domingo, 30 de janeiro de 2011

Agreste é pouco!


Hoje quero fazer uma homenagem pública ao homem que me mostra todo dia o que é ter coragem. São 75 anos hoje. Ele mora na roça. Nasceu lá! Mas teve que sair um tempo do seu habitat natural para criar os filhos numa cidade pequena. Deve ter se sentido um peixe fora d’água. Imagino o sacrifício que isso deve ter representado! Um homem rude, que estudou até a quarta série, ir morar na cidade com a sua esposa para poder criar os filhos.
Conceição arrumou logo um emprego pra ele! Cuidou de tudo! Arrumou a casa! Teve quatro filhos e administrou a vida de todo mundo.
Freitas é o homem do qual estou falando. Meu pai! Uma figura que voltou pra roça depois que se aposentou. A mesma roça de onde ele saiu. E Conceição, que o fez sair de lá, voltou com ele para compensar todos os sacrifícios pelos quais ele passou. E ninguém pode, nunca, de forma alguma, desmerecer os sacrifícios dela.
O gênio dele é forte! Muito forte! Aprendemos com ele a ter tolerância, paciência, compreensão, amor incondicional. Aprendemos a ter coragem de viver!
E só pra dar uma idéia da coragem da pessoa vou lhes contar uma das milhares de estórias que me fazem pensar isso...
Ele foi tomar uma pinga. Ao chegar na venda (É como se chama boteco lá na roça) de Lôro, pediu a pinga e foi sentar-se numa cadeira de ferro, daquelas de praia de abrir e fechar. Quando se sentou, a cadeira encaixou melhor, só que o dedo dele estava dentro das engrenagens. Então a cadeira deixou o seu dedinho pendurado. Decepou parcialmente o dedo do rapaz.
Quando percebeu o sangue escorrendo, resolveu ir embora com o sangue escorrendo mesmo. Andando, foi encontrar a Conceição que tem atitude pra tudo e não deixa a peteca cair. Andou 800m até em casa. Já chegou chamando o vaqueiro e pediu que ele pegasse um facão para tirar o resto do dedo que estava pendurado.
Imaginem que situação! Que coragem! Pense na Agrestia da pessoa!
Mas a minha mãe interferiu, impedindo que a doidice acontecesse. Resolveram então ir até o hospital na cidade e foram atendidos por um médico que colocou o dedo da pessoa agreste no lugar, suturou tudinho e o fez ficar de molho(internado) por dois dias.
Freitas só conseguiu ficar sem trabalhar na roça, capinar, fazer cerca, dar comida ao bichos e plantar por uma semana. Depois disso ele estava com uma luva bem grossa fazendo arte no fundo da fazenda, já querendo ganhar o mundo outra vez. Como um menino levado que não consegue ficar parado! Um menino corajoso e forte de 75 anos!

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