em direção ao PC7, que agora era PC8 para pegar as bikes de novo, passamos por um dos trechos mais difíceis da prova: um trekking de 6 km ladeira acima sob o sol de meio dia do sertão. A única coisa que me consolava era a vendinha em São Pedro que tinha água e coca-cola geladas. Andei o tempo todo pensando nisso... Decidimos pegar as bikes na escolinha de São Pedro e só depois irmos ao bar. Tomei um banho de bica na escolinha, equipamos e partimos. Cem metros até o bar, onde água e coca gelada nos esperavam. Eu estava quase botando os bofes pra fora quando tomei aquela coca super gelada. Que alívio! Parece que minhas forças voltaram. Lu tomou até um cafezinho oferecido pela dona do bar. Revigorados e reidratados, seguimos nosso caminho rumo ao PCI e o PCJ. Chegamos de volta ao PC6, que agora já era PC9, em Pau de Colher. Esse foi um “down hill” dos mais legais da prova. Uma trilhazinha bem pedregosa que testou um pouco das nossas técnicas de mountain bike. O sol já começava a abrandar e o ânimo voltou. Bem divertido!
Em compensação, um dos piores trechos estava por vir. De Pau de Colher até o PCL o caminho era cheio de areais. Um empurra bike chatíssimo! Toda hora tínhamos que parar pra empurrar um pouco. Quando achávamos que o terreno iria melhorar, começou uma subida insubível. Não sei como Walter e Daniel chegaram lá em cima... moto? 4x4? Helicóptero? Pedalando é que não foi, se não iam ter pena de mandar a gente praquele boqueirão, carregando as bicicletas no lombo! No alto do morro, pulando uma cancela, chegamos à entrada da trilha para o PCL. Embaixo do PC, um singelo bilhete: “Não usar a trilha para Arizona, ir pelo estradão”. Me esqueci de perguntar o porque, mas achamos prudente seguir o conselho e fazer a volta pelo estradão até Arizona, onde estava o PC10.
Não sei por que, mas criamos uma idéia de que em Arizona teria um barzinho para comprar outra coca-cola... Doce ilusão. O lugar parece mesmo com o nome; só tinha areia, vento e breu. Só faltou a bola de feno rolando e os pistoleiros fazendo duelo, o resto tudo era faroeste puro. Pedi 15 minutos pra minha parceira para tirar um cochilo – o que ela atendeu parcialmente, hehehe – dei umas lambidas em um doce que me deram que tinha uma textura péssima, acho que era biscoito com goiabada. Eu estava com tanto sono que nem consegui distinguir o que era... kkkkk. Mas o rapaz que me ofereceu o doce também me deu um Gatorade em pó que foi minha salvação. Encontramos novamente Gilson e Arnaldo e seguimos rumo ao trekking em parceria. O percurso era até bonito, apesar da noite e do vento frio. Subimos uma serrinha, descemos do outro lado e encontramos o olho d´água onde ficava o PCK. O lugar parecia lindo, mesmo sendo noite. Fiquei com vontade de voltar lá de dia, era um oásis no meio do sertão. Uma nascente saindo de duas pedras enormes e formando um lago que parecia ser cristalino. Só deu tempo de fotografar o PC e sair em direção ao PCM.
Seguimos a trilha meio plana, já apresentando sinais de cansaço. Já estávamos em quase 24 horas de prova. Nessas alturas, o pessoal viu onça, saci, caapora e tudo mais que o povo sempre vê na mata a noite. Demoramos um pouco a achar o PCM, mas encontramos a trilha e batemos. Seguindo uma ravina na rocha, descemos até a lagoa, de volta ao PC11, o mesmo local que o PC10 em Arizona. Nesse momento, já estávamos mirando o fim da prova. Faltavam só 25 km de bike e dois PCs, já que a canoagem tinha sido cancelada por má condição do tempo no lago de Sabradinho. Saímos junto com Arnaldo e Gilson que logo se destacaram e seguiram em frente. Eu e Lu estávamos com muito sono e seguimos um pouco mais devagar. Eram 10 km até o PCP e passamos por Arnaldo e Gilson dormindo. Não resistiram e resolveram dar uma parada. A gente não podia se dar a esse luxo, Thunder Adventure – a do casalzinho, Pezão e Malena, que a essa altura já tinham deixado de ser amigos pra se tornar adversários (kkkk) - estavam atrás, ou pelo menos assim achávamos. Pegamos o PCP. O PCN, que era opcional, tinha sido cancelado. Arnaldo e Gilson passaram de novo por nós no PCP e se foram novamente. Faltando 3 km para o PCO, nossas lanternas começaram a se apagar progressivamente. O pedal que já estava difícil por conta da areia, do sono e do cansaço de 27 horas de prova, se tornou um suplício. Ficamos entre dormir até de manhã – e correr o risco de tomarmos um balão da Thunder – ou empurrar as bikes até o dia amanhecer. Preferimos pedalar à luz da Lua mesmo. Seguimos pela estrada sem iluminação, tendo que tatear o caminho com a roda da bike para não perder tempo. Encontramos a entrada do PCO na estrada, a 1 km do PC. Na cancela, encontramos de novo Gilson e Arnaldo que já voltavam e assim como vieram, partiram, com suas lanternas fortes iluminando o caminho e nos deixando mortos de inveja. Hehehe...
Fomos pedalando no escuro mesmo até a casa onde estava o PCO. Era só 1 km, pensamos. Eu já estava alucinando direto a essa altura. Já tinha visto cachorro, saci, cobra, jacaré, casa, tudo na beira da estrada. Ao chegar na casa abandonada, como estávamos sem luz, bati umas fotos com flash para ver se achava a placa do PC. Achamos. Na casa, tinha umas pessoas andando de um lado pro outro, outras debruçadas na janela me olhando e umas andando no quintal do fundo. Nem entrei, tirei nossa foto de fora mesmo e falei: “Vamos, Lu, porque tem gente demais nessa casa!” Até hoje não sei se foi alucinação ou um “I see dead people” mesmo! KKKKKK
Casa abandonada cheia de gente.
Agora só faltavam 5 km até a chegada. Mortos, cansados e cegos pela escuridão, além do cisco que entrou no olhos da Lu no Arizona, fomos. O ritmo foi aquele... 28 horas de prova, no escuro e acabados. Tartaruga brocando em baixa! Entramos em Piçarrão com a alegria de quem terminava a prova, mas não qualquer prova, o Desafio dos Sertões. Quatro anos depois, o Sertão recebia a minha revanche, o Sertão estava domado... ou não. Com o Sertão, convém não brincar. O lugar é inóspito, é seco, é brutal. Agradeço novamente a Waltinho, Daniel e toda a equipe pela oportunidade. Agradeço aos amigos de dor e sofrimento. Agradeço à minha mulher, meu amor e companheira de aventuras, venturas e desventuras.
Premiação da Dupla Mista - 3o Lugar - com o quarteto. Lu, Waltinho, Mauro, Gabi, Scavuzzi e Eu. Faltou Vande.
Aprendi a respeitar o Sertão e talvez por isso, Ele tenha me deixado chegar até o fim. Cruzamos o pórtico sem testemunhas, sem fotos, sem cornetas ou fogos. Só nós e o Sertão, carregando além das mochilas e a experiência ímpar, a certeza de que essa é a vida que eu quero pra mim.


2 comentários:

Lucy disse...

Fiquei imaginando as Torres eólicas correndo atrás da gente... hahaha. E os fantasmas???? Até dei bom dia para eles. Corrida Massa, meninos. Vocês são nossa tropa de elite!

danielmontenero disse...

Adoro o relato da prova de vocês e revivo a prova passo a passo , parabéns guerreiros por finalizarem mais uma prova duríssima