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Carrasco 120km- julho de 2026

 

Dessa vez, achei que tinha conquistado o direito de deixar tudo para organizar na manhã da prova. Afinal, depois de tantas corridas de aventura, imaginei que essa etapa da logística já estivesse dominada.

E quem foi que disse que eu daria conta disso?

Vamos começar do começo...

O quarteto da vez: eu, Vitor, Scavuzzi e Maurício.

Nós nos entendemos bem, nos alinhamos na maioria das decisões e quando nos reunimos é meio que pra confirmar tudo que já sabemos, como e o que fazer. Os sanduíches e o kit de primeiros socorros ficam sempre por minha conta.

Foi horrível organizar as coisas na sexta de manhã! Acordei cedo, não sabia por onde começar, fiquei toda atrapalhada. Enquanto ainda organizava meus pensamentos, sem nem dar conta das ações, Vitor carregava tudo e colocava no carro. Comecei a ficar estressada, sem saber o que tinha ido e o que estava pra ir. Fui tomar um banho para esfriar a cabeça, como técnica de redução de danos. Vesti a minha melhor roupa e fui.

Resultado: apesar da correria, não esqueci nada. Vitor, por outro lado, largou a sapatilha em casa. Foi um corre-corre para conseguir outra, mas deu tudo certo. Porque, se não desse, ele ia pedalar até de Havaianas. Mas ia mesmo! E eu juro que não me envolvi nesse BO. 😂

Chegamos em Conceição da Feira de tardezinha. Foi o tempo de tirar as coisas do carro pra chuva cair com vontade. Prova com chuva é mais emocionante e todos os riscos se multiplicam, incluindo quebrar equipamento e ter uma hipotermia.

No racebook disponibilizado pela organização, 119km com 10 transições. De manhã, ao receber os mapas, tínhamos o desafio de encontrar quase 50 PCs. Ou seja, a prova foi feita pra pouca gente terminar.

O mapa foi entregue pouco mais de uma hora antes da largada, o que tem sido habitual na maioria das provas, portanto foi o tempo de medir as distâncias da bike, colocar uns azimutes nos primeiros trechos de canoagem, checar o local da travessia e passar o zóio no resto do caminho.

Largada MTB- 22km

Largamos bem na hora em que a chuva deu um pequeno descanso, mas a noite chuvosa foi suficiente pra nos transformar em lama da cabeça aos pés, logo na primeira hora de prova.

Pra chegar ao PC 1 só precisamos seguir direto pelo estradão, a partir de onde o batedor nos permitiu partir. Alcançamos o Galpão, depois seguimos pro PC 2, no muro da casa, onde muitos curiosos perguntavam, davam dicas e diziam que já tinha passado muita gente, como sempre acontece. Dali, seguimos pro AT 1, completando o primeiro trecho da prova.

CANOAGEM 11km


A transição acabou demorando um pouco, porque a organização ainda estava enchendo os barcos. Chegamos até a contar o tempo de espera, porque nunca se sabe o que vai acontecer ao final, mas quando você chegar ao final dessa leitura- se tiver paciência de ler até o final- vai saber a diferença que fez.

Esperamos pouco menos de 10 minutos e seguimos remando, pela barragem de Pedra do Cavalo. Eu remei com Maurício e Vitor com Scavuzzi, entendendo que seria a melhor formação. E foi.

A canoagem foi um dos pontos altos da Carrasco. Foram os principais deslocamentos, numa paisagem digna de uma boa aventura. Sem contar que, depois das aulas de Camila na Escola Baiana de Aventura, a gente deu uma melhorada boa na técnica. Dá até gosto de remar!

Saímos um tantinho depois da Vaiselascar e alcançamos a equipe no primeiro PC, no muro de pedra. Depois, seguimos passando pelo PC da casinha na ilha e tocamos a remar até a transição 2, onde iniciamos o primeiro trekking da prova.

TREKKING 5km

Sete PCs para serem alcançados em sequência aleatória, com o planejamento feito pelo caminho, azimutes rapidinhos, trilhas sombreadas, encontros e desencontros. Eu, como sempre, não estava prestando muita atenção em posição, mas fiquei ligada no tempo de corte. Não gosto de corte, embora entenda que ele acontece na base do merecimento. Quando a navegação é redondinha, o corte sequer nos ameaça. Quando não, a coisa desanda.

Jogamos a sequência Dan, Teti, Mas, Sponc, Dai, Gaia e Jordi. Sim, os PCs eram nomes de pessoas mais ou menos conhecidas e no local tinha fotos das mesmas penduradas nas árvores. Algumas delas bem peculiares. Deu até pra rir um pouco das imagens encontradas.

Trekking concluído com sucesso!

CANOAGEM 10,5km

Mais uma remadinha pra não perder o costume. Ao saírmos da transição, passamos por trás da ilha, pegando um bom vento contra, pra depois remar pertinho da costa, com menos contrariedades. Nessa pegada, acabamos passando umas equipes e alcançando outras. Tinha muita dupla pelo caminho.


Chegando até a ilha onde estava o PC, assim como várias equipes o fizeram, optamos por parar na beira e chegar ao PC andando. Isso pareceu fazer diferença no tempo de deslocamento. E foi bom que a gente revezou cansaço de braço e com cansaço de perna. 😁

Por falar nisso, estava um pouco preocupada com os pés, porque a prova estava bem molhada. A chuva que caiu a noite toda, não voltou a cair no sábado, mas a gente não saiu da água até a madrugada do domingo. Ou seja, foram pés úmidos os tempo todo.

Continuando com a delícia da canoagem, seguimos pro AT 4, pra fazer a natação, passando por várias enseadas, morros super bonitinhos, fazendas na beira do rio com casas lindas. Inclusive, passamos do lado da ilha onde faríamos o trekking seguinte. Fiquei de olho, tentando ver algum PC, mas nada à vista.

AT 4, ok, sem intercorrências, dentro o prazo do corte de 17:30, com boa folga.

NATAÇÃO 450m

Saco estanque com tudo dentro, tênis pendurado nas costas, comida nos bolsos de zíper, mapa e bússola em lugar seguro, pés de patos no seu devido lugar, no caso, nos pés. Lá fui eu, toda sereia, atravessando para a ilha, numa plenitude absurda. Pé de pato é vida! Eu gosto demais.

Fomos bem, Mamau ainda me ajudou um pouco, porque a gente precisa dar um desconto pro pé de pato dele, que é gigante. Foi uma natação super agradável. Mais uma experiência bacana na Carrasco.


TREKKING 7km

Chegando à ilha, tinha até uma beirinha de pedra, com lugares que pareciam uns banquinhos pra calçar os tênis de volta. Nos organizamos, deixamos nossas coisinhas num canto, carregamos os obrigatórios e seguimos na busca dos PCs.

Mais 7 PCs, dessa vez na sequência numérica, em ordem crescente. O 5 na árvore. Depois o PC 6, numa coisa chamada talvegue. Vale alertar que, se você nunca tiver feito Corrida de Orientação, talvez não consiga saber do que se trata, mas quando você tem conhecimento de relevo e detalhes do mapa, não precisa saber esses nomes. Caso você lembre das aulas de geografia, também vale,

Do PC 6 pro 7, perdemos a trilha e decidimos seguir no azimute da estrada. Na base da confiança, seguimos tomando lapiada de cansanção por todas as partes do corpo, sem tirar nem por. Porque aquela ilha era uma ilha perdida com uma plantação de cansanção.

Os meninos precisaram acreditar. Ninguém foi por ali e viveu as emoções que nós vivemos. Quando saímos do matagal e passamos uma cerca, vi uma luz na minha cara, o fotógrafo registrando o nosso momento. Além deles, outras luzes apareceram, parecendo um encontro discos voadores. Era uma turma enorme voltando do PC 7.

Encontramos o PC, voltamos pela estrada e descemos pra procurar o tal do muro de pedra do PC 8. Tinha um monte de gente por lá também. Entretanto, a primeira investida não deu muito certo. Aí decidimos voltar e atacar pelo outro lado, descendo pela beirada de uma cerca, no sentido de volta, dando de cara com o muro de pedra. Alívio!

Eu até daria o nome de “A ilha do cansanção” pra essa ilha. Ou então “Ilha das Trilhas Perdidas”, mas ainda não contei sobre as trilhas do outro trekking. Afff!

Fomos pro 9, na ilusão de que era só seguir pela trilha, observando o azimute. Quem disse? Foram trilhas cruzadas pra todos os lados. Daí a gente acabou avistando a casa do PC foto, catou como referência e desceu por uma porteira pequena, num sentido só, até encontrar o PC.

Voltamos pra casa, fizemos outro azimute e descemos pro PC 10. Acabamos tendendo um pouco pra direita, chegamos em lugar nenhum, corrigimos a rota e lá estava o PC, na árvore.

Do 10, não pegamos trilha nenhuma. Só seguimos pela beira do rio, até acharmos o lugar da travessia de volta pra os barcos.

NATAÇÃO 450m

Já era noite quando iniciamos a natação, com luzes na cabeça e aquele friozinho gostoso. A prova seguia molhada, mesmo sem chuva. Não sei como os meus pés não ficaram destruídos.

Eu gostei demais da natação!


CANOAGEM 15km

Quando chegamos do outro lado, vi que na ilha ainda tinha muita luz à deriva. Nos organizamos e fomos embora pro último trecho de canoagem, que, certamente, duraria mais umas 3 horas, porque esse era o maior.

Remamos até o PC 11, com a barragem mais calma, água lisa e pouco vento. Nossos barcos se comportaram muito bem, não tivemos intercorrências. Do 11, o grande desafio era não errar até o 12, que parecia mais difícil de encontrar. Modéstia à parte, navego bem em canoagem à noite.

Fazendo um adendo pra contar uma história...

Depois que me perdi num braço do Rio São Francisco, numa prova em 2008, nunca mais fui a mesma. Vou resumir essa história, mas acho vale a resenha. Levei 3 amigos novatos pra uma Corrida de Aventura e fui convincente quando disse que sabia navegar. Acertamos muito! Mas teve um momento em que a equipe precisaria se dividir, então 2 seguiriam de bike até o mesmo ponto em que a outra dupla seguiria remando. Eu e outro amigo, entramos para 50km de canoagem, pegamos um braço de rio errado e passamos 16 horas desaparecidos. Foi uma confusão porque o amigo ficou muito puto quando contei que estávamos no rio errado e teríamos que voltar umas 3 horas. Eu me recusei a pedir resgate. Remamos até a AT a duras penas e encontramos resto da equipe. O resgate realmente já estava à nossa procura, tentou nos levar, mas eu me recusei. Nosso reencontro foi dramático, o povo achava que pararíamos ali, mas seguimos até o final da prova. Acho que resumi bem essa parada inesquecível, que fez com que eu me tornasse uma navegadora muito mais confiável na canoagem. Embora, convenhamos, depois disso eu ainda tenha feito mais algumas merdas... mas essas ficam para outra resenha.

Enfim, depois do PC 11, pegamos um atalho perfeito, jogamos um azimute e chegamos quase na boca da enseada do 12. Poderia ter sido melhor se não fosse uma distração, convidando a gente a entrar numa enseadinha menor, antes do lugar certo. Mas foi pouco tempo perdido. Logo nos ajustamos e fizemos o que tínhamos que fazer.

Pronto! Era só finalizar a canoagem, remando a morrer até a transição pro trekking. Remamos bastante, mas confesso que nem foi aquela canoagem que deixa a gente exausto, querendo chegar logo, contando cada metro. Pelo contrário. Foi uma canoagem massa, com céu estrelado, opções de atalhos, boas referências. Até os momentos de vento contra foram boas escolhas, quando pudemos escolher.

TREKKING 10km

O trekking começou de madrugada, entre 2 e 3 da manhã. Do PC 13 ao 20, mais oito PCs até a transição, onde teria o corte das 8 da manhã.

Nossos erros começaram no primeiro PC e nunca mais acabaram. Vou ter que lembrar se teve algum deles onde não perdemos algum tempo. Só pra vocês terem uma ideia, quando alcançamos o PC 16 o dia já tinha amanhecido e nós já estávamos conversando sobre o corte.

No 13, seguimos até a estrada, porque as trilhas se multiplicavam e percebemos que da estrada ficaria melhor para atacar. Ninguém confiou muito em mim, mas só fui, atravessei a cerca, andei mais um pouco sozinha e ali estava ela. De lá, foi mais fácil acertar.

O 14 foi outra novela. Eu odeio pés de umburanas! O PC 15 já foi no pé de Juá. 😅

Eu não sei como esse povo sabe o nome de tanta árvore. Provavelmente, se os navegadores estivessem dando conta do recado, não dependeríamos do nome da árvore pra encontrar os PCs.

O desgraçado do PC 16, estava numa grande vala, numa árvore, segundo as referências descritas no mapa. Na verdade, deveria estar. Procuramos tanto, que teve uma hora em que duvidei na minha competência navegadorística. Mas o fato é que o boi comeu o PC, que foi encontrado por Scavuzzi, no chão, perto de uma cerca, com marcas de mordida de quem tem uma boca bem grande. Isso vai chateando a gente de uma maneira que não dá pra explicar. Mas nunca será tão insuportável a ponto de não percebermos a lindeza do lugar. Era uma fazenda linda, cheia de bois comedores de PCs.

Acho que o PC 17 foi o menos pior. Acertar o caminho era fácil. Difícil era encontrar o PC na área indicada. Esse tanque até que foi de boa.

Daí, minha gente, eis o PC 18! Caminho considerado correto, contagem de passos criteriosa, acompanhamento de relevo, referência na curva da estrada, perto da virada do azimute. Referências: pequeno bosque, cerca, borda e grande vala. Já fomos direto para o que entendemos como um pequeno bosque. Nada. Grande vala? Cerca! Vamos catar pelas cercas. Nada! Chegamos do lado do PC algumas vezes, mas faltou confiança pra andar cinco metros depois dos galhos de árvore. Passamos horas naquele lugar. Eu pensei em desistir umas 3 vezes, como nunca imaginei que fosse pensar um dia. Scavuzzi implicou com um rio, me fez atravessar uma cerca, tinha certeza de alguma coisa que eu não conseguia entender o que era. Na verdade, o desalento era tão grande que fui até lá, mesmo sabendo que o lugar não tinha relação alguma com a direção que deveríamos seguir.

Em algum momento, ouvimos um apito desesperado, que sinalizava alguma coisa. Vitor encontrou o PC, exatamente onde eu tinha ido algumas horas antes e não havia encontrado. Uma falha tão grande que cometi que aquilo me fez pensar que sou a pior navegadora do mundo. Poderíamos ter saído dali muito antes. Estava tudo acabado!

Os PCs 19 e 20 foram encontrados sem tantos percalços e, finalmente, chegamos à área de transição. Como nunca mais tínhamos visto outra equipe, confirmamos que éramos os últimos e, obviamente, estávamos cortados, pelo adiantar da hora. E foi o que aconteceu. Recebemos o corte na bike e seguimos direto pra chegada, ainda com o risco de perder o tempo final de prova, mas nem tanto, porque a gente não pedala tão mal.

Enfim, cruzamos a linha de chegada. Recebemos nossas medalhas das mãos de uma mocinha, fomos tirar uma fotinha no pórtico e ficamos resenhando um tempinho com os amigos. Além disso, participamos da premiação. Confesso que esse é um aspecto da Carrasco que me incomoda um pouco. Depois de tantas horas de prova, acho que seria muito bacana que todas as equipes fossem recebidas da mesma forma, independentemente de serem favoritas ao pódio ou de terem chegado depois do corte. Um cumprimento, um aperto de mão ou um simples "parabéns" tem um peso interessante para quem acabou de atravessar uma prova tão exigente. É um detalhe pequeno, mas que, para mim, faz diferença. Já fui organizadora de prova...

Numa prova em que tantas equipes ficaram pelo caminho, terminar já era uma grande conquista. Nosso terceiro lugar veio justamente dessa perseverança. Seguimos até o fim, mesmo depois do corte, e isso também tem seu valor.

O tempo de espera de encher os barcos não mudou a nossa vida, é bom lembrar. 😄

Eu agradeço aos meus amigos Mau, Scavuzzi e Vitor (que também é meu amor), pela parceria de sempre, e a todos os envolvidos na minha evolução como atleta e como pessoa (Não que eu seja tão evoluída 😂). Isso inclui, especialmente, a minha treinadora Fernanda Piedade e a minha psicóloga Verena Martins.

No fim das contas, não esqueci nenhum equipamento, mas deixei algumas certezas perdidas em alguma trilha, numa árvore, numa vala ou perto de um pé de umburana. A Carrasco fez exatamente o que toda corrida de aventura faz: me lembrou que ainda tenho muito o que aprender. E, sinceramente, acho que é justamente isso que me faz continuar voltando. Enquanto houver mapa, bússola, parceiros de equipe e uma boa história para contar, estarei por aí.

Parabéns aos organizadores e a todo o staff da Carrasco! A prova foi linda, desafiadora e, como toda boa aventura, deixou mais aprendizados do que respostas. Até a próxima!



 

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