sábado, 8 de julho de 2017

Trilha Salkantay- Dia 3- Chaullay a Águas Calientes- Muitos Km!


   Café robusto com mingau de aveia, ovos revueltos sem tempero, café com leite e pão! Maravilha pra começar um trekking de 35km. Com planos de surpreender as expectativas locais, certos de que não teríamos dificuldade com altitude nesse trecho, queríamos chegar em Águas Calientes ainda de dia. Na pior das hipóteses, chegar na Hidroelétrica de dia, já que o caminho dali em diante era pela linha do trem.
   Às 5:50h a gente já estava com o pé na estrada fazendo o vídeo inicial da trilha. Sempre sozinhos nessa parte da viagem, seguimos pelo estradão até uma ponte, onde uma trilha atravessava para o lado esquerdo do rio Urubamba. Trilha linda que contornava um paredão do vale, enquanto do outro lado do rio a estrada contornava o outro, até se encontrarem outra vez em La Playa, em outra ponte.   Poucas subidas, mata verde escura, pontes de madeira que nos ajudavam a transpor as cachoeiras que desciam das montanhas. Caminhávamos animadíssimos, curtindo a paisagem, os bichos e o barulho do rio. Encontramos plantações, um pequeno camping e uma vendinha de bebidas e frutas pelo caminho. Sempre tem um lugar pra comprar água e comida, mesmo que seja só salgadinho industrializado.




   Em La Playa (2350m de altitude), depois de uns 15km de Chaullay, rolou uma paradinha rápida pra tirar o peso da mochila das costas, beber algo e comprar umas frutas. E seguimos em conversa tão animada que aumentamos a velocidade. Descendo uma ladeira, fizemos um vídeo para os nossos amigos que não puderam ir, Mauro e Gabi... Com 16km, percebemos que a ponte que esperávamos não tinha passado e que, talvez, estivéssemos no caminho errado. Mas como que só tinha aquela estrada no mapa?... Perguntamos... Então?! Aquela estrada não estava no mapa.
   Voltamos para a ponte, subindo a ladeira de volta, respirando ofegantes e tentando recuperar o tempo perdido. Esses 3 km a mais poderiam fazer diferença lá na frente mas a gente só queria achar a ponte e seguir pra Hidroelétrica. Pronto, a ponte!
   Continuamos pela estrada até Lucmabamba, onde ficava a bifurcação pra Llactapata... cada nome de vilarejo, que só Jesus Cristo na causa!... Na bifurcação, uma entrada para a direita com placa enorme, informando “Hidroelétrica 11,9km”
   Sabe aquela história de que não tinha mais subidas? Tudo mentira! Morri de subir ladeira! Mais de 5km, parando só pra fingir que estava contemplando a natureza. Quase no fim da subida, as vozes de crianças nos animaram muito. Mais uma vendinha de frutas, salgadinhos, doces e bebidas, e coca-cola. A menina disse que a gente subia só mais um pouco e encontrava os pampas. É isso aí, animação!! Daqui em diante tem pampas, eu pensava. Oba!


   Continuamos a subir a morrer até os pampas. Lá em cima, muito em cima mesmo, tinha outra vendinha com uma senhora muito simpática que deixou a gente usar a mangueira para lavar as mãos e o rosto. Vitor se deliciou com um abacate com açúcar, eu comi banana e continuamos. Mas a senhora quis nos mostrar uma coisa, pedindo que a seguíssemos pela trilha. Abandonou sua vendinha e foi com a gente até uma bifurcação. Pra frente seguiríamos pelo nosso caminho e pra esquerda, ela retirou umas barreiras e nos levou até um barranco descampado de onde dava pra ver Machu Picchu inteirinha, lá embaixo, e a Hidroelétrica, mais lá embaixo ainda.
   Perplexa, várias frases viam à cabeça ao mesmo tempo:
  •         Meu Deus, como subimos!!!
  •         Jesus Maria José, como está longe!
  •         Putz! A hidroelétrica é mais longe ainda!
  •         Uau, que lindo!
  •         Por quanto tempo mesmo vamos andar por esses pampas?

   Gente, a conta dos 34, 35km não estava fechando. Nos despedimos da senhora simpática e começamos a descer. E os pampas? Os meus pés começavam a dar sinais de cansaço, uma unha começou a avisar que sairia do dedos, o quadríceps disse que estava presente e a cabeça informava pra todo mundo que o trabalho em equipe era super importante naquele momento. Não aguentava mais descer em zigue-zague. Um penhasco escorregadio, uma descida muito mais cruel do que todas ficou ali, reservada para o último dia. Escondida, minha gente!! Ninguém avisou desse suplício. Não dava pra enxergar o fim do buraco, não dava pra ver o rio, mesmo quando a vegetação abria.
   Uns 5km descendo a floresta, até que encontramos uma ponte para atravessar o rio e chegar na estrada. Daquelas pontes que balançam tanto que a gente tem que segurar nas laterais e, se cair, morre. Vitor morreu de medo e nem quis tirar uma fotinha pra registrar, rs! E a estrada ainda seguia por uns 2km infinitos.


   Na entrada da hidroelétrica, registramos nossos passaportes, seguindo para a linha do trem exatamente às 16:10h. Olha só que delícia! Andamos horrores e ainda chegamos de dia pra o trekking da linha do trem.


   Foi a hora da caminhada que tivemos companhia de outras pessoas por perto. Vários mochileiros faziam o mesmo. Ao invés de pegar o trem, iam caminhando. Como seriam duas horas de trekking, nos animamos, acelerando o passo pra chegar o mais rápido possível. Deu duas horas de caminhada, escureceu e nada de Águas Calientes. O peso da mochila, os calos nos pés, a unha solta... Tudo incomodava nas pedras soltas da linha do trem. Ligamos as lanternas e continuamos nosso suplício, que até ali contava mais 45km. Passamos pela entrada de Machu Picchu, por dois túneis e avistamos as luzes.
   Veio um sentimento de gratidão, misturado com a serenidade da certeza de que conseguiríamos.  Uma alegria boa. Mas, sofrimento pouco é bobagem! Depois de entrar na vila pela linha do trem, descobrimos que o hostel ficava na parte mais alta da vila. Rimos das nossas próprias caras!! KKK! Os dois fedorentos, tipo bicho-grilo, subindo a ladeira, acabados, enquanto um monte de gente descia de bota com salto, casacos arrumados... Piada pronta que a gente se acaba na resenha. Afinal, nosso quarto ainda ficava no terceiro andar.
   Pois é! Conseguimos fazer a trilha Salkantay em três dias. O argentino da Peru Goyo Expedition precisava saber do nosso feito! A gente riu na cara do desafio. A gente jogou duro! Sem mula, sem carregador, sem carro, mochila no lombo e pé na trilha!
   Enfim, mandamos as roupas pra lavanderia porque o fedor estava horrível, tomamos um banho e descemos de sandália havaiana pra o restaurante Índio Feliz pra comer comida de verdade e tomar um porre de Pisco Sour. Viva nóis!!
   Ah! Eu quero fazer um agradecimento muito especial ao meu marido. Ele quis casar comigo mesmo sabendo que eu fazia essas coisas doidas, mesmo sabendo que invento muita arte. Das nossas melhores aventuras, essa foi a mais incrível! E mesmo com todo perrengue da caminhada, do frio, altitude, cheguei ao final com aquela velha certeza de que esse é o cara com quem quero passar o resto da vida. Gratidão!




2 comentários:

Lucy disse...

Linda trilha. Passei numa ponte dessas também (pode ter sido a mesma). Duas inglesas passaram na minha frente pulando feito cabritas e achando graça da ponte balançante.
Adorei sua aventura, Lulu. A energia desse lugar é especial. Que você se lembre dessa trilha sempre que as coisas estiverem difíceis. Que a Montanha esteja dentro de você! Beijos de Luz!

Valtemir Pamponet disse...

Show galera. Vocês são feras e é assim mesmo nós da Bahia, do Nordeste somos fortes. Quando fiz a tradicional Trilha Inca em 2010 percebi que faria em 2 dias chegando cedo a Macchu Picchu. Eles dimensionam com um grau de dificuldade maior ou talvez baseado na média do perfil turistico mundial. O segundo dia onde chegavamos a um passo de 4800 mt era muito duro más só eu do grupo fiz sem parar. Maquei a coca e fui pra cima cheguei quase uma hora na frente de todos.
Boa tripp