Dessa vez, achei que tinha conquistado o direito de deixar
tudo para organizar na manhã da prova. Afinal, depois de tantas corridas de
aventura, imaginei que essa etapa da logística já estivesse dominada.
E quem foi que disse que eu daria conta disso?
Vamos começar do começo...
O quarteto da vez: eu, Vitor, Scavuzzi e Maurício.
Nós nos entendemos bem, nos alinhamos na maioria das
decisões e quando nos reunimos é meio que pra confirmar tudo que já sabemos,
como e o que fazer. Os sanduíches e o kit de primeiros socorros ficam sempre
por minha conta.
Foi horrível organizar as coisas na sexta de manhã! Acordei
cedo, não sabia por onde começar, fiquei toda atrapalhada. Enquanto ainda
organizava meus pensamentos, sem nem dar conta das ações, Vitor carregava tudo
e colocava no carro. Comecei a ficar estressada, sem saber o que tinha ido e o
que estava pra ir. Fui tomar um banho para esfriar a cabeça, como técnica de
redução de danos. Vesti a minha melhor roupa e fui.
Resultado: apesar da correria, não esqueci nada. Vitor, por
outro lado, largou a sapatilha em casa. Foi um corre-corre para conseguir
outra, mas deu tudo certo. Porque, se não desse, ele ia pedalar até de
Havaianas. Mas ia mesmo! E eu juro que não me envolvi nesse BO. 😂
Chegamos em Conceição da Feira de tardezinha. Foi o tempo de
tirar as coisas do carro pra chuva cair com vontade. Prova com chuva é mais
emocionante e todos os riscos se multiplicam, incluindo quebrar equipamento e
ter uma hipotermia.
No racebook disponibilizado pela organização, 119km com 10
transições. De manhã, ao receber os mapas, tínhamos o desafio de encontrar quase
50 PCs. Ou seja, a prova foi feita pra pouca gente terminar.
O mapa foi entregue pouco mais de uma hora antes da largada,
o que tem sido habitual na maioria das provas, portanto foi o tempo de medir as
distâncias da bike, colocar uns azimutes nos primeiros trechos de canoagem,
checar o local da travessia e passar o zóio no resto do caminho.
Largada MTB- 22km
Largamos bem na hora em que a chuva deu um pequeno descanso,
mas a noite chuvosa foi suficiente pra nos transformar em lama da cabeça aos
pés, logo na primeira hora de prova.
Pra chegar ao PC 1 só precisamos seguir direto pelo estradão,
a partir de onde o batedor nos permitiu partir. Alcançamos o Galpão, depois
seguimos pro PC 2, no muro da casa, onde muitos curiosos perguntavam, davam
dicas e diziam que já tinha passado muita gente, como sempre acontece. Dali,
seguimos pro AT 1, completando o primeiro trecho da prova.
CANOAGEM 11km
A transição acabou demorando um pouco, porque a organização ainda
estava enchendo os barcos. Chegamos até a contar o tempo de espera, porque
nunca se sabe o que vai acontecer ao final, mas quando você chegar ao final
dessa leitura- se tiver paciência de ler até o final- vai saber a diferença que
fez.
Esperamos pouco menos de 10 minutos e seguimos remando, pela
barragem de Pedra do Cavalo. Eu remei com Maurício e Vitor com Scavuzzi, entendendo
que seria a melhor formação. E foi.
A canoagem foi um dos pontos altos da Carrasco. Foram os
principais deslocamentos, numa paisagem digna de uma boa aventura. Sem contar
que, depois das aulas de Camila na Escola Baiana de Aventura, a gente deu uma melhorada
boa na técnica. Dá até gosto de remar!
Saímos um tantinho depois da Vaiselascar e alcançamos a
equipe no primeiro PC, no muro de pedra. Depois, seguimos passando pelo PC da
casinha na ilha e tocamos a remar até a transição 2, onde iniciamos o primeiro
trekking da prova.
TREKKING 5km
Sete PCs para serem alcançados em sequência aleatória, com o
planejamento feito pelo caminho, azimutes rapidinhos, trilhas sombreadas,
encontros e desencontros. Eu, como sempre, não estava prestando muita atenção
em posição, mas fiquei ligada no tempo de corte. Não gosto de corte, embora entenda
que ele acontece na base do merecimento. Quando a navegação é redondinha, o
corte sequer nos ameaça. Quando não, a coisa desanda.
Jogamos a sequência Dan, Teti, Mas, Sponc, Dai, Gaia e
Jordi. Sim, os PCs eram nomes de pessoas mais ou menos conhecidas e no local
tinha fotos das mesmas penduradas nas árvores. Algumas delas bem peculiares. Deu
até pra rir um pouco das imagens encontradas.
Trekking concluído com sucesso!
CANOAGEM 10,5km
Mais uma remadinha pra não perder o costume. Ao saírmos da
transição, passamos por trás da ilha, pegando um bom vento contra, pra depois
remar pertinho da costa, com menos contrariedades. Nessa pegada, acabamos
passando umas equipes e alcançando outras. Tinha muita dupla pelo caminho.
Chegando até a ilha onde estava o PC, assim como várias
equipes o fizeram, optamos por parar na beira e chegar ao PC andando. Isso
pareceu fazer diferença no tempo de deslocamento. E foi bom que a gente revezou
cansaço de braço e com cansaço de perna. 😁
Por falar nisso, estava um pouco preocupada com os pés,
porque a prova estava bem molhada. A chuva que caiu a noite toda, não voltou
a cair no sábado, mas a gente não saiu da água até a madrugada do domingo. Ou
seja, foram pés úmidos os tempo todo.
Continuando com a delícia da canoagem, seguimos pro AT 4,
pra fazer a natação, passando por várias enseadas, morros super bonitinhos,
fazendas na beira do rio com casas lindas. Inclusive, passamos do lado da ilha
onde faríamos o trekking seguinte. Fiquei de olho, tentando ver algum PC, mas
nada à vista.
AT 4, ok, sem intercorrências, dentro o prazo do corte de
17:30, com boa folga.
NATAÇÃO 450m
Saco estanque com tudo dentro, tênis pendurado nas costas,
comida nos bolsos de zíper, mapa e bússola em lugar seguro, pés de patos no seu
devido lugar, no caso, nos pés. Lá fui eu, toda sereia, atravessando para a
ilha, numa plenitude absurda. Pé de pato é vida! Eu gosto demais.
Fomos bem, Mamau ainda me ajudou um pouco, porque a gente
precisa dar um desconto pro pé de pato dele, que é gigante. Foi uma natação
super agradável. Mais uma experiência bacana na Carrasco.
TREKKING 7km
Chegando à ilha, tinha até uma beirinha de pedra, com
lugares que pareciam uns banquinhos pra calçar os tênis de volta. Nos
organizamos, deixamos nossas coisinhas num canto, carregamos os obrigatórios e
seguimos na busca dos PCs.
Mais 7 PCs, dessa vez na sequência numérica, em ordem
crescente. O 5 na árvore. Depois o PC 6, numa coisa chamada talvegue. Vale
alertar que, se você nunca tiver feito Corrida de Orientação, talvez não
consiga saber do que se trata, mas quando você tem conhecimento de relevo e
detalhes do mapa, não precisa saber esses nomes. Caso você lembre das aulas de
geografia, também vale,
Do PC 6 pro 7, perdemos a trilha e decidimos seguir no
azimute da estrada. Na base da confiança, seguimos tomando lapiada de cansanção
por todas as partes do corpo, sem tirar nem por. Porque aquela ilha era uma
ilha perdida com uma plantação de cansanção.
Os meninos precisaram acreditar. Ninguém foi por ali e viveu
as emoções que nós vivemos. Quando saímos do matagal e passamos uma cerca, vi uma
luz na minha cara, o fotógrafo registrando o nosso momento. Além deles, outras
luzes apareceram, parecendo um encontro discos voadores. Era uma turma enorme
voltando do PC 7.
Encontramos o PC, voltamos pela estrada e descemos pra procurar
o tal do muro de pedra do PC 8. Tinha um monte de gente por lá também. Entretanto,
a primeira investida não deu muito certo. Aí decidimos voltar e atacar pelo
outro lado, descendo pela beirada de uma cerca, no sentido de volta, dando de
cara com o muro de pedra. Alívio!
Eu até daria o nome de “A ilha do cansanção” pra essa ilha.
Ou então “Ilha das Trilhas Perdidas”, mas ainda não contei sobre as trilhas do
outro trekking. Afff!
Fomos pro 9, na ilusão de que era só seguir pela trilha, observando
o azimute. Quem disse? Foram trilhas cruzadas pra todos os lados. Daí a gente
acabou avistando a casa do PC foto, catou como referência e desceu por uma
porteira pequena, num sentido só, até encontrar o PC.
Voltamos pra casa, fizemos outro azimute e descemos pro PC
10. Acabamos tendendo um pouco pra direita, chegamos em lugar nenhum,
corrigimos a rota e lá estava o PC, na árvore.
Do 10, não pegamos trilha nenhuma. Só seguimos pela beira do
rio, até acharmos o lugar da travessia de volta pra os barcos.
NATAÇÃO 450m
Já era noite quando iniciamos a natação, com luzes na cabeça
e aquele friozinho gostoso. A prova seguia molhada, mesmo sem chuva. Não sei
como os meus pés não ficaram destruídos.
Eu gostei demais da natação!
CANOAGEM 15km
Quando chegamos do outro lado, vi que na ilha ainda tinha
muita luz à deriva. Nos organizamos e fomos embora pro último trecho de
canoagem, que, certamente, duraria mais umas 3 horas, porque esse era o maior.
Remamos até o PC 11, com a barragem mais calma, água lisa e
pouco vento. Nossos barcos se comportaram muito bem, não tivemos
intercorrências. Do 11, o grande desafio era não errar até o 12, que parecia mais
difícil de encontrar. Modéstia à parte, navego bem em canoagem à noite.
Fazendo um adendo pra contar uma história...
Depois que me perdi num braço do Rio São Francisco, numa prova
em 2008, nunca mais fui a mesma. Vou resumir essa história, mas acho vale a
resenha. Levei 3 amigos novatos pra uma Corrida de Aventura e fui convincente
quando disse que sabia navegar. Acertamos muito! Mas teve um momento em que a
equipe precisaria se dividir, então 2 seguiriam de bike até o mesmo ponto em
que a outra dupla seguiria remando. Eu e outro amigo, entramos para 50km de
canoagem, pegamos um braço de rio errado e passamos 16 horas desaparecidos.
Foi uma confusão porque o amigo ficou muito puto quando contei que estávamos no
rio errado e teríamos que voltar umas 3 horas. Eu me recusei a pedir resgate. Remamos
até a AT a duras penas e encontramos resto da equipe. O resgate realmente já
estava à nossa procura, tentou nos levar, mas eu me recusei. Nosso reencontro
foi dramático, o povo achava que pararíamos ali, mas seguimos até o final da
prova. Acho que resumi bem essa parada inesquecível, que fez com que eu me
tornasse uma navegadora muito mais confiável na canoagem. Embora, convenhamos,
depois disso eu ainda tenha feito mais algumas merdas... mas essas ficam para
outra resenha.
Enfim, depois do PC 11, pegamos um atalho perfeito, jogamos um
azimute e chegamos quase na boca da enseada do 12. Poderia ter sido melhor se
não fosse uma distração, convidando a gente a entrar numa enseadinha menor,
antes do lugar certo. Mas foi pouco tempo perdido. Logo nos ajustamos e fizemos
o que tínhamos que fazer.
Pronto! Era só finalizar a canoagem, remando a morrer até a
transição pro trekking. Remamos bastante, mas confesso que nem foi aquela
canoagem que deixa a gente exausto, querendo chegar logo, contando cada metro.
Pelo contrário. Foi uma canoagem massa, com céu estrelado, opções de atalhos, boas
referências. Até os momentos de vento contra foram boas escolhas, quando
pudemos escolher.
TREKKING 10km
O trekking começou de madrugada, entre 2 e 3 da manhã. Do PC
13 ao 20, mais oito PCs até a transição, onde teria o corte das 8 da manhã.
Nossos erros começaram no primeiro PC e nunca mais acabaram.
Vou ter que lembrar se teve algum deles onde não perdemos algum tempo. Só pra vocês
terem uma ideia, quando alcançamos o PC 16 o dia já tinha amanhecido e nós já
estávamos conversando sobre o corte.
No 13, seguimos até a estrada, porque as trilhas se
multiplicavam e percebemos que da estrada ficaria melhor para atacar. Ninguém
confiou muito em mim, mas só fui, atravessei a cerca, andei mais um pouco
sozinha e ali estava ela. De lá, foi mais fácil acertar.
O 14 foi outra novela. Eu odeio pés de umburanas! O PC 15 já foi no pé de Juá. 😅
Eu não sei como esse povo sabe o nome de tanta árvore. Provavelmente,
se os navegadores estivessem dando conta do recado, não dependeríamos do nome
da árvore pra encontrar os PCs.
O desgraçado do PC 16, estava numa grande vala, numa árvore,
segundo as referências descritas no mapa. Na verdade, deveria estar. Procuramos
tanto, que teve uma hora em que duvidei na minha competência navegadorística. Mas
o fato é que o boi comeu o PC, que foi encontrado por Scavuzzi, no chão, perto
de uma cerca, com marcas de mordida de quem tem uma boca bem grande. Isso vai
chateando a gente de uma maneira que não dá pra explicar. Mas nunca será tão
insuportável a ponto de não percebermos a lindeza do lugar. Era uma fazenda linda, cheia de bois
comedores de PCs.
Acho que o PC 17 foi o menos pior. Acertar o caminho era
fácil. Difícil era encontrar o PC na área indicada. Esse tanque até que foi de
boa.
Daí, minha gente, eis o PC 18! Caminho considerado correto,
contagem de passos criteriosa, acompanhamento de relevo, referência na curva da
estrada, perto da virada do azimute. Referências: pequeno bosque, cerca, borda
e grande vala. Já fomos direto para o que entendemos como um pequeno bosque. Nada. Grande vala? Cerca! Vamos catar pelas cercas. Nada! Chegamos do lado do PC
algumas vezes, mas faltou confiança pra andar cinco metros depois dos galhos de
árvore. Passamos horas naquele lugar. Eu pensei em desistir umas 3 vezes, como
nunca imaginei que fosse pensar um dia. Scavuzzi implicou com um rio, me fez
atravessar uma cerca, tinha certeza de alguma coisa que eu não conseguia
entender o que era. Na verdade, o desalento era tão grande que fui até lá,
mesmo sabendo que o lugar não tinha relação alguma com a direção que
deveríamos seguir.
Em algum momento, ouvimos um apito desesperado, que
sinalizava alguma coisa. Vitor encontrou o PC, exatamente onde eu tinha ido
algumas horas antes e não havia encontrado. Uma falha tão grande que cometi que
aquilo me fez pensar que sou a pior navegadora do mundo. Poderíamos ter saído
dali muito antes. Estava tudo acabado!
Os PCs 19 e 20 foram encontrados sem tantos percalços e, finalmente, chegamos à área de transição. Como nunca mais tínhamos visto outra equipe,
confirmamos que éramos os últimos e, obviamente, estávamos cortados, pelo
adiantar da hora. E foi o que aconteceu. Recebemos o corte na bike e seguimos
direto pra chegada, ainda com o risco de perder o tempo final de prova, mas nem
tanto, porque a gente não pedala tão mal.
Enfim, cruzamos a linha de chegada. Recebemos nossas
medalhas das mãos de uma mocinha, fomos tirar uma fotinha no pórtico e ficamos resenhando um tempinho com os amigos. Além disso, participamos da premiação. Confesso que esse é um aspecto da
Carrasco que me incomoda um pouco. Depois de tantas horas de prova, acho
que seria muito bacana que todas as equipes fossem recebidas da mesma forma,
independentemente de serem favoritas ao pódio ou de terem chegado depois do
corte. Um cumprimento, um aperto de mão ou um simples "parabéns" tem
um peso interessante para quem acabou de atravessar uma prova tão exigente. É um
detalhe pequeno, mas que, para mim, faz diferença. Já fui organizadora de
prova...
Numa prova em que tantas equipes ficaram pelo caminho,
terminar já era uma grande conquista. Nosso terceiro lugar veio justamente
dessa perseverança. Seguimos até o fim, mesmo depois do corte, e isso também
tem seu valor.
O tempo de espera de encher os barcos não mudou a nossa
vida, é bom lembrar. 😄
Eu agradeço aos meus amigos Mau, Scavuzzi e Vitor (que
também é meu amor), pela parceria de sempre, e a todos os envolvidos na minha
evolução como atleta e como pessoa (Não que eu seja tão evoluída 😂). Isso inclui, especialmente, a minha
treinadora Fernanda Piedade e a minha psicóloga Verena Martins.
No fim das contas, não esqueci nenhum equipamento, mas
deixei algumas certezas perdidas em alguma trilha, numa árvore, numa vala ou
perto de um pé de umburana. A Carrasco fez exatamente o que toda corrida de
aventura faz: me lembrou que ainda tenho muito o que aprender. E, sinceramente,
acho que é justamente isso que me faz continuar voltando. Enquanto houver mapa,
bússola, parceiros de equipe e uma boa história para contar, estarei por
aí.
Parabéns aos organizadores e a todo o staff da Carrasco! A
prova foi linda, desafiadora e, como toda boa aventura, deixou mais
aprendizados do que respostas. Até a próxima!


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