sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Desafio dos Sertões 2018- 140km



   Casei no Desafio dos Sertões, logo, nem preciso dizer porque tenho um carinho especial por essa prova. Além de toda gratidão por aquela surpresa, o Desafio dos Sertões é a prova mais esperada do ano.
   Pugliese, nosso amigo da equipe R2, caiu de gaiato no quarteto, substituindo Vand, nosso quarto elemento a mais de 4 provas, que mudou pra o Pará com nossa Penélope Lucy. Então ficou eu, Scavuzzi, Mauro e Pugliese.
   Essa edição da corrida aconteceu na região de Paulo Afonso, envolvendo algumas cidades do estado de Alagoas, com alguns trechos daquela grande prova que fizemos em 2008, a Brasil Wild Extreme de 600km.
   Descansei duas semanas da Expedição Terra de Gigantes e já cai pra dentro nos 140km. Falando nisso, a resenha da Expedição ainda está no forno porque é mais longa. É Gigante mesmo!
   Pela primeira vez, decidimos ir de buzu. Juntamos com mais de 20 atletas de Salvador e Feira de Santana e rateamos o frete. O que foi uma ideia maravilhosa! Ficou super em conta, além disso pudemos confraternizar e viajar em segurança, numa cachorrada danada! Mauro, com suas habilidades com nós, arrumou tudo direitinho no bagageiro e as bikes ficaram super bem até Paulo Afonso. O motorista, Sr. Flor, sofreu o pão que o diabo amassou passando o fim de semana com a gente, mas resistiu bem à viagem. Foi um guerreiro! A gente agora só quer ir com ele. Um fofo! A galera foi resenhando, cantando, cagando... e até bebendo, daqui até Paulo Afonso.
   Como não conseguimos hospedagem em Paulo Afonso, tivemos que dormir em Delmiro Gouveia. Por sinal, imagino que os outros hóspedes tenham reparado no barulho porque a gente se embola sempre no mesmo quarto. Dessa vez, cinco. E a resenha é impagável! Só senti porque não fui ver o show do Harmonia do Samba em Paulo Afonso, mas foi melhor assim.
...
   A camisa do Desafio dos Sertões ficou lindíssima! Um absurdo de linda! E ainda teve cor diferente pras meninas. Tecido massa, seca rápido...
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   Na manhã de sábado já estávamos concentrados no briefing. Gente como diacho, auditório lotado! Mais de 40 equipes, fora as duplas. Quem estava lá assistindo a nossa largada foi nossa querida Thays Medrado, que ficou na torcida na largada.
   Largamos junto com atletas de corrida de rua em percurso balizado. Tivemos que rodar a cidade e fazer um tour pela CHESF, até separar da galera, seguindo pra represa que fica de frente pra ponte sobre o Rio São Francisco.



   Pronto, acabou o balizamento! Dali em diante era cada um por si, pelo mapa, pela bússola, pelo azimute.
   Do lugar onde estávamos, tínhamos que pular no rio a uma boa altura. Mauro, Scavuzzi e Pugliese fizeram logo isso. Eu fiquei olhando pra água, analisando minha pulada. Mauro disse que ficou lá de baixo olhando minha cara de desespero. Mas não tava desesperada não. Só estava vendo as pessoas pularem pra ver de onde eu saltaria pra evitar bater numa pedra. Entrei na fila na viga de ferro. Quando chegou minha vez, tapei meu nariz com os outros dedinhos esticados, igualzinho quando era pequena e mergulhava na praia de Cabuçu. Fui com coragem, afundei e voltei cheia de classe, pronta para seguir adiante.
   O bom é que nunca fui tão bem tratada na equipe. Pugliese me rebocou a natação inteira. Foi uma beleza! Uma viagem refrescante, curtindo o visual dos cânions do Rio até as escadas que levavam à ponte e estrada.


   Subindo as escadarias quebradas que chegavam à estrada de asfalto, encontramos várias pessoas que acompanhavam a prova, inclusive Roberta Guerra, a responsável pelo glamour do meu casório surpresa de anos atrás. À propósito, a dica da água de coco no caminho foi delícia, viu?!
   Na transição pra bike, estava Vânia, a namorada de Pugliese, outra fofa que nos acompanhou por quase toda a prova.
   Depois da transição, saímos pedalando pelo portão errado do fundo (tava aberto aquela merda!), mas depois fomos pra o outro aberto. A paisagem no Sertão sempre me encanta demais. Aqueles galhos secos cheios de espinhos nos acompanham do começo ao fim. É tudo cor de barro, gerando o contraste com as nossas roupas e mochilas.
   Até chegar na árvore do PCA, passamos por um bom trecho de transposição do Rio São Francisco. Alguns atletas passavam dizendo que já tinham procurado por todo canto, mas ele estava lá.


   O PCB estava pertinho, na casa abandonada, mas o C custou umas boas pedaladas. De lá, seguimos para Pariconha. Numa Vila no caminho, parei numa casa pra pedir água pra molhar a cabeça. Deu uma agonia aquele calor! Enquanto isso, os meninos me deixavam pra trás, mas valeu a pena molhar a cabeça. Em Pariconha, um bar pra fazer um xixi, aquela coca gelada e a igreja com o PC4 na grade.


   A partir dali o sofrimento começou de verdade porque a estrada empenou. Ainda bem que o tempo não estava tão quente, além disso era meio de tarde quando começamos a primeira ladeira sem fim. Tão íngreme que, ora pedalávamos, ora empurrávamos. Enquanto isso, os encontros com os amigos das outras equipes. Denise, Down, Bruno, Murilo e outros, que compartilhavam o sofrimento com a gente e muitas histórias de aventura. O visual lá de cima, como sempre, impagável, mas quando chegamos na casa de Natália, no PCD, já era noite. 
   O PC 5 já era em Água Branca, Alagoas. A cidade estava em festa por nossa causa. A praça da igreja parecia um campo de guerra, tomado de “fora a fora” de bicicleta. O locutor a todo momento falava dos atletas que chegavam e saiam, mas eu não entendia nada direito. Nos alimentamos, diminuímos o peso da mochila e começamos o trekking em direção ao mirante. Subimos, subimos e subimos. O PCE estava na árvore, depois da casa. Dali descemos até o asfalto por outra ladeira muito íngreme, pra atravessar a pista e subir pelo outro lado e encontrar os PCs F e G.


   Para entrar na trilha, tinha uma entrada na cerca, mas Mauro não achou que era ali. Seguiu um pouco mais à frente junto com Scavuzzi e encontrou a trilha correta... Mauro navega muito e estava super inspirado no Desafio dos Sertões.
   Na trilha, começamos a subir loucamente outra vez, junto com algumas equipes pelo caminho. Como tinha muito gente na corrida, não dava pra saber quem era quem naquele carnaval. Então achamos o F e logo depois o G. Não demoramos. E também não demoramos a achar a estrada que nos levava de volta até Água Branca.
   Lá chegando, Vânia, aquela fooofa, nos esperava toda animadinha. Deve ser bom quando a equipe que você está acompanhando não demora muito de chegar.
   Pegamos as bikes e seguimos para subir mais umas ladeirinhas. Essa parte da prova tinha tanta curva de nível no mapa que nem conto. De Pariconha em diante foi só sofrimento. Afff! O PCH…
   Os mapas de Waltinho, como sempre, não tem todas as trilhas. Você precisa fazer as contas e acompanhar o azimute pra não se perder. Fizemos bem isso no caminho pro H, porque tinha bem mais entradas na vida real do que no mapa. Encontramos uma turma grande perto do PC, afirmando que já tinha vasculhado tudo, sem sucesso. Pois então nós descemos alguns metros e entregamos o PC pra galera toda.


   Nessa hora o pneu de Pugli furou pela segunda vez e precisamos ficar por lá mais um pouquinho pra resolver o problema.
   Teve gente que desceu a ladeira depois do PCH na maior adrenalina. Eu não! Cheguei toda cagada lá embaixo. Desci empurrando o tempo inteiro. Deus me livre! Um downhill cheio de pedras, super íngreme!
   Indo pra o I, passamos por uma outra vilazinha. E cada Vila é um saco pra entender as entradas e saídas. Outro grupo apareceu no sentido contrário, dizendo que o caminho não era aquele, que já tinham procurado tudo e não tinham encontrado. Daí vocês já sabem... Seguimos, passamos pela ponte e continuamos.
   Mas, tinha uma igreja antes da igreja do PC, e bem que Waltinho avisou que não faltariam igrejas! Dessa vez prestei atenção ao briefing. Estava lá na porteira.
   Mais à frente, o asfalto, um alívio na bunda e outra trilha. A trilha, a ponte e uma trilha do lado da ponte, o rio seco, o PCJ.
   Seguimos pela trilha, ora pedalando, ora empurrando a bike, com bastante areia. O horário do corte estava bem apertado. Assim que chegamos na estrada melhor, apertamos o pedal pra tentar chegar no prazo, que era até às 5h da manhã.
   Minha iluminação acabou por completo. Os meninos estavam tão apressados que me deixaram pra trás. Precisei parar porque não sou ninguém sem lanterna. Fiz o que tinha que fazer e continuei sozinha, só encontrando o povo mais adiante. PC7, Show da Natureza! Um lugar show de lindo. Chegamos no horário, entretanto, as contas não batiam. Teríamos que completar a prova toda até meio dia. Então, se passássemos do corte, tendo que percorrer todo o resto da prova, não daria tempo de concluir até o tempo limite de prova. Teríamos que fazer um trekking perverso, de onde todas as equipes que tinham passado ainda não tinham voltado, depois seguiríamos para o PC8, faríamos uma natação de 1km até o PC9, etc, etc, etc. Resultado: a contragosto (só meu), optamos pelo corte, pegando um trekking direto para o PC8, sem fazer o “marvado” trekking pelo cânion.
   Descansamos um pouco e seguimos junto com Makaíra e Xixarros, garantindo a farra até o final da prova. Dez atletas. Os rapazes convenceram a gente a rasgar mato. pois queríamos fazer o “feijão com arroz” mesmo. Realmente, eram apenas 500m... Achamos um descampado. Só ali, já uns 250. E, quando percebemos, estávamos na estrada outra vez. Foi super rápido! 
   Em seguida, outra situação. Clóvis, todo desbravador, encontrou a outra trilha, que sumia e apagava, aparecia e desaparecia. A caminhada rendeu muitas risadas! Cada navegador tinha uma ideia sobre alguma coisa e acho que tava todo mundo meio abilolado pela noite sem dormir. O ponto alto da história foi Mauro, que já perto de pisarmos na estrada, resolveu seguir pra direção de onde viemos. Não teve quem não desse risada. Ele insistiu, pareceu que ia sozinho. Todos ignoraram, até que resolveu voltar. Foi uma viagem, mas não se preocupem não porque todo mundo já fez isso um dia.
   Chegamos no P8 na maior animação. Dividimos dois sacos para embalar mochilas e outras tralhas que não queríamos molhar. Amarramos todos os capacetes numa penca só. Alguns tiraram tênis, outros não. Mauro encheu um colchão de piscina. Parecíamos uma equipe de dez, todos juntos na água, como náufragos que sabiam nadar.


   No percurso, Scavuzzi encontrou uma trilha e resolveu subir pra dar um tempo, caminhar um pouco. Mauro continuava no colchão, com o nariz enterrado no travesseiro, numa posição super engraçada. Eu, por minha vez, fui rebocada por Pugliese, mas tive que desistir em algum momento porque minha coluna começou a doer muito. Seria um reboque por um preço alto, caso continuasse naquela posição. Daí fui nadar um pouco.
   Chegamos todos! Uns mais cansados do que outros. Um dos sacos furou, molhando tudo o que estava dentro. Nos recompomos e fomos providenciar a transição pra canoagem.


   Nos barcos de Pescadores, a Makaíra, com Clóvis “Boca de remo”, sumiu logo das nossas vistas. Os meninos da Xixarros foram remando devagar e sempre. Nós ficamos dando voltar no Rio São Francisco por alguns minutos. Pugliese começou a fazer o leme, depois passou para Mauro, que acertou um pouco melhor a direção, mas também não foi essas coisas todas não. No final das contas, deu tudo certo! Chegamos no rapel, a 100m da chegada.


   Pugliese e Mauro subiram pra fazer o rapel, enquanto ficamos esperando no barco. Como o PC disse que só precisavam subir 2 atletas, eu amei a ideia. Apesar de saber que testemunharia um visual incrível, não faço questão nenhuma de fazer. E depois do rapel, fomos pra chegada.
   O único detalhe é que fomos desclassificados porque só metade da equipe fez o rapel, quando todos teriam que descer, conforme anunciado no briefing. Ok então, paciência, a corrida foi massa assim mesmo! Vamos assumir a nossa parte da culpa. Deveríamos dar uma surra  de gato morto naquele cara do PC. Até o gato miar. Na verdade, ele não sabia de nada mesmo. A gente que devia saber. 😁



   A chegada foi fantástica porque rolou um churrasco de arromba, oferecido pela organização da prova. Todo mundo sabe que depois de 25 horas de prova a pessoa só deseja comer comida de verdade. Um churrasco é como o oasis no deserto do Saara. Nossa, que delicia!!!
   Tem mais, gente! Sr. Flor estava lá, esperando a gente, com o buzu com o ar condicionado ligadinho. Ou seja, foi só comer o churras, tomar banho e voltar babando a viagem toda até Salvador. Tem coisa melhor?
   Agradeço a todo mundo que me ajudou a esquecer da vida nesse final de semana! Foi uma viagem super bacana!
   Parabéns pra Waltinho e Daniel, que sempre fazem de tudo pra gente sofrer bastante no Desafio dos Sertões, como se o próprio Sertão não desse conta disso. Ao velho Chico, meu agradecimento especial por refrescar nossas vidas e encher o Sertão de beleza!
   Ano que vem estaremos lá de novo, podem crer! Com rapel e tudo!
   Beijos e até mais!


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